Depois de coletar a voz do mendigo pôs se a andar e pensar. O ancião abandonado a sorte era uma figura única. Andava com um alegre cachorro preto, escrevia coisas desconexas, mas ao mesmo tempo geniais em pedaços de papelão. Deu uma refeição como “pagamento” pela voz. O mendigo em sua loucura e crostas de sujeira exalava sabedoria. O velho despediu-se e seguiu sua vida. Ele por outro lado estava empolgado com a gravação. Pos se a andar freneticamente pelo parque. Tinha um fone de ouvido na mochila. Tirou este e plugou no pequeno aparelho de gravação. Mergulhou de novo na história do homem, lembrou-se de uma mulher, de bailes no Mont Martre, no poder que o dinheiro traz, e a derrocada advinda de sua ausencia. Devaneios, pensou ele. A paisagem a sua volta mudava. Pensou em como a insanidade pode ser criativa. Cruzou o parque, saindo dos caminhos de pedra, pisando na grama com o sol de fim de tarde em sua face. Com o caminhar trocou a voz da gravação, por uma caixinha digital que comporta...
textos, contos, rabiscos, percepções.