Ele não dirige. Não tem carteira de motorista, nem carro. Ele sabe que um dos fetiches máximos da sociedade de consumo não o afeta. Ele preferiu ler, conhecer gente. Ele preferiu o curso de desenho aos dezoito anos, ao invés de uma poupança que lhe desse um fusca. Aprendeu como office boy que as ruas são mais vibrantes do lado de fora. Carros, carros têm aura de poder e status, em nosso mundo, que a maioria não compreende, simplesmente obedece ao desejo embutido sistematicamente. Vide a propaganda, feita para um único extrato de nossa sociedade. Protagonizada por lindas fêmeas, servis e fascinadas por bancos de couro e motores possantes. A distorção da propaganda, do querer a real potencia de um certo nervo e o cheiro de pele em prol da venda do produto.Tudo para o macho, branco, com o “poder aquisitivo”. Entende que “aquisitivo”, vem de adquirir, de possuir. E o macho-branco dominante de seu bando, tem que ter o signo da posse. Muito mais que um mecanismo de transporte, utilitário, o automóvel é a trepada fácil, é a “extensão peniana” da mediocridade. Compensação do que falta á muitos machos, o “signo de sua insegurança”, ele pensa. Onanismo motorizado, á ser polido todo fim de semana, ser incrementado na falta de assunto por som, luzes, trabalhando a casca, pois na verdade não importa o conteúdo.
Ele adora as mulheres que dirigem, que o levam até sua casa, ou que se vão na madrugada de sexo bem resolvido e amigo. Sabe-se sensível, por não entender de “cavalos-força”, e por ser um dos poucos que no carro delas não implica com a forma como dirigem. Basta estar ali, rir, divertir-se e descer quando chegar o destino. O ônibus que o guia faz o mesmo trajeto. As pessoas tornam-se mais fascinantes na diversidade e a mudança da paisagem no dia a dia, é mais que cenário da passagem, é seu mundo. O chacoalhar, os esbarrões, mostram a natureza humana que ainda não foi roubada ou devidamente individualizada na esfera “segura” de aço e vidro. O discman prossegue sendo trilha sonora dos atores diante de seus olhos.Da crueza hardcore á sensibilidade acústica de violões tristes. E ele ri ao pensar que não tem IPVA, seguro, despesas com gasolina, flanelinhas, manutenção, estacionamento em suas despesas. De como é bom apenas programar-se quanto ao coletivo e não ter que gastar mais para divertir-se. De como seu gosto é apurado demais para se empolgar com a breguice do tunnig.
Carros são “veículos” pensa, e o próprio termo pressupõe “veicular”, deslocar-se, sendo a assim a transmutação em “bem de consumo” muda a valoração atribuída. Durante sua vida ele buscou a não preocupação, o desprendimento, e a atribuição de um determinado status o inclui no time dos “perdedores”, dos “mau sucedidos”, isso só confirma como ele não dá a mínima para este mundo, para suas regras e jogos. Ele absorveu o stress caótico da cidade como o alcoólatra que sorve seu vício. Mas não compreende o ar condicionado, o banco de couro, o cd player de mp3, as bazucas de som, o turbo, as luzes, os volantes esportivos, os câmbios cromados, se o objetivo é ser entregue no destino que se deseja. A questão é muito mais que conforto. É muito mais que o bem estar do momento, é na realidade o ver e ser visto, sobretudo desejado pelo que se tem.
O motorista de Seu microônibus tem a cara amarrada. Calvo, com o rosto precocemente acabado, lembrando o finado técnico de futebol Telê Santana, em seus últimos dias. Destrata passageiros, e acelera em brechas de espaço no asfalto, reduzindo tempo, querendo ganhar mais. O cobrador não deve ter seus 20 anos ainda, e com o cartão eletrônico preso por um cordão ao pescoço vai liberando a catraca e “acelerando” a passagem dos que entram. Cada parada novos corpos, homens, mulheres, crianças, velhos. Ele vê da janela no trânsito um mar de automóveis imóveis na grande espinha que se forma nos faróis. O relógio de rua marca meio dia e quarenta (esta no prazo para a reunião) e nos segundos seguintes aponta os 25 graus de um dia mormacento sem sol. Ele pede a sacola de uma senhora que entra, sem a mínima vontade de dar o lugar a ela. Aos poucos pega no sono sentindo sob seu traseiro a vibração das rodas, do asfalto e do trânsito. É acordado pela senhora agradecendo e descendo da van rumo á seu destino, Ele já chega á metade de seu caminho. Nos motoristas, Ele vê o poder nas mãos, a sensação de serem guerreiros modernos no “eu contra todos”. O trânsito talvez seja a personificação mais clara da sociedade de disputa e competição. Enfileirar-se lado a lado, cortar, mostrar-se dono espaço, não ceder ao coletivo, em feições transfiguradas. A luta de dar um nó em uma relação que não se muda. O tempo versus o espaço. Falta de paciência, stress no indissolúvel de nosso mundo. O tempo é dinheiro, o espaço o atraso em ganhá-lo.
O baque é seco, e por ser exatamente atrás de suas costas Ele tem o privilegio de ver com uma proximidade assustadora quem atinge. Uma caminhonete de entregas. No volante um homem jovem, com o rosto assustado e uma reluzente aliança de noivado num de seus dedos. O temor se constata pela rápida manobra e fuga imediata. As emoções afloram no asfalto, o ódio, a raiva, o medo, a vingança. A esta altura a tribulação já reduzida é majoritariamente de mulheres, que se ficam estáticas quando o microônibus deixa o itinerário e passa acelerar cada vez mais atrás da caminhonete. Faróis ultrapassados, buzinas insistentes, palavrões cada vez mais altos. Curvas feitas com a inclinação máxima que um veículo deste porte pode dar sem tombar. Cabelos esvoaçantes ao vento das janelas abertas.Até que a van é atirada na frente da caminhonete, fechando o cerco. Neste momento Ele pensa nos resultados, no horário da reunião e da distância que está de seu destino. Ele vê garotas com os lábios trêmulos, e pseudo-valentões que não conseguem antever a possibilidade de que pessoas em cidades grandes andam armadas, e cada vez menos preparadas para isso.
O bate boca transcorre na mesma medida que a ruela sem espaço vai criando uma fila imensa de outros motoristas igualmente impacientes. Ele ouve o volume da voz de “Telê Santana”, subir enquanto o jovem fujão se mostra cada vez mais temeroso em suas explicações. Buzinas reclamam, em uníssono, num coral barulhento e desarmonioso. Ao ver que nenhum tiro é disparado, pois ninguém de fato estava armado, decide ir ao orelhão e avisar sua chefe sobre seu atraso, por mais surreal e mirabolante que a situação possa parecer. Ela atende e rindo o entende. Isso o tranqüiliza. O imediatismo da vida metropolitana se personifica na resolução dos problemas, da troca de telefones e cheques feitos ainda quando está na escada de entrada do ônibus. E mesquinhez na intromissão do passageiro inxerido que insiste em dar pitacos na discussão ao qual não foi chamado. Quando o mesmo o aborda esperando uma concordância, Ele o mira, faz um olhar de desdém e diz unicamente “Cuide de sua vida”.O interlocutor arregala os olhos por trás dos ridículos óculos escuros e se cala. O caminho até seu ponto de descida, na Barra Funda é feito em menos tempo que o normal. Ao por os pés no chão ele se vê de frente para o metrô, multidões saem e entram, o ponto de táxi esta também movimentado. Ele joga a mochila nas costas, liga novamente o discman, atravessa a rua após olhar para ambos os lados e ouve um distante “filho da puta” ser berrado para um motorista que fecha outro após cruzar a rua. A reunião já deve ter começado, ele tem 5 quarteirões para transcorrer a pé, sem stress, ouvindo música, rindo tranqüilamente, pois definitivamente os fracassados estão atrás dos volantes.
Ele adora as mulheres que dirigem, que o levam até sua casa, ou que se vão na madrugada de sexo bem resolvido e amigo. Sabe-se sensível, por não entender de “cavalos-força”, e por ser um dos poucos que no carro delas não implica com a forma como dirigem. Basta estar ali, rir, divertir-se e descer quando chegar o destino. O ônibus que o guia faz o mesmo trajeto. As pessoas tornam-se mais fascinantes na diversidade e a mudança da paisagem no dia a dia, é mais que cenário da passagem, é seu mundo. O chacoalhar, os esbarrões, mostram a natureza humana que ainda não foi roubada ou devidamente individualizada na esfera “segura” de aço e vidro. O discman prossegue sendo trilha sonora dos atores diante de seus olhos.Da crueza hardcore á sensibilidade acústica de violões tristes. E ele ri ao pensar que não tem IPVA, seguro, despesas com gasolina, flanelinhas, manutenção, estacionamento em suas despesas. De como é bom apenas programar-se quanto ao coletivo e não ter que gastar mais para divertir-se. De como seu gosto é apurado demais para se empolgar com a breguice do tunnig.
Carros são “veículos” pensa, e o próprio termo pressupõe “veicular”, deslocar-se, sendo a assim a transmutação em “bem de consumo” muda a valoração atribuída. Durante sua vida ele buscou a não preocupação, o desprendimento, e a atribuição de um determinado status o inclui no time dos “perdedores”, dos “mau sucedidos”, isso só confirma como ele não dá a mínima para este mundo, para suas regras e jogos. Ele absorveu o stress caótico da cidade como o alcoólatra que sorve seu vício. Mas não compreende o ar condicionado, o banco de couro, o cd player de mp3, as bazucas de som, o turbo, as luzes, os volantes esportivos, os câmbios cromados, se o objetivo é ser entregue no destino que se deseja. A questão é muito mais que conforto. É muito mais que o bem estar do momento, é na realidade o ver e ser visto, sobretudo desejado pelo que se tem.
O motorista de Seu microônibus tem a cara amarrada. Calvo, com o rosto precocemente acabado, lembrando o finado técnico de futebol Telê Santana, em seus últimos dias. Destrata passageiros, e acelera em brechas de espaço no asfalto, reduzindo tempo, querendo ganhar mais. O cobrador não deve ter seus 20 anos ainda, e com o cartão eletrônico preso por um cordão ao pescoço vai liberando a catraca e “acelerando” a passagem dos que entram. Cada parada novos corpos, homens, mulheres, crianças, velhos. Ele vê da janela no trânsito um mar de automóveis imóveis na grande espinha que se forma nos faróis. O relógio de rua marca meio dia e quarenta (esta no prazo para a reunião) e nos segundos seguintes aponta os 25 graus de um dia mormacento sem sol. Ele pede a sacola de uma senhora que entra, sem a mínima vontade de dar o lugar a ela. Aos poucos pega no sono sentindo sob seu traseiro a vibração das rodas, do asfalto e do trânsito. É acordado pela senhora agradecendo e descendo da van rumo á seu destino, Ele já chega á metade de seu caminho. Nos motoristas, Ele vê o poder nas mãos, a sensação de serem guerreiros modernos no “eu contra todos”. O trânsito talvez seja a personificação mais clara da sociedade de disputa e competição. Enfileirar-se lado a lado, cortar, mostrar-se dono espaço, não ceder ao coletivo, em feições transfiguradas. A luta de dar um nó em uma relação que não se muda. O tempo versus o espaço. Falta de paciência, stress no indissolúvel de nosso mundo. O tempo é dinheiro, o espaço o atraso em ganhá-lo.
O baque é seco, e por ser exatamente atrás de suas costas Ele tem o privilegio de ver com uma proximidade assustadora quem atinge. Uma caminhonete de entregas. No volante um homem jovem, com o rosto assustado e uma reluzente aliança de noivado num de seus dedos. O temor se constata pela rápida manobra e fuga imediata. As emoções afloram no asfalto, o ódio, a raiva, o medo, a vingança. A esta altura a tribulação já reduzida é majoritariamente de mulheres, que se ficam estáticas quando o microônibus deixa o itinerário e passa acelerar cada vez mais atrás da caminhonete. Faróis ultrapassados, buzinas insistentes, palavrões cada vez mais altos. Curvas feitas com a inclinação máxima que um veículo deste porte pode dar sem tombar. Cabelos esvoaçantes ao vento das janelas abertas.Até que a van é atirada na frente da caminhonete, fechando o cerco. Neste momento Ele pensa nos resultados, no horário da reunião e da distância que está de seu destino. Ele vê garotas com os lábios trêmulos, e pseudo-valentões que não conseguem antever a possibilidade de que pessoas em cidades grandes andam armadas, e cada vez menos preparadas para isso.
O bate boca transcorre na mesma medida que a ruela sem espaço vai criando uma fila imensa de outros motoristas igualmente impacientes. Ele ouve o volume da voz de “Telê Santana”, subir enquanto o jovem fujão se mostra cada vez mais temeroso em suas explicações. Buzinas reclamam, em uníssono, num coral barulhento e desarmonioso. Ao ver que nenhum tiro é disparado, pois ninguém de fato estava armado, decide ir ao orelhão e avisar sua chefe sobre seu atraso, por mais surreal e mirabolante que a situação possa parecer. Ela atende e rindo o entende. Isso o tranqüiliza. O imediatismo da vida metropolitana se personifica na resolução dos problemas, da troca de telefones e cheques feitos ainda quando está na escada de entrada do ônibus. E mesquinhez na intromissão do passageiro inxerido que insiste em dar pitacos na discussão ao qual não foi chamado. Quando o mesmo o aborda esperando uma concordância, Ele o mira, faz um olhar de desdém e diz unicamente “Cuide de sua vida”.O interlocutor arregala os olhos por trás dos ridículos óculos escuros e se cala. O caminho até seu ponto de descida, na Barra Funda é feito em menos tempo que o normal. Ao por os pés no chão ele se vê de frente para o metrô, multidões saem e entram, o ponto de táxi esta também movimentado. Ele joga a mochila nas costas, liga novamente o discman, atravessa a rua após olhar para ambos os lados e ouve um distante “filho da puta” ser berrado para um motorista que fecha outro após cruzar a rua. A reunião já deve ter começado, ele tem 5 quarteirões para transcorrer a pé, sem stress, ouvindo música, rindo tranqüilamente, pois definitivamente os fracassados estão atrás dos volantes.
Comments
a parte do acidente me pôs na cena!!
e tuning fede msm véi!!!
coisa de fracassado inseguro msm....