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Jessé ou a lei de Talião

O garoto tem uma arma em sua mão. Um taurus calibre 38. Uma arma velha e possante de cano curto. Esculpida em metal, cabo de madeira e recheado de chumbo e pólvora esperando ser acionada. O garoto que segura a arma tem as mãos pequenas de um adolescente. Veste uma camiseta rasgada, da gola até o peito.Magro, um pouco subnutrido tem abaixo do olho direito uma marca roxa que o corpo jovem vai esquecendo com os dias. Tapando a boca do cano encontra-se o couro cabeludo de outro um pouco mais velho, talvez uns três anos á mais. O maior treme assustado, o olhar tenso, o corpo trêmulo, o jeans úmido pela urina que escorre descontrolada por suas pernas. O garoto menor segura o cabo da arma com a convicção de quem nada mais tem a perder. Esbraveja para a multidão que o observa, desafia, xinga com uma coragem que nunca teve. Sua platéia esta confusa, indignada, revoltada, não sabe se crê no que vê, ou se segue sua vida, no caminho apático de uma semana qualquer. Ele grita com a voz trôpega de quem ainda não conheceu o amadurecimento. “Eu só quero o que me foi roubado!”. A vida nas metrópoles é tão desprovida de humanidade, poderia pensar qualquer um com uma migalha de sensibilidade, que nada parece fazer efeito ou romper com a letargia, basta atravessar a faixa de pedestres e cruzar a rua rumo ao esquecimento e a normalidade.

Jessé é o nome do que segura a arma, filho de uma mãe doente. Maria, como tantas Marias, doméstica evangélica até o último fio de cabelo ajeitado em forma de coque. Jessé é o caçula de três irmãos. Desde a pequena infância acompanhava a mãe nos cultos do templo do bairro. Usar nesse primeiro momento de sua vida, os termos “templo” e “bairro”, talvez sejam termos que não abarquem a realidade que se dá. O embrutecimento que se tem no imediato do real, seria de se usar outros como “barraco” e “galpão” para o primeiro e “favela” para o segundo. Maria foi mãe cedo, com a idade atual do caçula tinha parido no mundo o primogênito. Cláudio. Claudinho no bairro. O marido em questão era o servente de pedreiro Joaquim, cearense, sangue ruim, com fama de ter matado meia dúzia, em sertões perdidos no tempo e na vida de foragido. Na periferia da São Paulo sem lei, decidiu sossegar, escolheu a “namoradinha crente” entre outras, pois podia fazer bem o papel de sua mulher, lavar suas cuecas, fazer a sua janta. Quanto as outras, continuava a ter seus encontros, na escuridão de uma vida paralela A mãe de Maria o odiava, suas posturas, gestos, o palavreado entrecortado pelo sotaque nordestino e as gírias da favela, sem contar o terrível hábito de beber. Mas Maria poderia ser santa como tantas outras mas tinha dentro de si uma Eva pronta para provar do fruto proibido, que pegou gosto e a fez abandonar os três cômodos onde morava com os pais e irmãos. Esse foi o despontar de uma vida dura, sofrida de trabalho e arrependimento.

Não demorou a descobrir depois do nascimento do primeiro filho que seu marido tinha amantes. Se a voz do povo é voz de Deus, Ele é muito tagarela e sádico ao fazer a humilhação pública chegar aos ouvidos dos traídos. Nos pilares de uma consciência treinada num protestantismo militante então, isso era inconcebível, digno de maledicências e maldições. Vieram as brigas, vieram as discussões. As paredes de madeira do velho barraco sabiam de cor e salteado, o roteiro de ofensas e choros na tragicomédia assistida por Claudinho, ratos e baratas. A situação se resolvia invariavelmente com Joaquim sumindo por uns tempos e voltando. Era um ciclo quase interminável de idas, vindas, promessas e perdões.Os temas eram dois apenas, femininos e viciantes, como são as mulheres e a pinga. Numa dessas, e na fraqueza da carne que o pastor do alto de seu púlpito iluminado aconselha não ceder aos prazeres, Maria teve uma menina. Joaquim até tentou tomar jeito, começou a vestir-se como um “irmão” da congregação, teve apoio dos outros poucos homens que são os pastores de um exército de ovelhas gordas e não depiladas, escondidas timidamente em seus saiotes e olhar desconfiado. Tentou. Ter êxito são outros quinhentos, e com uma “irmã” da congregação sumiu no mundão para aparecer nunca mais.

Maria sozinha no mundo reatou com a mãe que já por um tempo não via. Mães são sempre mães, e perdoam os erros dos filhos, mais hediondos eles fossem. Recolheu Maria, tirou-a do barraco imundo e decadente, com seus dois netos e abrigou-a num “puxadinho” ao lado de sua casa. Os irmãos de Maria, tios de seus filhos tinham suas vidas, esposas, maridos e viviam suas vidas em outros barracos próximos. Os tempos eram um pouco melhores, a matriarca era agora uma viúva que podia não saber escrever o próprio nome, que pode ter falhado na educação da filha por não tê-la mandado á uma escola, mas sabia lidar com números. Administrava como ninguém o pequeno patrimônio erguido de processos trabalhistas e aposentadoria do finado. Comprara outros barracos na favela e revendia. Mas, se Maria era sangue de seu sangue teria de fazer por merecer. Nada de vida de madame, uma ex –patroa precisava de uma empregada, e sem perguntar a filha o que achava sobre, enviou-a para uma rotina de faxinas estafantes. A patroa perua enlouquecida por toneladas de antidepressivos, descarregava as frustrações de mulher fútil em sua “negrinha”, fazendo-a limpar, relimpar, fazer e refazer o que já havia feito. Maria mau via os filhos. Acordava ás três e meia para sair às quatro da manhã, pegar o primeiro ônibus da madrugada, cruzar os rincões extremos da periferia sul da cidade e chegar pontualmente as sete horas, pois todo atraso ou serviço não bem feito era descontado. Depois do trabalho ia ao supletivo á fim de “correr atrás do prejuízo”, nunca faltava, estudava nos 15 minutos restantes de sua hora de almoço, mas o resultado era ínfimo. Dormia quase todas as noites na sala de aula. Achava-se burra, tão burra por não aprender, por ser uma besta quadrada que não conseguia ler e ainda moleca tinha tido dois filhos para criar sozinha.

Perdeu assim boa parte da infância de Cláudio e Celeste (chamada assim pois quando a pequena foi concebida, desejava que tudo ruim passasse, e vivessem como uma família, como no paraíso de Nosso Senhor). Maria orava convicta, todas as noites por seus pequenos, para que fossem bons meninos, para que não se desvirtuassem e tivessem bom coração. Mas eram cria sabia bem de quem, e com a mãe agora mais entretida no ramo “imobiliário” da favela e distante da igreja, só podia contar com as mãos do Sagrado guiando-os no caminho. Cada dia tornavam-se maiores. Ou era ela que ficava pequena? Cada dia lhe cobravam mais presentes. Mais carrinhos e bonecas. Que lhe eram dados á custo de muito suor. Mesmo que não estive por perto para saber como foi seu dia, um sorriso ou abraço já valia a pena.Eles cresciam ficavam cheios de vontade, exigentes quanto ás roupas, e não iam mais nos cultos de sábado com a mãe. E foi assim, até a maturidade lhe mostrar que a avó não era uma babá ideal. Que a velha só queria saber de viver a vida enquanto ainda lhe restava tempo, com o novo “marido”, que estava pondo dentro de casa. Seus garotos não iam a escola á tempos. Cláudio, seu primogênito era agora o Claudinho do bairro. Ouvia suas façanhas nos comentários da lotação, sem saber que era seu filho. O moleque herdara a ligeireza do pai, fazia “saidinha de banco” roubando aposentados e se deslumbrara nos mundos além da percepção fumando maconha. Um dia tentou impor a autoridade que o nome “mãe” carrega, e quase foi esbofeteada pelo filho ouvindo um realista e deprimente “quem é você?”.

Celeste fazia a pose de santa de toda adolescente, já ia para seu sabe lá que número de namoros, cada dia chegava mais próximo da mãe em termos de horário. Sempre correndo para se trocar e fazer de conta que estava em casa á mais tempo. Não tardou, no dia das mães de um ano igual a tantos outros, presenteou a mãe com um “estou grávida”. Maria corroída pelo cansaço e pela decepção esbravejou pela primeira vez. Soltou palavrões reprimidos á anos pela conduta de serva da Deus. A filha não esboçou reação alguma, calou-se, entrou no quarto e depois foi embora. Foi morar com o namorado, um amigo de Claudinho, que morreria anos depois, embaixo de um caminhão dezesseis rodas, fugindo com moto e malote num assalto á banco.

Maria conheceu Lindomar. Era porteiro de um condomínio próximo ao que trabalhava. Todo dia ao passar na frente da guarita de Lindomar, este lhe soltava um “bom dia”. Ela nada dizia, era mãe de família, trabalhadora, não tinha tempo para papear com desocupados. Por meses Lindomar ficou no turno da noite, esperando em pé próximo á guarita para dar seu religioso “bom dia” para Maria, nos momentos próximos á largar o posto. A vida não endurecera o coração de Maria por completo, um dia ao ler um carta “analfabeticamente” escrita pela filha que passava por dificuldades, passara em frente a guarita com olhos em lágrimas. Lindomar calou-se. Não pôde dizer nada. Ergueu a mão espalmada, e viu-a sumir pela calçada rumo ao trabalho. Lindomar era pernambucano, e sabe lá de qual holandês perdido em sua árvore genealógica herdou olhos tão verdes e vivos. Nos dias que se passaram tentou de todas as formas abordar Maria. Ela sempre com a postura firme, passava agora com um olhar mais “conformado”, sabe-se lá o motivo, o porteiro viu ai sua chance. Abandonou o turno da noite. Maria ficou sem vê-lo, e deu nitidamente sua falta na manhã que não estava. Lindomar havia prevenido o colega que se encarregou de sondar as reações. Em resumo, Maria sentia falta do calor, do zelo, de ter alguém em seu lado á noite. Numa primeira chance Lindomar convidou-a para ir ao cinema. Ela não quis, “era coisa do diabo” bem sabia, mas comeram num fast food depois do trabalho dela e passearam de mãos dadas. Ambos se agarraram como estrangeiros numa terra estranha. E mesmo sentindo-se desconfortável em ser “amasiada”, sabia que o “pai á tudo vê, mas também á tudo perdoa”. Um ano depois nasceria Jessé, seu último filho. Moreno como a mãe, com os olhos de esmeralda do pai. O nome por parte do pai era de um cantor popular que gostava, para a mãe era o pai do rei Davi.

Moravam num barraco que Lindomar comprou com a venda de suas férias ao condomínio.Até este momento ele se ajeitava num depósito de materiais do condomínio, em conluio com o zelador. Ficaram lá por pouco tempo uma vez que se mudariam depois para o centro da cidade. Lindomar conseguira um trabalho como zelador em um pequeno e velho prédio, no lado mais decadente do centro. Maria agora era uma mulher adulta, ainda espiritual, mas entregue ao prazer carnal que a vida lhe dava ao lado do homem que escolheu amar. Decidiu enterrar o passado. Às vezes se pegava pensando no passado, no seu primeiro marido. Brigara com a mãe e cortara relações novamente. Quanto aos filhos mais velhos, “já sabiam o que faziam”, que trilhassem a “senda que escolheram”. Vez por outra se falavam ao telefone. Além de mãe. Maria era também avó. Sentia-se envelhecida ao lembrar-se disso. Avó aos 34 anos. O pequeno Jessé cresceu sob o fardo de que a mãe não errasse com ele onde errara nos outros. Levava o filho á todos os cultos, ensinou-o a cantar, colocou-o na escola um pouco antes do tempo. O pequeno Jessé lia na Bíblia, palavras que não entendia. Juntava as mãozinhas e orava, trazendo a alegria aos olhos da mãe. Foi ficando um garoto inteligente e saudável, não muito grande, um pouco miúdo, talvez a única ressalva real de sua saúde seja a fraqueza de sua visão, a ponto de usar óculos desde de cedo. Lindomar era pai severo, não compartilhava da mesma fé da mulher mas não se importava. Controlava os horários e lições do filho. Aos poucos Jessé, nesse pequeno mundo de segurança e afeto foi descobrindo coisas, colocando outras em questão. Descobrira que a mãe era doente. Que tomava medicação controlada, e os anos de trabalho puxado deixaram um saldo muito negativo de saúde dela.Suas posturas como filho eram maduras demais para idade, não queria ser uma fonte de desgosto como seus irmãos. Esses elementos fizeram com que Jessé fosse crescendo como um garoto introvertido e tímido.

Na escola o tímido garoto foi conhecendo a crueldade que se pode ter quando criança. Sua esperteza com as matérias causavam inveja na classe que o odiava. Esse ódio resultava em sopapos, em surras que ele engolia calado. O pai bateria mais nele se soubesse que apanhou, do que se brigou. A mãe falaria tanto que preferia apanhar de quem fosse. “Dar a outra face”. Dessas surras silenciosas veio a extorção, o roubo. E Jessé em seu silêncio, vingava-se com as não palavras, com a não reação. Com a pulsão de morte que não se solta. Com desenhos na contracapa do caderno. Onde reservara a “justiça divina” para seus algozes, suplícios dolorosos, dores angustiantes...O elogio dos professores dava-lhe animo para continuar. A vida dos pais prosseguia na normalidade, no decorrer de anos, é normal a rotina matar os sentimentos e Jessé percebia com seus míopes olhos verdes o mundo de conveniência de seus pais. A casa ficava nestes anos, cada vez mais silenciosa, a mãe trabalhava noutro lugar com uma patroa melhor, e tinha mais horas ao dia para se dedicar ao próprio lar. Com o passar do tempo, os colegas de escola começaram a ignorá-lo, centravam-se noutras coisas. Quando o crack ganhou de vez as ruas do centro, vários alunos de seu colégio voltaram-se para ele como uma fonte fácil de dinheiro e meio de conseguir o que queriam. Jessé passou um ano sem lanche, sendo esmurrado todos os dias, para que o amor químico fosse soprado de um cachimbo tosco á mente de seus colegas. Ele os repugnava. Mas um em especial. Paulo. O garoto branco, que sempre o espancava e fazia questão de humilhá-lo. Não bastava tomar o dinheiro suado de sua mãe, o maldito tinha que expô-lo ao ridículo. Nisso as mensagens pacifistas de Jesus começaram a deixar seu coração. Se Deus permitiu que seu filho morresse numa cruz, que tantos sofressem todos os dias, que mães enterrassem os filhos, algo de errado acontecia. Jessé não saberia dizer, mas lia muito menos a Bíblia, e como um dia seus irmãos foram resistentes em ir á igreja, a mesma situação se dava com ele. A única coisa que restava em sua mente era “olho por olho, dente por dente”. No seu devido tempo. Ele nunca iria prever.

Jessé mal conheceu os irmãos e outros parentes. Lindomar seu pai, era o típico migrante que abandona tudo e deixa a família. Tinha avós no Nordeste, em algum lugar de Pernambuco, mas o trabalho e a não disposição da mãe impedia que viajassem. O resguardo da mãe e a própria forma como os irmãos levavam as vidas o isolou deles. A primeira que conheceu foi Celeste. Parecia muito com a mãe, como uma versão mais jovem, se qualquer um visse ambas juntas na rua pensariam que eram irmãs. Quando ela apareceu, ele sentiu uma ligeira ponta de hostilidade. Como se possuísse algo que ela não tinha, o que achou mais estranho era que já tinha um sobrinho, e ao contrário da lógica de nosso mundo o garoto era maior e mais velho do que ele. Sabia que tinha avó por parte de mãe, mas nunca chegou a conhecê-la. Talvez a única vez que tenha sentido um real sentimento de afeição foi quando conheceu Claudinho. Estava sendo surrado por três garotos num beco próximo a escola. Algumas meninas assistiam de longe rindo. Estranhavam que ele não chorava, e que não entregava o dinheiro. Neste dia a surra foi das piores, alguém apanhou um pedaço de pau e deu em sua cabeça. Jessé bateu o rosto no chão e por pouco não ficou desacordado, sentiu um pé chutar seus rins, abdômen, e tentou se defender ficando em posição fetal, cobrindo com as mãos a cabeça. Ele não viu como nem de onde. Mas repentinamente um homem de uns 27 anos começou a socar violentamente os garotos. Era Claudinho. Girava nas mãos uma trava de volante, que Jessé mesmo com óculos quebrados, viu arrancar alguns dentes de um deles. Dois deles conseguiram fugir, correram por quadras, o último não teve essa sorte, além de ter o rosto batido contra um poste (Claudinho viu que fora este que batera no irmão com o pedaço de pau), ainda teve dinheiro e outros pertences “confiscados” pelo estranho. Claudinho ainda teve o prazer de fazer com que Jessé cuspisse na cara de seu adversário. Peleja terminada, os irmãos se conheceram. Claudinho lamentara que a mãe não o recebera e viera tentar encontrar o irmão. Com a ajuda de outros garotos do colégio identificou o irmão, principalmente pelos traços da mãe. Entraram no carro. Alguns minutos depois entravam numa lanchonete, o irmão mais velho transmitia um ar “bandido”. O pequeno estava com a cabeça dolorida. Ficou falante pela primeira vez na vida e não sentiu-se tão só. Reconheceu-se em alguém que não a mãe e pai, mesmo que o irmão representasse tudo que ele não era. Ou tudo que a mãe não queria que ele se tornasse. Foi uma conversa simples o mais velho perguntava e o menor respondia. Jessé sabia como o irmão ganhava a vida e lembrava a todo o momento as recomendações da mãe caso o encontra-se um dia. Ele pensou que ela não reclamaria do que soubesse e fechou um acordo com o irmão. Este seria o segredo de ambos, uma cumplicidade que a distância gerou ao invés de impedir que acontecesse. Entraram no carro, o mais velho falou de frivolidades, perguntou como o menor “ia na escola” e incentivou o caçula. Quando parou no local combinado para separarem-se Claudinho colocou um revolver na bolsa do irmão “Para se proteger apenas”. O pequeno nada disse, pensou que nunca poria as mãos num desse. Que nunca seria necessário e o manteria escondido numa parte do quarto. Viu o carro do irmão virar a esquina. Foi a primeira e última vez que viu o irmão, abstraindo-se o dia que viu a foto no jornal, embaixo da manchete “Morto em confronto com a polícia perigoso assaltante”. Nesse dia chorou, sem saber como, ou por que.

Dias passaram desde o encontro. Jessé voltou a rotina. Viu a mãe adoecer. O pai fora viajar, encontrar com parentes perdidos pela vida. Essa situação o colocava na condição de “homem da casa”. Isso o deixava preocupado, um tanto afoito, mas o orgulhava. Pois se sentia como um homem. Uma pequena cópia do pai. De certa maneira a conversa com o irmão operou pequenas transformações. Já não aceitava tudo com passividade e recusara-se a ser submetido a humilhações públicas. Começou a ter uma postura mais firme, ainda tímida, quieta. Esse silêncio o camuflava na multidão escolar, enquanto a identificação de quem era o irmão o protegiam como as guias de um corpo fechado no terreiro. Tinha confiança agora. Andava com a cabeça erguida, e esse diferencial de postura afastou seus algozes. Menos um. Pedro. Estavam numa aula de geografia. Por um discussão banal com o professor, Pedro atirou nas costas do velho um pedaço de madeira arrancado do armário do fundo da sala. A sala toda viu, o professor sabia quem era, mas instaurou um pequeno “inquérito” no qual a solução única era a delação do culpado. Pedro ria, cínico, sabia como era temido, não era mais um “ratinho” que bate carteiras no centro. Já tinha pego em armas, fumava, era bom de briga e de corrida, e aquele monte de moleques da sala não ousaria entregá-lo. Para sua surpresa, Jessé apontou para ele. O professor fez um riso de satisfação, a sala ficou abobalhada com o movimento silencioso do dedo em riste, e a frase curta “Foi ele professor”. Todos sabiam que isso era loucura e o que isso significava. Jessé seria trucidado, alunos não gostam de dedos duros. Paulo vendia maconha no colégio, era considerado por vários e não ia tolerar a “deduragem”, já reservara mentalmente uma lição á sua vítima predileta. Jessé parecia não se importar. Não sabe por que fez isso, mas sabia no quão impopular se tornaria e o risco que assumiu para fora dos muros da escola.

Jessé conhecia o roteiro desta história, Pedro iria esperar a oportunidade para espancá-lo, pediu à diretora que permitisse sua saída, argumentou que estava preocupado com a mãe em casa, ela estava sozinha e doente, o que de fato era verdade. O que não sabia era que a direção do colégio procurava um motivo para expulsar Pedro e encontrou, o que se consumaria no fim daquele período diário. Jessé esbarrou na burocracia e falta de senso e foi impedido de ir para casa, nisso seus pensamentos em relação á mãe começaram a preocupá-lo.Ela não vinha se alimentando direito e apresentava crises freqüentes, consigo estava guardado o dinheiro para comprar a medicação diária da mãe que estava no fim. Restava enfrentar a situação. Algo mudara nele. Não sentia medo. Esta inquieto, mas nada parecia tirá-lo de foco. Passaram-se as aulas, passou o intervalo, tocou o sinal. A sala em polvorosa saiu em busca do portão, esperavam com abutres carniceiros o “acerto de contas”, como a população de Roma, que se matava por pedaços de pães e um lugar ao assistir os cristãos devorados por leões. Jessé ficou só. Lembrou de Deus, da mãe, do pai e do irmão. Imaginou que aquele era seu calvário pessoal. Quantas vezes transitou pelos corredores do colégio de cabeça baixa, sendo humilhado, insultado, como que carregando uma cruz, pesada que o impedisse de se mover, e de mirar seus opositores nos olhos. Ficou na sala só. Só como sempre fora.Poucos minutos passaram, ele ouvia o burburinho junto ao muro do portão. A inspetora de alunos, sensível como um tijolo, o expulsou da sala, pouco se importando com as brigas destes moleques á frente da escola, “eram lixo” pensava ela, que se esmurrassem uns ao outros.Agora com o colégio limpo ela podia ir almoçar.

Ao sair Jessé estufou o peito e passou pela multidão. Deparou-se com Pedro. O olhar do outro estava transtornado. Estranhamente ficaram um de frente para o outro. Mas ninguém fez nada. Um toque leve foi dado no ombro de Jessé. Era a diretora. Ela diz: “Vá embora, sua mãe está doente...E você Pedro, se não sumir daqui chamo uma viatura policial.” Pedro não esboçou reação alguma. A platéia resmungou e dissipou-se. Jessé passou, tranqüilo e caminhou como sempre fazia para casa. Á dois quarteirões adiante respirou aliviado. A casa ficava á uma distância razoável e tinha que desviar do caminho para comprar o remédio da mãe. Apressou o passo, entrou em ruas diferentes, pois sabia que seria seguido, se evitasse o trajeto normal não teria o risco de encontrar com alguém. E assim fez. Mudou de caminho. Desde pequeno conhecia as ruas do centro, não seria difícil despistar quem o seguisse. Repentinamente um frio tomou sua espinha. Um sujeito negro, muito forte o abordou, fechou sua passagem. Antes que pudesse fazer algo, o homem mostrou uma arma por baixo da camisa e empurrou-o para dentro de um carro. Argumentou, mas o homem nada falava, repetia intercalado por longos silêncios uma única frase “Cala a boca”.Rodaram uns 25 minutos. Chegaram numa rua afastada do centro da cidade. Passaram uma ponte e adentraram algumas ruas comerciais. O peito de Jessé faltava explodir. Pararam numa rua tranqüila, com barracas de pastel, lojas, o homem indicou uma porta para Jessé entrar. Era destas que dão para uma escada, uma sobreloja de um prédio comercial. Lá em cima, outro homem estava sentado num sofá fumando. Um tv passava um programa esportivo. Homem que fumava, gesticulou pedindo que se colocasse ao seu lado. Jessé seguiu as recomendações.

O homem do cigarro o cumprimentou em silêncio. Olhou para o garoto franzino, soltou um resmungo em relação á má campanha de seu clube predileto, coisa que o repórter esportivo noticiava ferozmente. O silêncio se desfez de uma maneira muito simples. “Me chamam de Vado. Tenho vários garotos que trabalham para mim. Passam maconha, e outras coisas lá no centro. Eles vendem, tiram sua parte e dou uma grana para fazerem o que quiserem. Você estuda com meu sobrinho. Pedro. Acho que esse moleque é um demente. Não sabe se portar. Tentei afastá-lo dessa vida, mas quis por que quis que acabou se enfiando. Ele é tão retardado que tive que deixá-lo no seu colégio, pois com muito tempo livre ele ia arrumar problema e expor meus negócios, lá pelo menos, é um lugar onde posso observá-lo com mais proximidade. Fiquei sabendo que ele foi expulso do colégio por sua causa. Isso é verdade?” Jessé suava e tremia. O única resposta foi um aceno de cabeça. O fumante continuou. “Conheço teu irmão. Fizemos muitas coisas juntos e por ele, mandei que Pedro não se metesse mais contigo. Te chamei aqui para dizer que ele vai querer acertar as contas, mas em respeito ao teu irmão, ninguém vai se meter contigo. Sua treta é com ele apenas. O acerto é de vocês. Você esta me trazendo um prejuízo em meus negócios, por Pedro ser idiota ele vai ficar sem a grana dele, e vai querer fazer um acerto contigo. Sei que você só estuda. Que sua velha é doente. Não estou fazendo isso por ti, e sim em consideração á teu irmão.Portanto abra os olhos. Era isso o que eu tinha para te dizer.”. Vado pegou um controle remoto e começou a mudar de canais. Jessé levantou-se e desceu a escada. Estava desnorteado, mas seguiu o caminho de casa.

Andou como se a cidade não tivesse fim. Cruzamentos, semáforos, viadutos, becos. A fauna o desafiava. Mendigos, gerentes putas, secretárias nóias, office-boys. Gente de todo aspecto. Parias, relegados, rejeitados, sucateados. As pernas tremiam enquanto gotículas tomavam a palma de suas mãos, borrando os desenhos toscos na contracapa do caderno. Sentia-se pequeno. Diminuto. Em meio á este esmagamento mental Jessé lembrou da mãe. Passara um tempo razoável do horário do remédio. Apertou o passo. Lembrou-se do horário de fechar da farmácia. Alterou o ritmo começou a correr. As pernas magras venciam o asfalto e seu pensamento estava em casa. Quando dobrou uma ultima esquina próxima a farmácia Jessé viu no embaço de sua miopia um punho atingindo seus olhos. As lentes despedaçaram-se em milhões de cacos fugitivos no ar. Sentiu abaixo do olho o calor do inchaço. Sem ver sabia que era. Puxando-o pela camisa que rasga, Pedro começa esbofeteá-lo. “Desgraçado você perdeu o juízo? Esqueceu com quem se meteu?”. Jessé tem o peito dolorido por chutes, Pedro é muito maior e mais forte, acostumado a brigar tornou-se superior á muitos no corpo a corpo. Do bolso de Jessé cai o dinheiro do remédio, que agora se torna posse de seu espancador. “Era isso o que eu tava querendo, a grana... a piranha da sua mãe deve ter muito mesmo, agora que perdi meu esquema você e ela vão me sustentar... nem vou te apagar, amanhã na saída é bom você ter mais senão você já sabe...”. Estendendo a mão, ainda com o corpo no chão Jessé recebe um chute nas costelas, a miséria de ar que o sustenta parece ser roubada.Pedro parte pela calçada. Na mente do pequeno, a dor, a desesperança, o autojulgamento o fulminam. Lembra-se da responsabilidade passada pelo pai. Do pedido do irmão.Percebe suas fraquezas como um ser insignificante, incapaz. Ninguém na rua se importa. Um ou outro olhar de piedade lhe é lançado, mas fica nisso, ninguém estende a mão. Colocando os óculos quebrados no rosto, Jessé depois de inúmeras surras em silêncio se põe a chorar. Um choro mudo, inaudível aos transeuntes, mas vigoroso como a trombeta de mil anjos.

Trôpego e com dor, chega em casa. A porta está aberta. Dona Judith a vizinha lhe espera na sala. A doce mulher se assusta com o estado do garoto. Ele a inquiriu, forçando uma resposta de onde esta sua mãe. “Ela teve outra crise., acho que muito séria. Felizmente eu estava por perto, meu marido e meu filho a levaram para o hospital, você não trouxe o remédio dela? Por que esta nestas condições?”. Ele se cala. As lágrimas que secaram o punem. Entra no quarto seguido de Dona Judith. A senhora lhe cobra resposta, e só ouve o eco da própria voz no corredor ao lado de fora da porta do apartamento. Ele começa a tremer, o olhar torna-se distante. Abaixa-se, puxa uma caixa debaixo da cama, e empunha a arma que Claudinho lhe deu um dia. O chumbo e aço como que tomados pelo demônio irradiam energia,uma energia que suspende as dores de Jessé. Dores físicas e da alma. A voz de Judith parece ecoar numa gruta fria e distante. De repente, antes que ela pudesse tocá-lo sai correndo. Desce escadarias, sente o dorso dolorido, e o rosto quente. Guiado por sabe-se lá quem, ganha calçadas, ruas, e becos. Pela primeira vez toma uma ação, ele sabe o que quer, só não sabe o quanto esta disposto. Ele pode estar se tornando órfão, o pêndulo do destino oscila como os aparelhos ligados á mãe que chega no hospital neste momento. Jessé sente uma gelatina salgada de sangue coagulado por sobre a língua. Ele sabe onde Pedro está.

Esgueirando-se na sombra Jessé vê Pedro sair de um beco e ganhar a rua. A adrenalina faz com que as pequenas mãos de Jessé tremam, apesar de seguras. Todas as vezes que foi espancado passam por seus olhos. As risadas na mente de Jessé e o sorriso cínico do aprendiz de bandido o ofendem. Não há mais tempo. Em plena avenida uma escolha é feita sem plano, apenas no impulso de uma revolta a muito guardada e esperando ser extravasada. Jessé o segue, tocando com o indicador o ombro da vítima, o rosto de Pedro recebe como boas vindas a lateral do tambor de balas do revolver, no canto de seu rosto. A surpresa faz com que tombe e bata o rosto no meio fio. Jessé é outro nessa hora. Vinganças á muito planejadas se confundem em seu cérebro conturbado, ele quer punir, julgar, fazer o que Deus nunca faz. A imagem da mãe faz com eu lágrimas venham aos seus olhos. Numa fração de segundo seu pé começa a golpear o garoto assustado no chão. Quando Pedro consegue virar-se ele vê Jessé transtornado apontando a arma contra ele. “Quero o que você me roubou”. “Não sei o que você ta falando...Policia! ladrão querendo me roubar!!” Um pequeno circo de horrores se forma ao redor deles. Pela primeira vez a vida se mostra para os transeuntes, e ela vem abraçada com sua gêmea morte. O comportamento de Pedro faz com que Jessé mire e atire.

Um baque seco.As mãos de Pedro cobrem seu rosto antes que as narinas sintam cheiro de pólvora. A bala desferida encontra abrigo no bloco de calçamento á um palmo da cabeça do alvo. Jessé começa esbravejar. Aproxima-se e coloca o cano na cabeça de Pedro. O menino reprimido luta dentro da mente do corpo que perde o controle, os olhos vidrados denunciam esquizofrênicos o sofrimento e a dor de muitas dores. “Minha mãe esta morrendo e por isso você também vai morrer”. Olhos rasos em lágrimas perdem a referência com um sorriso malévolo abaixo do mesmo rosto. Neste momento ambos estão cercados por uma pequena multidão. Jornalistas, cinegrafistas amadores, preparados como urubus, ávidos com uma tragédia vendável, aninham-se ao redor. Viaturas policiais começam a isolar ruas, no mesmo instante que Pedro perde o controle sobre a própria bexiga. Segundos multiplicam-se na tensão e viram minutos, horas. O garoto esta firme com seu refém A essa altura sua mãe esta sendo “entubada”. Um atirador de elite posiciona-se. No palácio do governo, o dono da casa perde uma solução mais rápida que a derrocada de seus índices de popularidade. Judith fala com Lindomar, esse se apressa em paralisar sua visita e volta pensando no filho. Enquanto o fumante da sobreloja muda de canais, um noticiário entra sem pouco aviso, vê o rosto choroso do sobrinho sob o cano da arma, outro cigarro é aceso.O mesmo canal é visto num barraco qualquer, por Celeste que sem muita atenção muda para a novela. A mente de Pedro continua vagueando ao passo que suas lágrimas secam. Um policial-negociador tenta um contato. Seja qual for o ente ou que controla Jessé só tem uma frase. “Quero o que me foi roubado”. Um telefonema é feito do gabinete do secretário de justiça. Ela encontra o celular do comandante da “missão”. Um gesto é feito. O dedo do atirador toma sua posição. Em algum lugar de Pernambuco Lindomar pensa no filho ao entrar num ônibus desesperado. O negociador conhece os sinais, começa a tirar atenção do garoto franzino. Uma fração de segundo é tudo. O ar á um quarteirão de distância começa descortinar-se em um espiral em ultravelocidade, o projétil é certeiro como são os desígnios de Deus em seu mistério e advento. O revolver gira no ar. A multidão vê o que queria. A bala acha um lugar na coxa magra, partindo um osso, e aquietando-se entre as carnes pouco nutridas. Outros policiais correm na cena, como manda o script. Jessé mais uma vez sente o solo. O asfalto o aconchega, o abraça, acaricia seu rosto, dando-lhe no impacto rápido um grande galo. O curiosos o cercam. O filho sente o elo com a mãe, pensa “Minha mãe vai me matar”, exames, mostradores indicam que no hospital Maria está bem. A miopia de Jessé se esvai por segundos. “Por que o chão está no local errado?” “Será que estou morrendo?”. A lua está cheia. Um céu azul anil que escuresse é substituído inconsciente negro de Jessé. Um policial o carrega pelos braços até uma ambulância dos bombeiros. Um fio de sangue desce de sua perna. A multidão se desfaz demonstrando que uma migalha de vida vale muito mais que mil rotinas. Em delírio Jessé abraça Deus, sua mãe está de seu lado.. Seu sangue se mistura com a sarjeta imunda. E corre á uma boca de lobo, rumo ao infinito. A porta da ambulância é fechada, na noite dos mortos e vivos, um lamento eletrônico abre caminho em meio ao trânsito.

Comments

Sâmia said…
boa história, bem contada. prendeu minha atenção até o fim do longo texto. e muito real, também. o bom é que você consegue transmitir essa realidade muito bem. o péssimo é que a realidade de garotos como Jessé seja tão dura. e não só para eles.
*
tenho gostado de seus comentários lá no semedeixa... ao contrário de mim e de quase todo mundo, você não me parece comentar o texto em si, mas o que vc sentiu enquanto o lia. adoro!

beijos
maoslivres said…
puta texto!!!
por alguns minutos saí desse prédio empresarial no centro de Salvador e me senti nas ruas cheias de prédios cinza e pichações de São Paulo, acompanhando a angústia e tensão de Jessé.
Parabéns!!!Muito bom msm!!!

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Sapatos

Estranho como a mente processa a memória e assim nos ofereça respostas. Os tempos são de angústia e ansiedade. As notícias que chegam de todo lado, só fazem trazer desgosto. Houve um tempo, que eu passava incólume por um mundo que se despedaçava, mas não me sinto mais capaz para isso hoje. E talvez a música no ouvido, injete uma porção de nostalgia no coração para que as nuvens mais escuras da alma, abram espaço para a boa sensação. Assim, você se contesta. É como se o homem de hoje, olhasse frente a frente nos olhos do menino do passado.  As importâncias que se transformam. As prioridades que ficam para trás, solapadas por outras cada vez mais pesadas e estruturadas. Na rota intermitente e incessante da vida, que pode virar um enorme triturador de sonhos, se não for conduzida com mão firme. E as soluções nos jogos da mente, brotam, como respostas de pouca duração.  Penso no quanto a maneira de se vestir, e mais especificamente de se calçar tem uma certa importância ...

Contando.

Sentindo como se a jaula fosse romper. E como se eu pudesse correr sem saber a direção. Talvez o trabalho não seja ruim como se pretende. Ou seja demais para se acreditar. Fato é que o medo aperta seu estômago até quando se é pela felicidade. O medo derrete a certeza. Na confiança frouxa só o ditado do velho pai. "Cachorro mordido por cobra foge até de linguiça". o relógio corre. sem piedade. foto: rodrigo kristensen: http://rodrigokristensen.tumblr.com/post/8303194050/my-windows-view-of-sao-paulo-taken-with-instagram

De 1 a 2.

um brilho de olhos claros acende meu coração. toca em pele alva minha negra alma na noite do sono tranquilo sinto seu doce respiro mãos buscam abrigo no meu peito e um beijo suave carimba em silêncio as minhas costas. eu gostaria de entregar palavras que valem o mundo que afaga o coração ferido e estende a mão ao sofrido nos campos de batalha da vida eu planejaria mundos, arquitetaria idéias e artifícios mas me perco, e rodopio usando as palavras simples do dia a dia, só dizendo o que sinto. eu tenho uma vida cheia de passado e um futuro de possibilidades, vocalizações ferozes de meus demônios medos e muralhas que caem um após o outro pois eles não tem espaço, como não tem os abutres que nos veem de longe. pois ontem fui um, e com você sou dois, no caminhar infinito do que virá.