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Showing posts from 2010

Enterros

Três enterros em três meses. Pensou em asas negras pairando sobre a família. Dois tios morreram num período muito curto, não se conformava que isso acontecia. Mas o baque maior foi no último. Ele recebeu por celular a mensagem. "Seu avô morreu". A ordem da vida se faz exata, mas mesmo o velho já havia visto isto, seu sangue baixara na terra duas vezes antes dele. Sabia que o avô entendia a dor da perda, e como por isso foi fechando-se em uma carcaça endurecida. Falava pouco, gostava de sua pinga, mas gostava tanto que a medicina separou este casamento de anos. Era um tanto embrutecido, pelo sol, pelo trabalho pesado e pelas derrotas da vida. Sub-alfabetizado trabalhara como chapa, de músculos poderosos erguendo como estivador a carga de caminhões e também descarregando deles a riqueza dos outros. O corpo na juventude fazia a pele negra brilhar intensa sob o sol. E as mulheres adoravam isso. Era bom com os nervos rijos do corpo e de braço. Nos botecos da vida, não levava...

verões perdidos e heróis japoneses

Nestes dias de verão abrasador, meio egípcio, meio grego, eu me lembro de coisas que talvez a memória sempre resguarde. Eram dias quentes como este. Fevereiro, fim de janeiro de um ano qualquer perdido á pelo menos umas duas décadas atrás. Eu ia para a escola com minha troupe de amigos. Zoneava pelo caminho, tocando campainhas, roubando frutas dos pés dos quintais, fugia dos cachorros. E esperava a chuva, para fazer corrida com palitos fósforo, no meio fio, ladeira abaixo. Para ver o asfalto (a maior novidade do bairro) quente soltar vapor...e ficar feliz por conseguir derrubar algum dos colegas nas poças d’água. E do nada a chuva ia embora, deixando uma brisa leve e fresca. Trazendo o cheiro de mato, de capim, de árvores, dos loteamentos que ainda não tinham casa. Nossos cabelos encharcados e roupas enlameadas...Eu corria para casa a tempo de jogar a roupa suja no cesto, e chegar antes de minha mãe voltar do emprego. Eu devia estar em casa antes, pois era o mais velho e tinha de cuid...

um dia perdido no tempo

Um garoto cruzou a cidade de ônibus, um tipo de música rápida e agressiva entra por seus ouvidos, fazendo que acompanhe as batidas rápidas e simples com tatear de dedos sobre a perna. Usava camiseta de uma banda americana, tênis e boné de uma marca de skate. A cidade cinzenta é impiedosa e o transporte inveriavelmente ruim. Os amigos do garoto o esperavam na porta de uma estação do metrô, mas o mesmo não chegava de onde ele vinha. Horas rodando, subindo e descendo para chegar ao centro. Chegando próximo da estação sentiu-se maravilhado com as pesadas e largas estruturas de concreto que erguiam como braços firmes, os trilhos do trem metropolitano ao alto. Até esse dia, ele não tinha entrado em um destes. Os jovens se cumprimentam, com seus toques de mão adolescentes, o garoto do ônibus segue seus amigos. Param diante de um bar, os colegas cumprimentam outros que se espalham pela calçada, é apresentado como um deles, e bem recebido pelo grupo que fica cada vez maior. Uma garrafa de vinho...

chuva na cidade.

Um trovão barulhento grunhiu no horizonte. Ele cobriu os ouvidos quando o relâmpago correu dando o aviso. A chuva o encharcava, os ventos eram como espíritos que não pedem licença e empurram corpos que não lhe apetecem possuir. Ele via o céu negro e pesado, com cores em tons chumbo. A calçada era sua e da água que lhe invadia os sapatos. Um roedor morto servia de dique numa sargeta, empurrava o fluxo da água para o asfalto. Estava com a barriga inchada, cheio de vermes que pululavam em vida, comendo sua morte. Ele sentiu-se um pouco assim, como que inchado por dentro, deduzindo que tinha os intestinos cheios de rancores. Suas pernas doíam, a cabeça rodava, vendo as feições secas, os espíritos ralos que se escondem nas carcaças dos homens e em seus guarda chuvas que passam. Sentou-se numa praça. Olhou um enorme monumento em bronze ser consumido do alto de seu olhar pedante e imutável, por resíduos de poluição que escorriam também para dentro dos pulmões Dele. Cansado. Encharcado. Corpo...