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Showing posts from 2008

coleções.

Depois de coletar a voz do mendigo pôs se a andar e pensar. O ancião abandonado a sorte era uma figura única. Andava com um alegre cachorro preto, escrevia coisas desconexas, mas ao mesmo tempo geniais em pedaços de papelão. Deu uma refeição como “pagamento” pela voz. O mendigo em sua loucura e crostas de sujeira exalava sabedoria. O velho despediu-se e seguiu sua vida. Ele por outro lado estava empolgado com a gravação. Pos se a andar freneticamente pelo parque. Tinha um fone de ouvido na mochila. Tirou este e plugou no pequeno aparelho de gravação. Mergulhou de novo na história do homem, lembrou-se de uma mulher, de bailes no Mont Martre, no poder que o dinheiro traz, e a derrocada advinda de sua ausencia. Devaneios, pensou ele. A paisagem a sua volta mudava. Pensou em como a insanidade pode ser criativa. Cruzou o parque, saindo dos caminhos de pedra, pisando na grama com o sol de fim de tarde em sua face. Com o caminhar trocou a voz da gravação, por uma caixinha digital que comporta...

prefácio para um cenário de histórias

A cidade cinzenta parece ser uma criação do tempo. Não este a matéria prima da história, e sim um escultor, personificado, que fosse amigo do destino. E que com ele conversa para compor grandes obras. O tempo parece ter falanges firmes e habilidosas, uma mão trabalhadora dura de veias visíveis, que talhou a cidade, pedaço a pedaço em nacos de imortalidade. Parece tão firme e rija, que transcende, transpassando um sentimento de imutabilidade. Da pedra que vence os anos. De mil torres que raspam o teto dos céus com antenas que irradiam sinais sem fim. Quem de fora vem, ou observa imagina que ali sempre esteve, testemunho de eras. Estendida sobre um planalto distante algumas horas de um litoral bravio. Vencer a serra era proeza heróica nos anos de fundação em tempos que não foram escritos. Índios já conheciam a rota a séculos, antes do homem branco sequer chegar nesse continente trazendo suas doenças e transformando tudo ao redor. Desacralizando o chão, vulgarizando a criação. Hoje a cida...

asfalto

Sentia o vibrar da moto entre as pernas, as mãos gelavam ao vento sobre o guidão. Dentro do capacete rangia os dentes, o que parecia uma resposta natural para a temperança descontrolada de seu espírito, que arde furioso. Em seus dias stressantes, nada melhor que se entorpecer no próprio vício. Chefes, patrões, cobranças, todas depositadas no ouvido. A conta bancária que cresce um pouco quando ele se joga ao infinito, pondo mais do que seus próprios ossos a prêmio de platina. As ruas da cidade cinzenta se fossem pelo humor dele, estariam derretidas. Na metáfora de seus sentimentos, seria o inferno na terra. O relógio cobra, a secretária, o cliente. Vence um a um semáforos, até que para no último, mais rápido que ele. O motor rosna. Ele sente raiva, por tudo ao redor, por ser cobrado, requisitado, exigido, ele vê isso em todo lugar. Até nos olhos por trás do vidro escuro no carro ao lado no farol. Mas ninguém pensa que pode receber o troco. Cento e vinte e cinco cilindradas são muito po...

sombras.

Esperava dentro do carro. Olhos fixos no outro lado da rua. Deixara o celular no modo silencioso, e agora o retirava do bolso para conferir as horas. Em alguns minutos quem aguardava ia aparecer. Deu uma rápida olhadela pelo retrovisor, ninguém ia ou vinha, como ele bem previra.As coordenadas que recebera estavam corretas. Elas sempre eram precisas. Estava tranqüilo. Tinha jantado horas antes. Quando saia a noite sempre jantava. Era um costume que a mãe lhe incutira desde de garoto. O carro todo estava imerso na escuridão da noite, a estação ajudava, escurecia cedo, mas a tranqüilidade do bairro se dá por ser afastado. Abrigo de classe abastada que não quer se ver cercada de miséria. Uma nova percepção de “exílio” na cidade com a proteção dos bolsões residenciais. O celular trabalhava como relógio. Um sutil toque, ainda que sentido por luvas, dava o tempo que se precisava saber. Por outro lado o pequeno aparelho não cumpria sua função primeira com tanta freqüência. Uma pessoa apenas sa...

o girar das rodas

Olhara o relógio no topo da estação ferroviária. Os dedos das mãos, grossos e enrugados seguraram o aro externo da roda da cadeira, mesmo assim, enfiando-se entre os raios das rodas impulsionando a cadeira para adiante. Os músculos do braço acostumados ao trabalho de fazer o esforço que foram um dia das pernas, nem se apercebem da ação. Mesmo sendo parte de um corpo arruinado pelo tempo e desgaste, tudo funciona, em instinto como as máquinas velhas que nunca precisam de manutenção. A palma da mão seguindo o plano tão entranhado na mente também nem sentia a textura dos pneus, seguia o trabalho automático, repetido, pragmático. Quando ganhou embalo num pequeno declive da calçada, aproveitou para tirar o cabelos lisos e brancos do rosto. Esses vincos, rugas, feridas do tempo, encaixavam-se bem enquadrados na velha moldura do rosto. Olhos que á tudo percebiam, que tudo registravam no movimento das ruas. Parecia talhado na madeira, como carrancas ancestrais, só que sem o aspecto fabuloso, e...

festa de casamento

A voz familiar no telefone havia feito o convite á dias. Diferente de como se dá o ritual normalmente não era um belo papel timbrado, com alto relevo e letras gravadas em tinta dourada. Foi com a voz grave, até meio italiana, como sabia Ele ser a origem do amigo, que se deu. “Venha á minha festa, venha á festa de meu casamento”. Não era o primeiro convite desse tipo que recebia.Alguns dos poucos verdadeiros amigos de sua vida, já passaram pelo ritual. Ele esteve presente ao enlace de alguns. Passando-se dos 30 anos, isso vira quase uma rotina para quem mantêm os amigos próximos. Assim ele percebe o amadurecer e o medo da solidão, e viu que muitos “amarravam-se” pela iminência de um futuro do lado de fora da porta, ou simplesmente por não conseguir sair de um modelo que perdura em repetição geração a geração. Ele ficou feliz pelo amigo, lisonjeado por si e empolgado por saber que festas de casamento, ainda mais em bairros periféricos são mais que a celebração do vínculo sagrado é o conj...

antíteses

Ela ficava irritada quando ouvia o sinal da secretária eletrônica ou da caixa postal do celular Dele. Tentara ligar do escritório, infinitas vezes o quanto pode, enquanto a mão direita rabiscava formas irregulares num bloco de rascunho. O movimento as vezes alternava, virava batidas descompassadas, ou perfurações psicóticas no papel no auge da irritação. A desordem dos desenhos, ia na contramão da firmeza como conduzia suas coisas. Era bela, esguia, tinha uma olhar felino e estreito, mais assinalado pela armação dos óculos. Séria. No local de trabalho não se faz amizades. Não sabia muito bem o que a movia em insistência a ficar discando á alguém que não á atendia. Que não mais tinha que se preocupar. Um incômodo estava instalado dentro dela, batia no peito de dentro para fora. Ela detestava ficar com pontas soltas, mau amarradas.Com conversas que terminam sem ponto final. Nunca deixava nada para depois, o que tivesse de ser resolvido era para hoje. No derradeiro e repetido sinal de cai...