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Sapatos

Estranho como a mente processa a memória e assim nos ofereça respostas. Os tempos são de angústia e ansiedade. As notícias que chegam de todo lado, só fazem trazer desgosto. Houve um tempo, que eu passava incólume por um mundo que se despedaçava, mas não me sinto mais capaz para isso hoje. E talvez a música no ouvido, injete uma porção de nostalgia no coração para que as nuvens mais escuras da alma, abram espaço para a boa sensação. Assim, você se contesta. É como se o homem de hoje, olhasse frente a frente nos olhos do menino do passado. 

As importâncias que se transformam. As prioridades que ficam para trás, solapadas por outras cada vez mais pesadas e estruturadas. Na rota intermitente e incessante da vida, que pode virar um enorme triturador de sonhos, se não for conduzida com mão firme. E as soluções nos jogos da mente, brotam, como respostas de pouca duração. 

Penso no quanto a maneira de se vestir, e mais especificamente de se calçar tem uma certa importância na vida das pessoas de meu povo, periférico, pobre, excluído. Na rua, nas portas dos colégios, vejo a molecadinha, vaidosa, com estilo. Dou risada pois não acho nada bonito, mas nessa idade tinha as mesmas preocupações. Certeza que estaria no meio.  Mesmo sem saber de onde isso tenha vindo.

Indo mais a fundo, lembro que um dos maiores distintivos sociais na minha cidade, em fins do século XIX era de que escravos andavam descalços. Além das cicatrizes no corpo, das marcas de propriedade de "donos", dos nomes que não eram deles, os pés tinham que ser calejados pela terra. Identificando quem eram, mas principalmente quem não eram. Daí uma vez liberto, a importância de se calçar. Pois ter sapatos, significa sua liberdade. Significa gritar ao mundo em sua veste que você não é aquele acorrentado e servil. 

Um pouco mais longe nessa divagação, e lembrando um pouco de minha história familiar e pessoal, lembro de meus pais, gente simples, sempre preocupada em nos passar a noção de estar limpo e bem vestido. Indiferente do dinheiro no bolso, indiferente de qualidade de materiais. Era preciso, transmitir essa mensagem, da boa aparência. 

Lembro ainda garoto, de dois tios, armando o cabelo "black" com o pente garfo. Eu assistia isso com admiração, via as hastes metálicas, a base de madeira, com um certo encantamento. No toca-discos o compacto do Tim Maia cantava: 

"Nem sei porque você se foi
Quantas saudades eu senti
E de tristezas vou viver
E aquele adeus, não pude dar
Você marcou em minha vida
Viveu, morreu na minha história
Chego a ter medo do futuro
E da solidão, que em minha porta bate
E eu, gostava tanto de você..."

A capa do compacto, com o próprio na capa, meio que servindo de modelo ficava num móvel ao lado de um espelho. Meus tios eram já quase adultos, e completavam o visual com a camisa, justa e colorida, a calça boca de sino e o sapato impecável de couro reluzente. Ainda lembro do cheiro meio mentolado de algum perfume, deixando rastro por onde passavam. 

Crescer em São Paulo na década de 80, nas bordas esquecidas da cidade exigia um determinado código de conduta. Com 15 anos, tirei minha carteira profissional, e depois do primeiro trabalho de office boy constar nela, meus pais me obrigavam andar com a mesma no bolso, na mochila, sempre ter por perto. Aprendizados familiares de uma vida em regime de exclusão. Aprender desde cedo, como lidar sendo o suspeito padrão.

E ainda nas primeiras (e frustrantes) entrevistas de emprego, colocava camisa "social", ia de jeans e sapato. Para transmitir "seriedade". Lembro de sentar no quintal, em frente à casa de meus pais. Minha mãe na cozinha, fazendo almoço, temperando o feijão, com alho, óleo, sal, esse cheiro que nunca esqueço vagando por todo espaço. Meu pai com uma latinha de graxa na mão, uma escova na outra me ensina como cuidar do sapato. Via suas mãos morenas como as minhas, mais avermelhadas em dia de calor, mais pálidas nos dias frios, contando a ascendência mestiça que temos. Ele falava mostrando, como espalhar a pasta preta, deixando o couro fosco, escovar no movimento de vai e vem e depois lustrar com uma flanela. Muitas vezes ele falou que eu não fazia direito, e com razão de causa, pois foi engraxate e sabia muito bem o que cobrar.

Na escola, os modelos de tênis iam ganhando importância conforme nossa idade.  Cada um que chegava com um calçado novo, logo o via ser espezinhado pelos colegas. A "estreiadinha" magoava, quem tinha aquisição e numa inveja perversa alegrava o resto do bando. Os Congas, Bambas, Kichutes, Montreal’s, Chinesinhos iam sendo desprezados, como um retrato de "pobreza" que uma adolescência sem saber, identificava e queria se distanciar. Chegava o Nike, o Fila, o Puma e mais tarde o New Balance. Comprados em carnê de crediário em magazines do centro. Invejados pelos que não trabalhavam ainda. Objeto de roubo (as vezes seguido de morte) em alguns casos, por mais absurdo que possa parecer.

Vi em um documentário, o começo dos bailes "black" na cidade.  E fui entendendo como a dinâmica da exclusão e apropriação do espaço por determinadas classes, abre espaço para sociabilidades únicas. O pessoal se organizava em frente o teatro municipal, panfletando, chamando para as festas. Como nos 70 e 80 aglomerações de preto em público era problema, a distribuição dos papéis das festas eram feitas com rapidez, e deixava o boca a boca fluir.  Quando a noite chegava todo mundo tinha a preocupação de comparecer, de curtir a boca música. Sempre bem vestido. Sempre bem calçado. Ali era hora do porteiro, entregador, da costureira, da babá, da cozinheira, do servente de pedreiro, brilharem como príncipes e princesas que poderiam ter sido.

Eu não sei se o que divaguei aqui tem fundamento. Eu sinto que muito do que vivemos vem de um entranhamento profundo de nossas gerações passadas, que nos constituem como pessoas hoje. E talvez eu sinta um deslocamento, ou um pertencimento forçado em mim mesmo hoje, por estar onde estou. É estranho como lutamos para conquistar, e as vezes nos confundimos com o que temos. Mas nesses vácuos da memória que as respostas venham. Dizendo que somos mais, do que calçamos.














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