Sou ciente das minhas limitações e que não decreto aqui uma teoria, mas pequenas percepções acerca de um pensamento ainda não tão bem lapidado. Eu vejo, sinto e observo as pessoas, analiso de minha diminuta percepção o formato de nossa sociedade. Não tenho a pretensão em grandes elaborações, o que segue abaixo é fruto de vivência, observação e questionamentos.
O que o constitui o homem como indivíduo? Podem surgir milhões de respostas considerando um possível entendimento e levando em conta as mais variadas formações, os nichos de vivência, esferas de convivência e principalmente a história pessoal de cada um. Pouco é o tempo que nos resta sempre, para que possamos realmente avaliar e fazer uma análise pessoal sobre nós mesmos, para aguçar nossa percepção sobre a interação do “eu” com o mundo ao redor, reavaliando o que vivemos, como vivemos, para que vivemos e quem sabe para perceber talvez, os “por quês” de certas atitudes e receios nossos. Eu pensava que para entender essa constituição, deveria ir as rupturas, aos traumas, em uma análise psicanalítica da vida do indivíduo, importante, mas não suficiente. Penso agora mais numa abordagem de conhecimento múltiplo, algo pregresso na formação, das mais variadas áreas do conhecimento, muito mais que o “homem universal” dos iluministas ou muito mais que interdisciplinaridade proposta por Edgar Morin. Penso em algo que traga ao chão do “ordinary people” o campo da produção do conhecimento, que dispa de todas as vaidades, do status de “detentores do saber”, com uma percepção que nosso “eu” é soterrado por um desconhecimento crítico sobre nós mesmos em função de uma organização social de controle de uma classe sobre outra. Por mais utópico que possa parecer. Que não se contente em ensinar o camponês á contar pelas sementes que planta, que atue na sua realidade imediata e conhecimentos pressupostos, mas aja em diálogo máximo com as mais diversas áreas do conhecimento. Um conhecimento não seriado, organizado e disposto a maleabilidade.
Este “não-conhecer-se” ou “não reconhecer-se” que vejo em nossa sociedade, é gerado á partir do modus operandi da sociedade capitalista, que dentre inúmeros meios de controle penso, tem o entorpecimento do bombardeio de informação, o mundo da exploração das classes trabalhadoras, o dilema da imagem/paisagem (onde tudo é todos e todos são nada), a compartimentação do tempo do mundo do capital, bem como inúmeros outros meios de domínio e exclusão altamente adaptáveis e sutis. Isso é o que chamamos de “pós-modernidade”, mas admito sentir um grande incômodo com o termo. Quem detêm a dianteira do poder esta ciente que, aqueles que “pensam” devem ser ou anulados, ou cooptados pelas esferas mais altas do controle e ser moldados e/ou alinhados as fileiras de uma espécie de “elite”.Onde muitos seriam vistos como “uma nova vanguarda”, que se agregam promiscuamente ao grupo empossado junto ao poder, se vêem numa busca por manter uma estrutura educacional alienante de dentro para fora, de fora para dentro. Mesmo que a pressão social, ou oposição de grupos ao poder cobrem mudanças ( e não esqueçamos que vivemos num estado dito “democrático”) estas não vão longe. Operam-se pequenas mudanças para que tudo fique no mesmo e esvaziado de senso crítico.Por que ponho em questão logo a estrutura educacional? Em tese não é um dos primeiros locais onde se forma o indivíduo? Mesmo que carregada hoje da obrigação de preparo ao mundo do trabalho numa teia que passa de um departamento á outro, de um buraco á outro de uma coleira, é lá o primeiro local fora da família que fatores determinantes formarão o indivíduo. O poder sabe disso e administra o conhecimento em doses homeopáticas e seguras. Não estou considerando o “indivíduo” desprovido de ações propositivas, mas no amanhecer de sua formação, creio que é difícil ter uma percepção crítica de dominadores e dominados. Uma vez exposto á uma visão única da realidade levam-se anos para “quebrar” ou aceitar uma visão diferente. É colocado o pressuposto de que tudo, a sociedade, as estruturas, os códigos de conduta sempre foram assim. Sempre estarão, sempre serão. E este paradigma torna-se cada vez mais monolítico, sólido e pior aparentemente inquebrável.

O tempo de nossos dias não é o mesmo de outrora, a invenção do relógio, por exemplo, alterou completamente a relação entre as pessoas, o que se desempenhava ao ritmo das necessidades, tornou-se controlado. Não se pode parar. A dinâmica da grande metrópole contribui para tudo isso. Acelerada, cosmopolita. O tempo é cada vez menor e mais carregado de obrigações e responsabilidades a serem sanadas num espaço temporal minúsculo, que grita ao alarme do imediato. Fracionou-se o tempo e controlaram-se as motivações, sobretudo as necessidades, que agora atendem pelo nome de “sobrevivência”. O mundo do capital burguês não necessita de pensadores, ele precisa de braços, pernas. Como tentei explanar á pouco, aos cérebros ou destina-se um banco ao lado dos gabinetes ou ser atrofiado em focar-se no comer, no vestir-se, no morar, no problema imediato e não em grandes esferas, afinal “alguém é pago para pensar sobre isso”. Fragmentou-se o tempo e arranjaram de forma mais dominadora as estruturas sociais. Como na idade média, uns oram, outros guerreiam e o restante trabalha. Com a diferença de que hoje todos somos todas as classes.
Não se permite a autopercepção, na multidão do mundo que empossa uma elite, o restante torna-se paisagem, para que a completude do mundo seja profunda no indivíduo e superficial no coletivo. A multidão. Tudo e nada. Milhões em objetivo, uma massa aparentemente homogênea, corporizada em múltiplos rostos, mas que parece carecer de uma história anterior, que parece não existir. E essa falta de historicidade cria aparentemente um ser macunaímico, sem caráter, sem passado e sem futuro. De uma completude individual marcada por uma desconexão com o todo. Dicotomicamente o indivíduo e a multidão são universos em trânsito cheios de potencialidades, esbarram uns noutros com os mesmos, nenhum ou mais atributos, que se complementariam na constituição de possibilidades criativas. A criatividade no indivíduo é anulada ou “posta á serviço”, justamente para manter o controle e as engrenagens deste mundo no mesmo funcionamento. A máxima é de que somos muitos e nada. Por outro lado as paixões não são simplesmente dominadas, elas podem responder de formas diferentes. Obviamente pois todos os indivíduos são diferentes entre si, de frustração e completude, de alegria e tristeza, assim por diante.
Meus irmãos no tempo quando ainda eram todos garotos falavam “você pensa demais”. Talvez tenha “feito” de menos também, hoje penso que com 30 anos Cristo tenha chacoalhado o Oriente Médio, que Alexandre com pouco mais 20 mandava sobre mundo, e que antes de duas décadas de vida Rimbaud tenha escrito obras primas.Sinto que como fruto desta sociedade, sou impedido em minhas realizações, do que me daria prazer ao invés de ter que me focar na sobrevivência. Querendo ou não, respondo como todos aos dilemas que apontei, pois não vivo numa redoma segura. Não vivo numa kitnet de cristal observando a imundície do alto, eu caminho nas ruas e dos esbarrões de ombro na multidão eu sinto a podridão e a doença do mundo infectando meu espírito. Assim como todos, tenho estas sensações, mas vejo poucos com a percepção afilada em pensar sobre isso. A dominação não se faz apenas de cima para baixo. Em muitos regimes autoritários quem fez papel de omisso, ou de delator, carrasco ou mantenedor do estado de coisas, foi o próprio povo, ou que seria na ponta de minhas análises o “indivíduo”, pois na hora de assinar o “B. O.” da vida, não tem anonimato. Quem é pior, aquele que observa sem tomar ação propositiva calado, ou aquele que não implementa o conhecimento que possui em benefício do coletivo? Qual é barreira entre o meu benefício “pessoal” e o meu interesse de “classe”?
Nesse momento de pensamento, vejo hoje o por que de partes da “tabuada” sumirem de minha cabeça.No fundo era algo que não me interessava. Ou seja, ciente ou não, todos fazemos mediante o nosso interesse. E aqui não estou sendo Maquiavélico, nem discípulo de Lock, eu reconheço isso como um traço do ser humano, este que vive nesta sociedade cada vez mais selvagem. Acho que reagi assim, pois já pequeno tinha uma inclinação ao incerto, ao imprevisível. A racionalidade e a exatidão são assustadores quando se é garoto. E talvez na tenra infância sejamos propensos a estas questões que a educação formal se encarregada de apagar, nos formatando.Essa racionalidade torna-se um tipo de coleira com enforcadeira, amarrada ao pescoço.Um fiscal, um professor que reprova, que avalia. “Não faça isto, é errado”. Não beba, não coma, não adoeça...”“,Não desvie, fique na linha”.Assim talvez fui ficando mais passional, temendo o mundo da razão pura e simples, onde tudo é prontamente explicável. Onde tudo cabe em fórmulas com resultados prontos. Começava á notar ali, obviamente sem o discernimento e o preparo da vida, o quanto a memorização é importante na constituição de um indivíduo.Da constituição do que se pensa e do que se vive. De como esta opera por fluxos que não obedecem necessariamente o “cronos social”. O tempo da memória, é delineado por encadeamentos de importância, primeiro dia na escola, primeiro beijo, a viagem ao interior, o mar, a descoberta consciente da sexualidade.E não é apagar memórias, eliminar da história o principal artifício de quem têm o poder? Assim a mente não esta em um plano único de decisões racionais, mas também no de suas paixões.
Essa percepção corresponde em minha humilde análise do paradigma do capital. Dessa forma penso-se que o trabalho ocupa parte fundamental da existência do indivíduo, trabalhar, ter posses, ser escravo do relógio de ponto, destacar-se como um bem sucedido, liga-se a necessidade e a vaidade num mesmo campo, tendo como resultado o lucro do sistema, mais do que por uma real busca por satisfação. . Não esquecendo que o termo “trabalho” deriva de tripalium, um instrumento de tortura, um chicote tripartido que fazia os escravos desempenharem sob o lombo de pele rasgada. Manter as pessoas em seus compartimentos, trabalhando, executando tarefas levando-as a exaustão de suas preocupações ou de seus corpos, mina a criatividade, mina o potencial crítico, o tempo enforca o pensar que por sua vez é ocupado com um bombardeio de estímulos vagos.Hoje somos infinitamente mais informados do que 100 anos atrás, por outro lado, nosso senso crítico, ético, para não falar noutros, andou em marcha ré ou adaptou-se á este mundo.
A sociedade do controle tem seus mecanismos para que tudo opere em sua ordem. Muitas vezes compartimentado em seguimentos. Percebo como reflexo disso a multiplicidade do indivíduo assim como o mundo que faz parte. Nos denominamos (ou às vezes nos é atribuído) uma porção de adjetivos, ou substantivos, que possam descrever, ou encerrar-lhe numa determinada categoria. Servindo todos eles, á todos os momentos de sua existência, como para nenhuma. Muito do que fala abarca um mosaico de pequenos pedaços, que são sua vivência e compreensão do que o cerca. Como muitos de nós, reproduzindo o discurso. Repetindo a falácia programada. Isso em minha percepção que não busca uma verdade, e sabe que é uma dentre várias nesse universo de possibilidades. Assim como nosso mundo, nossa sociedade, somos tudo e nada.
Talvez eu creia na máxima de Heráclito sobre o homem e o rio, que ambos estão em constante mudança, em constante transformação. Carregando-se de camadas de conhecimento ou vivências múltiplas que poderão tornar-se conhecimento a outrem. Cada um é único, singular em sua especificidade. Mas “somos coletivos e até certo ponto uma massa homogênea”, penso. Pois o bombardeio midiático de informação não privilegia o discurso crítico, ela se apóia nas paixões e anseios não racionais e o transforma em produtos. Até isso que faço agora, mais que desabafos, é o exercício de consciência para embutir a “criação de uma fonte”, como nós historiadores aprendemos a dizer. Fonte. Analise o “significado” do termo. Geralmente aplicado á um nicho hídrico, um local de onde brota água. Quem talhou o termo fonte documental provavelmente pensou nessa rica metáfora, tamanha a importância da fonte para o pesquisador, como a água é para a vida de um ser. Escrever, analisar, compor, criticar. Interagir em conhecimentos. Talhar de suas próprias mãos um conhecimento, uma crítica própria. O que dá instrumental, na constituição do perfil individual. Que vejo em falta. Não sou partidário da idéia de uniformizar a sociedade, mas acredito que estamos sendo roubados em nossas vidas á partir do momento que os meios que exercitam, criam, e desenvolvem a crítica não são os mesmos para todos. Viver numa sociedade que responde á um único paradigma ou que seja mais que um mero simulacro, onde o indivíduo que se constitui sob esta visão de mundo é mesmo múltiplo, mas está prostrado, tende á submissão de uma organização social de dominados e dominadores. Este homem que parei para pensar aqui e no qual me insiro no grupo, se constitui como ser social sob o fardo do controle quer queira, quer não.
O que o constitui o homem como indivíduo? Podem surgir milhões de respostas considerando um possível entendimento e levando em conta as mais variadas formações, os nichos de vivência, esferas de convivência e principalmente a história pessoal de cada um. Pouco é o tempo que nos resta sempre, para que possamos realmente avaliar e fazer uma análise pessoal sobre nós mesmos, para aguçar nossa percepção sobre a interação do “eu” com o mundo ao redor, reavaliando o que vivemos, como vivemos, para que vivemos e quem sabe para perceber talvez, os “por quês” de certas atitudes e receios nossos. Eu pensava que para entender essa constituição, deveria ir as rupturas, aos traumas, em uma análise psicanalítica da vida do indivíduo, importante, mas não suficiente. Penso agora mais numa abordagem de conhecimento múltiplo, algo pregresso na formação, das mais variadas áreas do conhecimento, muito mais que o “homem universal” dos iluministas ou muito mais que interdisciplinaridade proposta por Edgar Morin. Penso em algo que traga ao chão do “ordinary people” o campo da produção do conhecimento, que dispa de todas as vaidades, do status de “detentores do saber”, com uma percepção que nosso “eu” é soterrado por um desconhecimento crítico sobre nós mesmos em função de uma organização social de controle de uma classe sobre outra. Por mais utópico que possa parecer. Que não se contente em ensinar o camponês á contar pelas sementes que planta, que atue na sua realidade imediata e conhecimentos pressupostos, mas aja em diálogo máximo com as mais diversas áreas do conhecimento. Um conhecimento não seriado, organizado e disposto a maleabilidade.
Este “não-conhecer-se” ou “não reconhecer-se” que vejo em nossa sociedade, é gerado á partir do modus operandi da sociedade capitalista, que dentre inúmeros meios de controle penso, tem o entorpecimento do bombardeio de informação, o mundo da exploração das classes trabalhadoras, o dilema da imagem/paisagem (onde tudo é todos e todos são nada), a compartimentação do tempo do mundo do capital, bem como inúmeros outros meios de domínio e exclusão altamente adaptáveis e sutis. Isso é o que chamamos de “pós-modernidade”, mas admito sentir um grande incômodo com o termo. Quem detêm a dianteira do poder esta ciente que, aqueles que “pensam” devem ser ou anulados, ou cooptados pelas esferas mais altas do controle e ser moldados e/ou alinhados as fileiras de uma espécie de “elite”.Onde muitos seriam vistos como “uma nova vanguarda”, que se agregam promiscuamente ao grupo empossado junto ao poder, se vêem numa busca por manter uma estrutura educacional alienante de dentro para fora, de fora para dentro. Mesmo que a pressão social, ou oposição de grupos ao poder cobrem mudanças ( e não esqueçamos que vivemos num estado dito “democrático”) estas não vão longe. Operam-se pequenas mudanças para que tudo fique no mesmo e esvaziado de senso crítico.Por que ponho em questão logo a estrutura educacional? Em tese não é um dos primeiros locais onde se forma o indivíduo? Mesmo que carregada hoje da obrigação de preparo ao mundo do trabalho numa teia que passa de um departamento á outro, de um buraco á outro de uma coleira, é lá o primeiro local fora da família que fatores determinantes formarão o indivíduo. O poder sabe disso e administra o conhecimento em doses homeopáticas e seguras. Não estou considerando o “indivíduo” desprovido de ações propositivas, mas no amanhecer de sua formação, creio que é difícil ter uma percepção crítica de dominadores e dominados. Uma vez exposto á uma visão única da realidade levam-se anos para “quebrar” ou aceitar uma visão diferente. É colocado o pressuposto de que tudo, a sociedade, as estruturas, os códigos de conduta sempre foram assim. Sempre estarão, sempre serão. E este paradigma torna-se cada vez mais monolítico, sólido e pior aparentemente inquebrável.
O tempo de nossos dias não é o mesmo de outrora, a invenção do relógio, por exemplo, alterou completamente a relação entre as pessoas, o que se desempenhava ao ritmo das necessidades, tornou-se controlado. Não se pode parar. A dinâmica da grande metrópole contribui para tudo isso. Acelerada, cosmopolita. O tempo é cada vez menor e mais carregado de obrigações e responsabilidades a serem sanadas num espaço temporal minúsculo, que grita ao alarme do imediato. Fracionou-se o tempo e controlaram-se as motivações, sobretudo as necessidades, que agora atendem pelo nome de “sobrevivência”. O mundo do capital burguês não necessita de pensadores, ele precisa de braços, pernas. Como tentei explanar á pouco, aos cérebros ou destina-se um banco ao lado dos gabinetes ou ser atrofiado em focar-se no comer, no vestir-se, no morar, no problema imediato e não em grandes esferas, afinal “alguém é pago para pensar sobre isso”. Fragmentou-se o tempo e arranjaram de forma mais dominadora as estruturas sociais. Como na idade média, uns oram, outros guerreiam e o restante trabalha. Com a diferença de que hoje todos somos todas as classes.
Não se permite a autopercepção, na multidão do mundo que empossa uma elite, o restante torna-se paisagem, para que a completude do mundo seja profunda no indivíduo e superficial no coletivo. A multidão. Tudo e nada. Milhões em objetivo, uma massa aparentemente homogênea, corporizada em múltiplos rostos, mas que parece carecer de uma história anterior, que parece não existir. E essa falta de historicidade cria aparentemente um ser macunaímico, sem caráter, sem passado e sem futuro. De uma completude individual marcada por uma desconexão com o todo. Dicotomicamente o indivíduo e a multidão são universos em trânsito cheios de potencialidades, esbarram uns noutros com os mesmos, nenhum ou mais atributos, que se complementariam na constituição de possibilidades criativas. A criatividade no indivíduo é anulada ou “posta á serviço”, justamente para manter o controle e as engrenagens deste mundo no mesmo funcionamento. A máxima é de que somos muitos e nada. Por outro lado as paixões não são simplesmente dominadas, elas podem responder de formas diferentes. Obviamente pois todos os indivíduos são diferentes entre si, de frustração e completude, de alegria e tristeza, assim por diante.
Meus irmãos no tempo quando ainda eram todos garotos falavam “você pensa demais”. Talvez tenha “feito” de menos também, hoje penso que com 30 anos Cristo tenha chacoalhado o Oriente Médio, que Alexandre com pouco mais 20 mandava sobre mundo, e que antes de duas décadas de vida Rimbaud tenha escrito obras primas.Sinto que como fruto desta sociedade, sou impedido em minhas realizações, do que me daria prazer ao invés de ter que me focar na sobrevivência. Querendo ou não, respondo como todos aos dilemas que apontei, pois não vivo numa redoma segura. Não vivo numa kitnet de cristal observando a imundície do alto, eu caminho nas ruas e dos esbarrões de ombro na multidão eu sinto a podridão e a doença do mundo infectando meu espírito. Assim como todos, tenho estas sensações, mas vejo poucos com a percepção afilada em pensar sobre isso. A dominação não se faz apenas de cima para baixo. Em muitos regimes autoritários quem fez papel de omisso, ou de delator, carrasco ou mantenedor do estado de coisas, foi o próprio povo, ou que seria na ponta de minhas análises o “indivíduo”, pois na hora de assinar o “B. O.” da vida, não tem anonimato. Quem é pior, aquele que observa sem tomar ação propositiva calado, ou aquele que não implementa o conhecimento que possui em benefício do coletivo? Qual é barreira entre o meu benefício “pessoal” e o meu interesse de “classe”?
Nesse momento de pensamento, vejo hoje o por que de partes da “tabuada” sumirem de minha cabeça.No fundo era algo que não me interessava. Ou seja, ciente ou não, todos fazemos mediante o nosso interesse. E aqui não estou sendo Maquiavélico, nem discípulo de Lock, eu reconheço isso como um traço do ser humano, este que vive nesta sociedade cada vez mais selvagem. Acho que reagi assim, pois já pequeno tinha uma inclinação ao incerto, ao imprevisível. A racionalidade e a exatidão são assustadores quando se é garoto. E talvez na tenra infância sejamos propensos a estas questões que a educação formal se encarregada de apagar, nos formatando.Essa racionalidade torna-se um tipo de coleira com enforcadeira, amarrada ao pescoço.Um fiscal, um professor que reprova, que avalia. “Não faça isto, é errado”. Não beba, não coma, não adoeça...”“,Não desvie, fique na linha”.Assim talvez fui ficando mais passional, temendo o mundo da razão pura e simples, onde tudo é prontamente explicável. Onde tudo cabe em fórmulas com resultados prontos. Começava á notar ali, obviamente sem o discernimento e o preparo da vida, o quanto a memorização é importante na constituição de um indivíduo.Da constituição do que se pensa e do que se vive. De como esta opera por fluxos que não obedecem necessariamente o “cronos social”. O tempo da memória, é delineado por encadeamentos de importância, primeiro dia na escola, primeiro beijo, a viagem ao interior, o mar, a descoberta consciente da sexualidade.E não é apagar memórias, eliminar da história o principal artifício de quem têm o poder? Assim a mente não esta em um plano único de decisões racionais, mas também no de suas paixões.
Essa percepção corresponde em minha humilde análise do paradigma do capital. Dessa forma penso-se que o trabalho ocupa parte fundamental da existência do indivíduo, trabalhar, ter posses, ser escravo do relógio de ponto, destacar-se como um bem sucedido, liga-se a necessidade e a vaidade num mesmo campo, tendo como resultado o lucro do sistema, mais do que por uma real busca por satisfação. . Não esquecendo que o termo “trabalho” deriva de tripalium, um instrumento de tortura, um chicote tripartido que fazia os escravos desempenharem sob o lombo de pele rasgada. Manter as pessoas em seus compartimentos, trabalhando, executando tarefas levando-as a exaustão de suas preocupações ou de seus corpos, mina a criatividade, mina o potencial crítico, o tempo enforca o pensar que por sua vez é ocupado com um bombardeio de estímulos vagos.Hoje somos infinitamente mais informados do que 100 anos atrás, por outro lado, nosso senso crítico, ético, para não falar noutros, andou em marcha ré ou adaptou-se á este mundo.
Talvez eu creia na máxima de Heráclito sobre o homem e o rio, que ambos estão em constante mudança, em constante transformação. Carregando-se de camadas de conhecimento ou vivências múltiplas que poderão tornar-se conhecimento a outrem. Cada um é único, singular em sua especificidade. Mas “somos coletivos e até certo ponto uma massa homogênea”, penso. Pois o bombardeio midiático de informação não privilegia o discurso crítico, ela se apóia nas paixões e anseios não racionais e o transforma em produtos. Até isso que faço agora, mais que desabafos, é o exercício de consciência para embutir a “criação de uma fonte”, como nós historiadores aprendemos a dizer. Fonte. Analise o “significado” do termo. Geralmente aplicado á um nicho hídrico, um local de onde brota água. Quem talhou o termo fonte documental provavelmente pensou nessa rica metáfora, tamanha a importância da fonte para o pesquisador, como a água é para a vida de um ser. Escrever, analisar, compor, criticar. Interagir em conhecimentos. Talhar de suas próprias mãos um conhecimento, uma crítica própria. O que dá instrumental, na constituição do perfil individual. Que vejo em falta. Não sou partidário da idéia de uniformizar a sociedade, mas acredito que estamos sendo roubados em nossas vidas á partir do momento que os meios que exercitam, criam, e desenvolvem a crítica não são os mesmos para todos. Viver numa sociedade que responde á um único paradigma ou que seja mais que um mero simulacro, onde o indivíduo que se constitui sob esta visão de mundo é mesmo múltiplo, mas está prostrado, tende á submissão de uma organização social de dominados e dominadores. Este homem que parei para pensar aqui e no qual me insiro no grupo, se constitui como ser social sob o fardo do controle quer queira, quer não.
Marcelo B.Fonseca
Abril de 2007.
(pois nem todo pensamento nao tão bem desenvolvido deve ser posto a mesa para degustação)
(pois nem todo pensamento nao tão bem desenvolvido deve ser posto a mesa para degustação)
Para um contraponto:
“O Dilema do Prisioneiro-Monróvia”, autor: Thiago Zati - http://luzesartificiais.blogspot.com
fotos: Parque da Juventude, Santana, Zona Norte, flores e concreto sobre as lembranças de muito mais que 111 almas. Aperto de botão por mim mesmo.
Comments
A chave do Universo, por meu amigo lá de São Petesburgo... me sinto parte deste texto, assim com vc é parte do meu. Aquele banco rendeu histórias...
T.
Obrigada pelo seu comentário. Ao mesmo tempo em que foi gratificante pra mim, fiquei feliz de você ter me respondido. Ainda vou dar uma arrumada no meu cantinho, mas sabe como é, com a vida corrida sempre acaba sobrando pra depois. Mas é um dos meus objetivos.
Esses tempos escrevi um texto sobre tecnologia que refleti um pouco sobre essa coisa do tempo... o lance da tecnologia acelerar o tempo, ou mudar a noção de tempo/espaço... doido, né? é que eu ainda acho que o texto está bem ruim, quando eu der uma melhorada vou postar e quem sabe voce dá uma lida.
Bom, esses assuntos todos poderiam completar 100 comentários, mas aqui não é lugar para análises profundas, né? Mas parabéns pelos textos novamente.
Até mais.
Um beijo
Luísa
Fará falta na Apes e azar dos pobres mortais que ficaram sem ler uma obra prima desta!
Bando de imbecis!
Abraços!
voltarei sempre, claro!