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Showing posts from 2007

o morrer nosso de cada dia.

Mais do que nunca é refém de seus pensamentos. Pensa com seus botões, em como tudo de errado pode se abater por vezes consecutivas sobre sua cabeça. Olha para o visor partido do celular, os minutos que voam, ou às vezes que ficam inertes. Ele deveria se levantar mas não consegue. Algum tipo de letargia imobiliza sua vontade. Tenta empurrar a síndrome de vitima para longe, mas sabe quem é, quem se fez, e que mais que a vontade,o corpo tem que responder com o esforço físico. Isso não é o que vai lhe abater. Tudo escurece e clareia, oscilante. Sua garganta dói. O estômago tem um pequeno revirar, a coluna tem as dores esparsas, como parasitas presos em seu tronco, presentes de noites mal dormidas. O sono que se esvai na paranóia, e também pelo alarde do casal que se esmurra bêbado todas as noites no apartamento ao lado.A dor é moral, é espiritual e é carnal. Em cacos de espírito e cartilagens rebentadas.Da miséria e da derrota para o sistema. “Somatizar”, não é funcional apenas, nas neuros...

cachorro e papelão.

Olho para o espelho d’água que é a fonte de rua.Vejo meu cabelo comprido, a barba já indo longa,minhas rugas e cicatrizes. O sol circunda meu rosto disforme, as ondulações fazem meu queixo tocar a testa,encobrindo um olho. O astro rei brilha em fogo atrás de mim, aquecendo minhas costas, secando cada palmo de pele seja esticada ou enrruagada, tostando, jogando dentro de minha retina um brilho cegante. Uso trapos. Camisa, uma calça frouxa amarrada com uma corda improvisada como cinto. Fosse noutro tempo não agüentaria o odor que sai de mim, hoje tanto faz. Ser homem em parte é aceitar-se, é conformar se com o que se é. Ou não? Que pensamento foi o que realmente talhei? Como meu cheiro, este pensamento perdido também, tanto faz, se foi, uma hora volta. Sei que noutros tempos, já pensei muito em quem sou, no que me tornei e no que fui um dia.O fluxo de pensamento me foge e no mais tudo é sem importância. Os fragmentos vem e vão, as vezes acho que tenho uma geléia muito mole dentro da cabe...

gandula.

A bola de capotão ganha o vazio tranqüilo dos céus azuis do Bom Retiro. É um dos poucos momentos de paz que a esfera tem nos prováveis 90 minutos que irão se seguir. Disputada com vigor e dedicação entre 44 pés (e quem sabe , fora à vista do juiz, algumas mãos não autorizadas também) ligados á olhos aguçados, cérebros de raciocino rápido que montam em velozes conexões mentais, esquemas, para que a pelota adentre o gol adversário. As instruções dos muitos “técnicos”, e “peritos”, são praguejadas, esbravejadas com força, desabando pelo ar das gargantas que ocupam as arquibandas. Obvio que movidos pelo calor do dia, e de um desejo quase primal, ao lado de fora dos rudimentares alambrados. Os pretensos treinadores, cada um de seu lado da lateral, também gritam, pensam, xingam da beira do campo. Incrível como parecem surdos, como mantêm-se aparentemente frios em meio a tanta agressividade. Rememoram seus craques, cobram posicionamentos, estimulam e aplaudem bons lances. Do mesmo modo que nã...

Festa de fim de ano. (ou de um dezembro perdido no passado do intelectual-peão)

As convenções sociais pregam certas peças. Pequenos joguetes do dia a dia que uns deixam passar, mas impregnam em minha mente como “análises”. Isso piora quando se pensa que onde vivemos é um lugar de tantas disparidades. Pessoas passam fome. Dormem na rua. Outro mata por pouca coisa. Quem deveria te proteger te rouba. Quem deveria te cuidar te extorque. E ainda assim as pessoas se atem a certos rituais. Por mais que eu não queira uma situação onde “alguém” ou um “ente” faça por mim. Passamos em pouco tempo de um pseudo estado de bem estar social, para o do semicaos urbano. Seja no metrô, no ônibus, no trânsito, as pessoas empunham seus gládios e elmos diários, suas armas de batalha cotidiana, língua, resmungos, competitividade. Como que com “cotovelos de faca” numa lotação que vem de lá dos cafundós da zona leste, de cara amarrada e o astral destruído aos quilômetros passados, ótimo jeito de começar a semana. Para os fãs de Mad Max (como eu) isso é “estar em casa”.O mês é dezembro, e ...

De Meus Muitos Eus.

Sou ciente das minhas limitações e que não decreto aqui uma teoria, mas pequenas percepções acerca de um pensamento ainda não tão bem lapidado. Eu vejo, sinto e observo as pessoas, analiso de minha diminuta percepção o formato de nossa sociedade. Não tenho a pretensão em grandes elaborações, o que segue abaixo é fruto de vivência, observação e questionamentos. O que o constitui o homem como indivíduo? Podem surgir milhões de respostas considerando um possível entendimento e levando em conta as mais variadas formações, os nichos de vivência, esferas de convivência e principalmente a história pessoal de cada um. Pouco é o tempo que nos resta sempre, para que possamos realmente avaliar e fazer uma análise pessoal sobre nós mesmos, para aguçar nossa percepção sobre a interação do “eu” com o mundo ao redor, reavaliando o que vivemos, como vivemos, para que vivemos e quem sabe para perceber talvez, os “por quês” de certas atitudes e receios nossos. Eu pensava que para entender essa constitui...

Jessé ou a lei de Talião

O garoto tem uma arma em sua mão. Um taurus calibre 38. Uma arma velha e possante de cano curto. Esculpida em metal, cabo de madeira e recheado de chumbo e pólvora esperando ser acionada. O garoto que segura a arma tem as mãos pequenas de um adolescente. Veste uma camiseta rasgada, da gola até o peito.Magro, um pouco subnutrido tem abaixo do olho direito uma marca roxa que o corpo jovem vai esquecendo com os dias. Tapando a boca do cano encontra-se o couro cabeludo de outro um pouco mais velho, talvez uns três anos á mais. O maior treme assustado, o olhar tenso, o corpo trêmulo, o jeans úmido pela urina que escorre descontrolada por suas pernas. O garoto menor segura o cabo da arma com a convicção de quem nada mais tem a perder. Esbraveja para a multidão que o observa, desafia, xinga com uma coragem que nunca teve. Sua platéia esta confusa, indignada, revoltada, não sabe se crê no que vê, ou se segue sua vida, no caminho apático de uma semana qualquer. Ele grita com a voz trôpega de qu...