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Festa de fim de ano. (ou de um dezembro perdido no passado do intelectual-peão)

As convenções sociais pregam certas peças. Pequenos joguetes do dia a dia que uns deixam passar, mas impregnam em minha mente como “análises”. Isso piora quando se pensa que onde vivemos é um lugar de tantas disparidades. Pessoas passam fome. Dormem na rua. Outro mata por pouca coisa. Quem deveria te proteger te rouba. Quem deveria te cuidar te extorque. E ainda assim as pessoas se atem a certos rituais. Por mais que eu não queira uma situação onde “alguém” ou um “ente” faça por mim. Passamos em pouco tempo de um pseudo estado de bem estar social, para o do semicaos urbano. Seja no metrô, no ônibus, no trânsito, as pessoas empunham seus gládios e elmos diários, suas armas de batalha cotidiana, língua, resmungos, competitividade. Como que com “cotovelos de faca” numa lotação que vem de lá dos cafundós da zona leste, de cara amarrada e o astral destruído aos quilômetros passados, ótimo jeito de começar a semana. Para os fãs de Mad Max (como eu) isso é “estar em casa”.O mês é dezembro, e mesmo empurrando com a pança a sobrevivência, existe quem teime em se fazer sensível com o espírito natalino, ou as reflexões do que foi o ano. Maldito Charles Dickens, pobre diabo piegas.

Num mundo assim, onde ter um trabalho é considerado uma vitória, tendo em vista que cada vez mais somos escravos e pior remunerados. Onde nossos direitos fogem como areia entre nossos dedos, rumo ao ralo da política neoliberal, não percebemos o pedaço de nós que morre. O que queremos? Grana para gastar e ter estabilidade. Por favor, não quero ajudar as Casas André Luis, nem a Legião da Boa Vontade. Não quero seu Santo Expedito, muito menos comprar suas rosas no farol...Levo isso á um pouco mais. Escrevi num e-mail recente: “Caro gerente, agradeço sua preocupação, não quero cheque, crédito, cartão, só uma conta salário, vocês já são canalhas o suficiente para me roubarem em milhões de taxas, se as atendentes me ligarem mais uma vez serei obrigado a fechar a conta. Passar bem...”. Fodam-se todos os católicos carismáticos e suas instituições de ajuda, os alcoólicos anônimos, a Tradição , a Família e Propriedade pois afinal, nenhum deles quer o MEU bem estar...Fodam-se todos os revolucionários de fim de semana, hippies universitários neo-marxistas que desfilam de Audi e tem empregadas lavando suas cuecas. Esses não são tão diferentes dos atuais fascistas de brinquedo que desfilam pelas ruas com suas cabeças raspadas e suásticas em jaquetas gringas (o que esses cucarachas acham que são?), que se escondem na surdina de MSN, disseminando terror virtual. Fodam-se principalmente os engajados, os politizados, os intelectualmente preparados, os preocupados, tenho certeza que o mundo seria um lugar melhor sem a presença de toda essa corja.

Ok, meus amigos sociólogos podem se empenhar em analisar ou desenrolar por todas as teorias que eu esbarrei acima, aqui não tenho espaço suficiente aqui para grandes elaborações. Nossas esferas de atuação estão tão reduzidas que o “protesto” me cansa, o “debate” se torna enfadonho e vou percebendo esse mundo cada vez mais dentro do buraco. Eu não sei mais se o mundo pede estado, ou a ausência dele, se vivemos nele ou fomos abandonados. Se existe saída real do mundo escravagista do capital. Respiro fundo. Penso. Por pior que seja, dar aulas é moleza. Não, fácil na real não é. Mas é melhor que atender público em loja, ou abrir portão de condomínio. Agüentar fulano com tom blasé, pagando de gostoso. Só quem acordou as 6 horas da matina , para pegar ônibus lotado sabe o sentido do que estou falando. Melhor isso a posições onde um chefe direto só falte cagar em minha mesa. Fazer pesquisa? Paraíso na terra! Trabalho solitário, bem remunerado e sem colegas ao redor. Novamente um adendo, não estou defendendo o trabalho, bom seria não ter que ter um, por outro lado o que tenho me basta, sem me fuder tanto.

Bom, lá vou eu para a festa de fim de ano do trabalho. O intelectual peão tem suas recompensas, uns dias de folga, uns trocos no bolso. Mas tem as penitências. Na real nunca somos “amigos” no local de trabalho. As pessoas são loucas para arrancar seu espaço. Tomar o que você conquistou, passar por cima. Mas insistem em almoçar juntas, se vêem a semana toda e querem sair aos bandos no fim de semana. Colégios têm uma estrutura “romana”. Existem aqueles velhos acostumados ao poder, anos no magistério, olhando enrugados e desdenhosos para as legiões de professores eventuais. Tapa buracos que abrandarão as feras nas salas de aula. Próximo da entrada, ao lado da secretaria o “senado”, a diretoria que legisla, omisso e apático. As professorinhas jovens que me remetem á fase de devassidão e decadência.

Eu vegetariano observo o ritual das coisas. O churrasco que não como. A música que não me agrada. Todo mundo tem que ser “exemplo” mas longe de olhos de pais e mães, as máscaras caem. Os abraços falsos, a droga do amigo secreto. Eu optei por não participar. Prefiro ficar ao lado das bandejas de salgadinhos. Cansei de explicar “por que não como carne” e “por que não gosto de cerveja”. O professor alienígena mal humorado de sempre. Dado momento chega a “rapaziada da z/n”, grupo de pagode do irmão de alguém, daí para a galera começar a saracotear de lá pra cá é um passo. Pergunto-me por que me enfio em certas roubadas. Talvez por que a diretora tenha me “pedido” (leia-se ordenado) para criar um clima de interação e de que este dia seria descontado no meu pagamento caso não fosse. Eu não entendo desde um bom tempo, o fator socializante da bebida. Um professor de química, cara calmo e tranqüilo toma tudo o que aparece pela frente. Dá meia hora para estar capotando e caindo pelas tabelas que não são as periódicas. A solteirona que dá aulas de matemática, seja lá pela sua total falta de simpatia e atributos físicos entorna todas também, um atrás do outro e começa a me irritar. Fala dos meus olhos, segura meu braço, toda pegajosa. Eu sei o que ela quer e como disse antes não tenho jeito com caridade. Dou uma escapada. Me entroso no time dos “homens”, os professores de educação física. Inevitavelmente o assunto é futebol, eu não acompanho um jogo inteiro do Corinthians á anos, pois me contentei em saber apenas os resultados. Não esta dando certo... perambulo de um lado para o outro e cada vez mais as pessoas parecem insuportáveis. Logo chega a diretora, ela dá meia dúzia de palavras num “momento solene” brindes são feitos, e a galera inspirada pelo pagode não arreda o pé. Fico esperando feito um gato ladrão a hora de dar o bote. Nisso já vejo uns casais se formando e se ajeitando pelos cantos. A tia merendeira esta pra lá de Bagdá. Uma professorinha eventual esta dando mole no meio de uma roda de uns 4 professores. Sinto muito, nem é a minha ficar cercando presa em bando.Os idiotas acham que são engraçados falando bobagens, não se tocam de que nenhum dos deles vai come-la de fato. Conheço o tipo. Vai ficar ali zanzando, atiçando como um doce às moscas de padaria, para depois ir embora e trepar com o primeiro otário pagodeiro que se disponha a gastar 2 frases de português mal construído. Uma pena Ela até daria um caldo por meia hora de combate no meu colchão .

Meu saco esta à beira de estourar e o relógio me castiga em lentidão. Olho para o celular, quem deveria me ligar não liga, quem deveria me escrever não manda mensagem e o dia vai ficando cada vez mais longo. De repente um velho professor, senta-se ao meu lado. Barba e restolho de cabelos brancos como a neve que nunca vi. Os alunos o apelidaram de Matusalém. Tem um olhar sereno fala pouco, um cérebro altamente treinado no raciocínio de física, não tivesse feito a besteira de se dedicar ao magistério talvez fosse um Nobel da Paz, vai saber...
“Você é muito sisudo rapaz. Tem que se juntar mais. Não há nada de ruim em trocar algumas palavras com os demais colegas. O pessoal aqui na escola gosta de você, alunos, professores, todos tem muito respeito por ti.”. Dei um sorriso, concordando com suas sugestões enquanto meu cérebro gritava “Nem fodendo”. “Estou a 30 anos no magistério, ministro aulas desde que me formei na faculdade, eu poderia ter me encaminhando a uma grande estatal, me aposentado, mas prefiro isso. Vim de uma família pobre sabe, nordestinos. O que consegui na vida foi por mim mesmo.”. Perguntei se era feliz, e se não se decepcionara, dado o estado que a educação se encontra é como se lutássemos contra os moinhos de vento de Quixote. “Claro, desistir é morrer. O seu mundo é diferente do meu, vejo os jovens sem sonho, perspectiva ou esperança. No meu tempo não era assim. Queríamos mudanças, os jovens de sua geração querem conformação, acomodar-se. Não os recrimino, quem moldou o mundo desta forma, foram os de minha geração e eles estão agarrando um osso que nunca puderam pegar.”.Afirmei-lhe que eu era um pessimista convicto que um dia não sei quando, desisti de uma porção de coisas, em prol de não enlouquecer solitário. Com dentes muito amarelados devido ao cigarro, me sorriu um dos sorrisos mais sinceros que já vi. “Eu ainda tenho minha Maria Clara, ela que me agüenta, estou melhor que você...”.Estava levemente bêbado me abraçou, me desejou boa sorte para o ano que começava, e se despediu. Dona Maria Clara, buzinava na frente da escola. Terminei meu refrigerante, e tive tempo de sumir antes da professora de matemática tentar uma abordagem mais direta a fim de que eu tirasse seu atraso.

Segui para casa. A companhia que eu esperava apareceu 2 horas depois do previsto. Eu já não estava esperando, acho que isso é um dos sinais de quando se conhece uma mulher. Fez-me uma boa companhia por uma noite. Viajei por uns dias, vi gente, lugares, descansei a mente que implorava repouso. Revi meus velhos, tempos que não almoçava com Dona Maria e Seu Expedito. Senti fome de sua sabedoria. Ao retornar, parecia que os alunos não eram tão chatos e barulhentos como eu vinha observando nos últimos tempos. O legal de se voltar de férias, é relembrar como único sóbrio da festa, as merdas que foram aprontadas. Professora casada que trepou com o faxineiro atrás da quadra, professor bêbado encontrado 2 dias depois da festa dormindo na rua, e por aí vai.Ao sinal da ultima aula fui guardar meus livros, vi um recado na lousa avisando da morte de meu amigo, o professor Matusalém. Câncer de pulmão. A família receberia as condolências no velório em casa. Fiquei estático por alguns instantes. Lembrei de nossa conversa. Liguei para dona Maria Clara, dei meus pêsames, aceitando o ditame social quanto à dor alheia. Falei do amor do velho por ela. Desliguei o telefone e fui embora, por mais doído que fosse, o mundo é dos vivos, aos que se vão as lagrimas e boas lembranças. Tenho uma guerra diária antes que chegue meu momento de tombar.


Este texto foi concebido para fazer parte da Apes - Revista Criacional número zero, que deixa agora a fase de projeto, para o de passo com maior ambiçao.Esperamos (eu e parceiros) que saia em breve com todo um material instigante e delicioso. Essa pequena narraçao, nao escapou a ediçao e ao julgamento do tempo. Mantendo a logica deste espaço, esta aqui a versao nao revisada, com os devidos e tradicionais erros de portugues, digitaçao. Mais uma vez obrigado pela leitura e visita. Agradeço mais ainda, se me deixar as suas impressões

Comments

maoslivres said…
desde q acompanho o blog, acho q foi o txt q + me prendeu a atenção. Bom a vera....
Ri c/ a parte da festa de trabalho....esses eventos são tragicômicos e pelo q vejo é a msm coisa em td q é lugar.
Fico intrigado c/ essa coisa de como as pessoas são obrigadas a passar a semana convivendo c/ outras pessoas q ñ lhes têm importância nenhuma e no tempo livre (é engraçado tb como usamos esse termo s/ se ligar q consequentemente assumimos as hrs de trabalho como tempo preso) fazem programas c/ essas msms pessoas s/ importância p/ fingir simpatia, boas maneiras ou qualquer merda do tipo....
Caio said…
Nada como passar bons momentos no culto à imagem e as impressões superficiais! Todos se odeiam, mas se dão as mãos para confraternizar! é um lance meio bizarro, não?
bom texto como sempre!

abraços
Lucas Lutero said…
e ai meu caro. Bem legal a sua narrativa, o texto prende a atenção, confesso que dei boas risadas também, ainda acho que a professora de matemática poria ser levada em consideração...
aguardo essa revista!!!
abraço
Anonymous said…
Cara, seu texto e suas reflexões são muito boas. E um tanto desesperadoras, na verdade. Fico lendo e parece que, a cada parágrafo, você vai descortinando a verdade e mostrando que, na realidade, a coisa toda parece não ter salvação. Às vezes fico me perguntando se o problema realmente está no "sistema capitalista" ou a raça humana que é mesmo o problema do mundo... Acho que qualquer pessoa, desde aquele que acorda às 6h da manhã até aquele que mora no condomínio de luxo acaba se identificando com certas coisas que você escreve, porque é simplesmente a realidade... nua e crua. medonha.
Gustavo said…
mandou, chapa. curti mesmo.
Anonymous said…
nao posso dizer que voce escreve bem pois nao tenho propriedade didática para isso, mas que voce sabe expressar o que voce sente - as impressões sao marcas únicas - lendo você me senti - há um reconhecimento e disto me fica a ira e essa maldita sensação de impotência...que não me detém tb, mas a muitos sou uma carranca pq de tantas máscaras q usam por ai, tanta etiqueta, já nao se reconhecem mais...

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