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Showing posts from 2006

trânsito.

Ele não dirige. Não tem carteira de motorista, nem carro. Ele sabe que um dos fetiches máximos da sociedade de consumo não o afeta. Ele preferiu ler, conhecer gente. Ele preferiu o curso de desenho aos dezoito anos, ao invés de uma poupança que lhe desse um fusca. Aprendeu como office boy que as ruas são mais vibrantes do lado de fora. Carros, carros têm aura de poder e status, em nosso mundo, que a maioria não compreende, simplesmente obedece ao desejo embutido sistematicamente. Vide a propaganda, feita para um único extrato de nossa sociedade. Protagonizada por lindas fêmeas, servis e fascinadas por bancos de couro e motores possantes. A distorção da propaganda, do querer a real potencia de um certo nervo e o cheiro de pele em prol da venda do produto.Tudo para o macho, branco, com o “poder aquisitivo”. Entende que “aquisitivo”, vem de adquirir, de possuir. E o macho-branco dominante de seu bando, tem que ter o signo da posse. Muito mais que um mecanismo de transporte, utilitário, o ...

o rabiscador, a internet e os solitários.

Pois bem. Ele não é mais que um mero rabiscador. Sem falsa modéstia. Ele sabe do potencial que tem, da vontade de pôr o câncer interior numa tela branca, e que há quem goste. Sabe transformar o vazio num mar de caracteres. Onde se reconhece, e se transforma em personagem. Ele se interpreta. Ele sente falta de si por não haver tempo em meio ao “matar o leão de todo dia”. Ele é sedutor, cativante, passional e com a vida presa num maxilar travado na boca. Sabe que seu alter ego talvez seja mais do que ele próprio. Os dias são de trabalhos e não é mais dado o espaço para a paixão. O combustível que o move, atração, sedução e descoberta estão em animação suspensa. Agora só existe o monitor. Não há alunos. Não há coordenadoras chatas. Existe a pesquisa. Existem as contas, elas nunca acabam, elas nunca vão embora. Não pior que os prazos e resultados. Todos saíram. Os casais ou foram ficar á sós, ou estão visitando famílias. É uma boa chance de trabalhar em solidão total. O gato amarelo como q...

a morte do jovem.

Esses dias onde acordo de noites mal dormidas, com mínimas horas de sono. Vejo os sinais de que minha juventude se esvai. Em como a biologia vai assinalando a velhice numa olhada no espelho, das rugas ao lado do olho e de onde o rosto ficará vincado Lembro dos protestos de rua que presenciei, e dos primeiros shows de hardcore onde eu não era mais publico. E em como alguns passaram em poucos anos do lado que carrega o cartaz, para o lado que avisa os policiais. No entusiasmo eu berrava o incomodo de minha alma, e em certa medida continuo fazendo.Com minha bermuda camuflada e camisetas pretas, com o cabo do microfone enrolado no meu pulso.Busco a fórmula sem saber passar isso adiante. Tudo isso parece um álbum continuo de fotografias que vão e vem no fluxo de memórias. Manter-se jovem é manter o espírito. Não é render-se á uma mentalidade reacionária, que negue o que você acredita em troca do que o padrão vigente de comportamento considera “maturidade”, ou pior “aceitável”. Não é conserv...

augusta, charm, dejetos da humanidade

Cruzar o bairro em suas mais variadas direções é um exercício não só físico, mas que privilegia a apreciação do zoológico á céu aberto que é o perímetro central de São Paulo. Subir a Rua Augusta, entre néons dos puteiros, com o forte cheiro de amoníaco nas portas e calçadas, cheiro de sexo que impregna a pele. Um sexo pago, o sexo sujo, que é unilateralmente prazeroso sem dores de consciência. Um prazer que fugiu á tranca afrouxada de uma moral doentia e entrou na roda dos bens de consumo e prazer imediato. Subir, ascender ao “paraíso” (que na realidade fica na outra extremidade do cume da Avenida Paulista), torres de vidro do poder, antenas gigantescas da ostentação, o tecnológico e o analógico juntos, formando uma alegoria anacrônica de um corredor de pujança econômica.Essas caminhadas me excitam a observação. Ao fim do dia é bom tentar reorganizar as idéias e escrever sobre. Terapia leitor, não mais que isso. Eu me detenho á alguns metros antes de chegar ao topo, suor numa noite fre...

entre a possibilidade, o inesperado e o inesperado da possibilidade

Ela estava numa mesa do outro lado do bar Sentada com uma amiga rindo de minha barba Testei-me na cara de pau e ri sem graça Ela me desafiava com o sorriso, num cochicho com a outra Fui criando coragem á goladas compulsivas de refrigerante Alguém somou-se a mesa delas, enquanto amigos meus percebiam o flerte e riam Não quis desacreditar e fiz-me de corajoso Indiferente á minhas estratégias não realizadas e paranóias Ela me sorria, me convidando com olhos mudos a entrar em seu mundo Seria uma chance á possibilidade? Testes inesperados do julgamento da vida que põem abaixo minhas certezas? Era a festa de um amigo e nada em volta fazia sentido com aquele olhar em mim Fui ao banheiro conversar com meu bagos e busquei coragem olhando-me no espelho Ao sair de lá fui até sua mesa Ninguém ocupava a terceira cadeira, e me ofereci com um sorriso descarado Indo á partir dali da conversa fiada á pseudo-erudição Ela quis saber mais do que o sabor de minha boca,...

o jardim das flores negras

Durante a existência de todo ser, a sua vida é a luta, de ser, de sobressair e de sobreviver. A superação da dificuldade, cria a força que aumenta no ímpeto de seguir adiante. O trauma faz parte do aprendizado. Ele ensina os limites e mostra até onde. Delimita a força a ser feita para vencer o desafio. Existem os homens de aço, aqueles que incorporam em seu ser o mito do super-homem. A dura carapaça camufla a fragilidade, esconde o medo. Camadas de segurança costuradas firmemente pela confiança. Mas o que é o desatar do nó? Ver-se se esvair a malha segura sendo puxada por um fio solto. Aquele medinho mais secreto no cantinho da alma, desfazendo a trama. Para que o outrora confiante, seja tragado pela autopiedade. Acovardar-se, deixar a oportunidade, e acariciar a tristeza. Temer não é crime, temer é saber até onde ir ciente de sua dificuldade. Mas o temor desmedido, num rompante romântico gera esse mau crônico de que “todo mal do mundo se abate sobre mim”. Síndrome de vítima. Se mata...

uma observação vulgar acerca do macho alpha.

A humanidade é composta da animalidade. Do fator bicho que existe dentro de cada um. O instinto que permeia nossos atos, tidos como racionais. Eu observo isso no dia a dia, tentando entender. Como se portam em seu sítio, em seu habitat natural, macaqueando-se , mordendo-se ou catando piolhos. Morar numa metrópole privilegia a possibilidade de conhecimento de uma gama muito grande de espécimes. Já discorri sobre alguns determinados tipos, noutras divagações digitadas em horas outras. Hoje lembrei de dois casos ocorridos dias atrás. Fizeram-me viajar numa porção de questões pessoais, de relacionamento e de convivência. Como pode ler, ingredientes presentes nos mais variados zoológicos do mundo. Não é a primeira vez que vou dizer que tenho fascínio por mulheres. Sua complexidade me atrai, a companhia delas me ensina uma porção de coisas, alem de ser agradável ao meu ego e instintos carnais.Eu conversava com amigos na faculdade acerca de relacionamentos, e observava nos corredores...

balanço sobre os tempos e a maturidade.

Enfio-me no quarto com um caderno em mãos. É estranho, vez por outra digito o que penso, o que sinto, e parece que a ultima vez á compor um texto escrito com as próprias mãos foi no século passado. O computador na sala esta ocupado. Sheldon e namorada rodam a internet. Na área de serviço Stuart e sua jovem companheira, riem um do outro brincando, enquanto a máquina de lavar trabalha. Hoje meu quarto tem uma cama. Céus, fazem anos que não tinha uma cama que pudesse dizer “minha”. Tolo isso não? Sim, considerando que os últimos anos tudo era dividido. Dá comida aos lençóis. Eu nunca me apeguei ao material á ponto de arrastar coisas em minhas separações, me bastam as lembranças, não preciso de lembretes. Alem de tudo sou o ótimo construtor que deixa para trás o que ergue...Agora sou um, e até quando não sei. Com uma incrível felicidade nisso, isso dá uma imprevisibilidade, que gera o mais intenso dos intensos para se deslocar entre os dias. Fico aqui deitado, e Theo o gato amarelo me obs...

Cornelius

"Beware the beast man, for he is the Devil's pawn. Alone among God's primates, he kills for sport or lust or greed. Yea, he will murder his brother to possess his brother's land. Let him not breed in great numbers, for he will make a desert of his home and yours. Shun him; drive him back into his jungle lair, for he is the harbinger of death. "

a invenção do amor.

Foi numa manhã de domingo. Havia sol, e uma brisa suave que passava pelas frestas da janela. Quando abriu os olhos o quarto ainda era o mesmo de sempre. O colchão no chão, os poucos móveis dispostos como sempre nos mesmos lugares. No carpete as embalagens de preservativo rememoravam alguma coisa sobre a noite passada. Ele se move, ficando de barriga para cima,um braço no abdômen outro por trás da cabeça. Fica uns bons minutos divagando e observando a lâmpada no teto, sem ter nenhuma ligação com seus pensamentos. A companhia ainda estava lá. Ele pensa, no possuir, e não ter. E as propriedades inversas das relações. Do dilema do quanto de se trepar, tendo por outro lado que acordar com alguém que não se quer do lado. A garota respirava baixinho, e buscava sua mão, um abraço de conchinha, um chamego que valesse para completar a imagem boa que se pode ter de uma manhã de domingo. Ele estava incomodado. Não era algo por demais exagerado, mas que não andava no ritmo de sua dialética pessoal....

o jogo de aproximação e observação

A vaidade é algo que tempera os dias que passam e correm no fluxo das semanas. Sentir-se desejado ou querido, é algo que faz bem á qualquer alma. Numa cidade como esta, um amontoado disforme de concreto, apinhado de seres perdidos é como um alento. Vivemos o signo da paranóia. Da neurose. Seja vencer o trânsito e chegar no seu lar. Seja trepar com a gostosa do escritório. Seja comer um sanduíche numa hora de muita fome, ou o impensável, de mandar a merda o chefe que fode sua vida. A cada não realização, a neurose aumenta, transformando esta distância do desejo num abismo cada vez mais instransponível. E a biologia atesta e comprova, com uma porção de patologias que advém deste ritmo doentio que vivemos. Eu poderia como amigos meus dizer que é, o “dilema da pós-modernidade”, mas não gosto de usar o “conhecimento”, a pseudo-erudição de cinco semestres da faculdade, para empolar minhas frases. Valorizo o que descubro no meu dia a dia, acima de análises teóricas e distanciadas do viver i...

Portaria

Blam! Era o portão batendo. Aquele merda de morador deveria estar chegando bêbado depois do trabalho e irritado por Ele estar fechado ( e cochilando) na guarita. Por não tê-lo visto e demorar para destravar o mesmo. Era isso. O morador do bloco A, apartamento 23, era adepto da cachaça. Sem controle. Antes soubesse ele que seu vizinho do bloco D, que ficava ao lado, e tinha vistas para seu apartamento sempre estava na companhia da mulher do descuidado alcoólatra, nestes longos períodos de boteco. Cumprindo a função que ele como macho não tinha condições. E ela quando recebia o “doente” maridinho, o abraçava, enchia de carinhos, ainda com o cheiro do outro no corpo. Ainda mais o amante sendo um tipinho sem classe, um borra bodas qualquer que adora vangloriar-se das conquistas. Tem por diversão interfonar na recepção para perguntar o que sabia, pelo puro prazer de encher o saco. Ele, agora um humilde e mau-humorado porteiro, tinha acabado de se separar, o rancor afiado como uma faca na l...

sujeito homem

A virtude de se estar na academia é saber a quantidade infinita de livros que vai ter de ler durante a vida. Se este for o interesse para com a carreira. Buscar erudição... Este é o pensamento que roda dentro de Sua cabeça, nos últimos meses. O de que tem uma tarefa imensa e invencível pela frente. A teoria se enfia de tal forma, que nada mais parece existir de fato. Nada sem a explicação da lógica que alguma alma afortunada e abençoada pela “benção” da universidade. Sua vista cansa entre linhas tortas e profundas como um pires, porém muito bem embaladas e devidamente empoladas para parecer o mais “profundo e rebuscado” possível. A petulância. A arrogância. A prepotência de quem “vê” e não vive. Textos que querem explicar os meandros da sociedade, vistos por uma analise distante, fora da relação imediata, do esbarrão na calçada. Sua vista dói. As costas também.Os ponteiros do relógio na parede da biblioteca, sempre agem contra. Rápidos quando Ele não tem tempo, lerdos quando desgastado...