Olho para o espelho d’água que é a fonte de rua.Vejo meu cabelo comprido, a barba já indo longa,minhas rugas e cicatrizes. O sol circunda meu rosto disforme, as ondulações fazem meu queixo tocar a testa,encobrindo um olho. O astro rei brilha em fogo atrás de mim, aquecendo minhas costas, secando cada palmo de pele seja esticada ou enrruagada, tostando, jogando dentro de minha retina um brilho cegante. Uso trapos. Camisa, uma calça frouxa amarrada com uma corda improvisada como cinto. Fosse noutro tempo não agüentaria o odor que sai de mim, hoje tanto faz. Ser homem em parte é aceitar-se, é conformar se com o que se é. Ou não? Que pensamento foi o que realmente talhei? Como meu cheiro, este pensamento perdido também, tanto faz, se foi, uma hora volta. Sei que noutros tempos, já pensei muito em quem sou, no que me tornei e no que fui um dia.O fluxo de pensamento me foge e no mais tudo é sem importância. Os fragmentos vem e vão, as vezes acho que tenho uma geléia muito mole dentro da cabeça onde memórias, reflexões, anseios e pensares vários ficam a deriva, vagueiam, rodopiam, uma hora se encontram, acho que por isso certas coisas entram nos eixos e depois se perdem.
A água em minhas mãos encontra minha face, escorre pelo antebraço, hidratando, e transformando a fuligem do tempo acido e seco da cidade que me cobre, numa substancia pastosa negra. Um pedaço de metal velho, serve para tirar um excesso escuro de baixo de minhas unhas. Por mais que essa fonte não seja privada, por mais que eu não saiba a procedência da água, se tratada ou não, ela me refresca, sacia a sede. Penso nas necessidades. De um saco velho de pano, pego um pedaço de sabão em pedra que á dias carrego comigo. Apoio-o, na borda. Solto a corda, abaixo as calças. Tiro a camisa. Os transeuntes, podem ver o resplendor de minha decadência ao entrar na fonte. O corpo de um homem velho, magro e sujo. Se me perdoa ainda o resto de decência que tenho, exponho meu sexo em publico. Precisa ser lavado. Sinto o olhar das mulheres que vem e vão. Talvez seja o maior que já viram, ou não. Nunca se sabe. Que memorizem e comparem com o de seus maridos, noivos, namorados e amantes. Já os homens, desviam olhos...reprimindo vontades, desconcertados ou saiba o diabo o que passe por suas cabeças.Não sei de onde tiro essa certeza, mas as mulheres sempre ficam mais a vontade diante das outras do que os homens ditos heterossexuais. O sabão morre para o mundo em milhões de bolhas que se vão pela brisa. Inflasse entre minhas coxas, axilas, tronco. Meus poros sentem um alivio que resplandece em frescor. Sinto todo meu corpo sorrir.
Rousseau também ri. Abana o rabo, e salta por sobre a borda da fonte. Eu o reprimiria, mas permito. É um humanista. Não sei se um cachorro-humanista ou um humanista-cachorro. Por isso dei-lhe esse nome. De minhas memórias frouxas pingou o nome do francês, combina bem uma vez que a grafia de seu nome termina quase num latido. São os ouvidos que me ouvem, os olhos que me reprimem, o pêlo que me aquece em companhia. Negro camuflado bem pela noite.Talvez seja sua salvação o dia que não caminharmos mais juntos, ou quando me for para uma noitada na qual não mais acorde. Trocamos longas confidencias. O que me vem a mente claro. Não sei como pode falar tão bem um cão. Ver a benevolência dos homens, no seu estado bruto, e insistir em me dizer que é “a vida e este mundo louco, que estragam a bondade das pessoas”. “Afinal todos nascem bons de espírito, para serem corrompidos pela dor”, me latiu uma vez. E ele fala até sem latir. Como pode ter um pensar tão equilibrado, uma alma tão boa? Tenho certeza que em seu devido tempo será uma espécie de gerente de São Francisco de Assis, se este tiver sua porção “jardim do Éden” para os bichos.Um legislador. Com certeza Rousseau estará lá. Além disso, é esperto. Me ajuda a achar comida, rosna em desconfiança para aqueles que me trazem o mau. Dou 2 leves tapas e esguicho água em seu focinho.Ele pula fora correndo entre o vai e vem da praça. Volta correndo. É sinal para sair. Meu banho está acabado e vejo um guarda caminhando bem atrás do cão me olhando fixamente.Terminada a limpeza, eu saio. A voz do guarda soa como um lp arranhado. Eu respondo como se meus miolos estivessem mais fora do lugar do que realmente estão. Travamos um pequeno debate de surdos. Visto-me, pego minhas coisas e caminho, adentro um parque. Sento num banco. O cachorro faz festa, se encontra com umas crianças num playground. Ele adora crianças, e mesmo que as babás se assustem, ele ganha á todos. Garoto esperto. Pode ser que ele seja um anjo. Sem asas e com quatro patas. Apareceu-me numa noite, entrou embaixo do meu papelão, e quanto mais o expulsei mais ficou próximo, perambulou atrás de mim na manhã seguinte. Era bem menor naquela época. Cresceu ao meu lado, seu sorriso, e abanar de rabos ganham quase todos. Mas estou por perto e ninguém se atreve a maltrata-lo, pelo menos sem me maltratar junto.
Acho que estamos num domingo. Ou num tipo de feriado prolongado. O Parque esta aberto, tem gente como de costume, mas a cidade parece estar vazia. Falo pouco no geral, tem dias que não me lembro como é minha voz. Muitas vezes converso com Rousseau sem que ninguém ouça ou perceba. Pelos olhos. A voz de um dentro da cabeça do outro. Ser tachado de maluco? Pouco importa. Quem dá credito a um morador de rua, velho e sujo? Fico em meu mundo paralelo.Faço que não os vejo, como de fato não me vêem. Me integro a paisagem. Quando uma barreira é quebrada e alguém invade o mundo do outro faço um acordo de cavalheiros.Busco um farfalhar gostoso de orelha pelas palavras certas, geralmente ficam surpresos, e cada um que cuide de voltar a seu mundo.
Sento me num banco. Lembro da noite anterior. Um rapaz, me abordou. Um dos poucos pertences que tenho é uma caneta retroprojetora. Não preciso de mais do que tenho. Devo ser bom com o juntar de palavras, já que não as posso conter dentro de mim. Parecem percevejos correndo sob minha pele,como baratas enlouquecidas para ganhar a luz do dia. Querem jorrar de meus dedos sobre qualquer superfície que se possa escrever. Geralmente faço isso em pedaços de papelão antes de dormir.Acaba ficando decorativo ao meu redor, força meus pensamentos como uma ancora a fixar-se num lugar só. Sempre acabo cercado de gente, mas os ignoro. Com o rapaz não foi diferente. O resultado final nem sempre faz sentido até para mim mesmo, mas me alivia, e fica esteticamente bonito. Quadros de hieróglifos. Na rua se tem bastante tempo nestes dias de feriado que não posso trabalhar com o carrinho atrás de papelão. Os depósitos coletores fecham e não posso “alugar” um carrinho. Mesmo que eu exponha meu traseiro fedorento em praça pública para lavá-lo, uma resma do que chamam dignidade (e às vezes me pergunto se ainda a todos o sentido é o mesmo que para mim) não há de ser cagada de dentro de mim. Trabalho não dignifica.Trabalho rouba meu tempo, me cansa mas me traz moeda, a única coisa que se entende no mundo dos “visíveis” dos que não me enxergam. É o dinheiro que faz com que eu me faça perceptível como um fantasma que reencarna, e desaparece. Se você lê, é como o pai de Hamlet vagando por uma Dinamarca apodrecida, sumindo e desaparecendo, é esse o efeito, para se fazer mais fácil de compreender. E por isso, por mais que acostumado, junto minhas moedas, a caridade anda em baixa. Não sei quando comecei a pedir, não sei quanto tempo moro nas ruas.Mas posso puxar carrinho, Rousseau me ajuda, quase sempre se diverte.
Vejo ao redor crianças e todo tipo de gente. Correm, barulhentas, gritalhonas.Tenho comigo entre minhas coisas um pequeno saco, onde guardo esses trocos, em dia que não tenho sopão, comida ou abrigo grátis, posso pagar para mim e meu parceiro. A lua é a luz de meu teto. O Sol meu despertador, e referencia de horas. Ontem o rapaz se encantou com minhas frases. Acho que escrevi sobre a liberdade, e a prisão de todos os dias que arranca a vida das carcaças moribundas nos ônibus e metrôs da cidade. Sei que sou tão preso a este mundo doente, que simbioticamente sou tão dependente de minha própria miséria e tão preso quanto o trabalhador médio. Ele se impressiona. Senta-se ao meu lado e puxa papo. Muito educado, conversador. Pede permissão para gravar a conversa. Eu tinha o gosto da última pinga da noite sobre a língua, e meu estomago estava despertando da anestesia, e rugia. Pedi algo ao rapaz. Já devia ser tarde.Ele trouxe do japonês da praça um par de yakisobas, pensei “não vou agüentar tudo isso”, fiquei surpreso, sentou-se ao meu lado e jantamos juntos na calçada, parecia não se importar com alguns olhares de surpresa e desdém que se abatiam sobre ele. Senti vontade de falar. Até que tocou num ponto crucial. O passado.
O passado de todo mundo é um longo tecido que se estende no decorrer dos anos. Não sei se o meu se rasgou, ou se vem como uma colcha de retalhos. Pediu para se apresentar. Insisti que não. Eu iria esquecer com certeza, e nesse mundo de transeuntes só pessoas de rico coração como Rousseau mereciam ter um nome. Somos faces passantes, indo rumo ao esquecimento após a esquina, nomes não importam. Consentiu com um sorriso desconcertado e não se importou por meus lapsos e minhas falhas. Só queria um punhado de histórias, vez por outra me interrompia, me pedia detalhes. Era tão educado que não me importei. Decidi lhe falar da França. Do que me vinha a mente. Os Champs-Élysées e sua largura descomunal, o Montmartre da boemia, o Louvre, a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo.Não sei como mas algumas expressões e gramáticas francesas se confundiram se engalfinhando em meu português. Disse lhe do cheiro dos cafés e de seus pensadores que me encantam, das cores, do céu, do Moulin Rouge, e dela que esta em minhas lembranças e não me lembro de seu nome.Da consistência que tem as águas do Sena pelas manhãs, aos olhos de quem não dorme na cidade luz. Quando tenho espaço para isso, o mar de minha mente fica mais caudaloso, não sei onde termina o atracadouro de minha razão, com o mar profundo de delírios e pesadelos. Pergunto-me sem que saiba se pisei em solo franco por paginas de papel semi mofado, em asas metálicas de realidade ou no doce sonho que nunca estou só. O rapaz parecia não se importar, tinha uma sede de ouvir e conhecer impressionante. Rousseau sentou-se ao seu lado, e tinha a mão do jovem sobre sua cabeça, lambia os beiços do resto do yakisoba.Quando cansei me pedi que fosse embora.Ele me disse que retornaria. Pouco me importa, pela manhã resolvi caminhar rumo as distancias da cidade.
Quando o jovem foi embora sonhei com ela. Como sonho toda noite. Ela me abraça. Sorri. Canta. Afaga-me. Beija. Acordo suando pensando em seu nome. Invariavelmente com uma firme ereção apontando aos céus. O nome nunca me vem, decidi a um tempo a cada aparição onírica receberia um. E ela já foi Beatrice, Juliette, Marianne, tantas, até eu aceitar que “ela” seria seu nome para mim. O rapaz ficou de me procurar e me pedir mais histórias. Não quero ter o compromisso para com ninguém, que não eu e meu anjo de 4 patas. Foi ai que decidi ir á parte mais distante da cidade. Andei o dia todo sob o sol. Precisei de um banho. Com muito cuidado, tirei umas moedas de minha bolsa (ninguém precisa saber o que possuo por mais pouco que seja, no mais, os olhos da inveja estão ao redor sempre). Compro de um ambulante um espeto de churrasco. Divido com o cão. Sinto-me saciado. Um guarda do parque pede que eu me retire. Faço o olhar deprimido dos velhos vencidos pelo tempo e a vida em falsidade. Leio em sua postura e biótipo um homem de bom coração, deve ter filhos e um pai da minha idade provavelmente. Calou-se, coçou a cabeça por baixo do boné e me disse. “Se quiser domir, vá ate a parte mais á dentro do parque, tem pouco policiamento, lá fica a vontade, e ninguém te incomodará.”. Acordo com a noite. A lua esta no mesmo lugar, o parque esta fechado. Vou até uma extremidade do parque que tem um portão aberto, passo pelas grades ganho a noite. Rousseau saltitante como um carneiro, me segue passando a frente vez por outra. Meus percevejos correm pelos braços, acho numa lixeira próxima um punhado de folhas de papel. Rabisco. Libero tudo que tem de sair. A lua me olha. Lembro do Montmartre, de uma dança, tão real que sinto o toque de mãos e o perfume dos cabelos. A vida é feita de sonho penso eu. Entre o tudo e o ter, entre a riqueza e um cão falante e a miséria de moedas dadas ou ganhas. Sou o dono deste mundo.Desta porção de roupa suja que me cobre, defecando ao ar livre sobre os gramados bem aparados da conformidade. Assim sou homem apenas. A possuir-me.
A água em minhas mãos encontra minha face, escorre pelo antebraço, hidratando, e transformando a fuligem do tempo acido e seco da cidade que me cobre, numa substancia pastosa negra. Um pedaço de metal velho, serve para tirar um excesso escuro de baixo de minhas unhas. Por mais que essa fonte não seja privada, por mais que eu não saiba a procedência da água, se tratada ou não, ela me refresca, sacia a sede. Penso nas necessidades. De um saco velho de pano, pego um pedaço de sabão em pedra que á dias carrego comigo. Apoio-o, na borda. Solto a corda, abaixo as calças. Tiro a camisa. Os transeuntes, podem ver o resplendor de minha decadência ao entrar na fonte. O corpo de um homem velho, magro e sujo. Se me perdoa ainda o resto de decência que tenho, exponho meu sexo em publico. Precisa ser lavado. Sinto o olhar das mulheres que vem e vão. Talvez seja o maior que já viram, ou não. Nunca se sabe. Que memorizem e comparem com o de seus maridos, noivos, namorados e amantes. Já os homens, desviam olhos...reprimindo vontades, desconcertados ou saiba o diabo o que passe por suas cabeças.Não sei de onde tiro essa certeza, mas as mulheres sempre ficam mais a vontade diante das outras do que os homens ditos heterossexuais. O sabão morre para o mundo em milhões de bolhas que se vão pela brisa. Inflasse entre minhas coxas, axilas, tronco. Meus poros sentem um alivio que resplandece em frescor. Sinto todo meu corpo sorrir.
Rousseau também ri. Abana o rabo, e salta por sobre a borda da fonte. Eu o reprimiria, mas permito. É um humanista. Não sei se um cachorro-humanista ou um humanista-cachorro. Por isso dei-lhe esse nome. De minhas memórias frouxas pingou o nome do francês, combina bem uma vez que a grafia de seu nome termina quase num latido. São os ouvidos que me ouvem, os olhos que me reprimem, o pêlo que me aquece em companhia. Negro camuflado bem pela noite.Talvez seja sua salvação o dia que não caminharmos mais juntos, ou quando me for para uma noitada na qual não mais acorde. Trocamos longas confidencias. O que me vem a mente claro. Não sei como pode falar tão bem um cão. Ver a benevolência dos homens, no seu estado bruto, e insistir em me dizer que é “a vida e este mundo louco, que estragam a bondade das pessoas”. “Afinal todos nascem bons de espírito, para serem corrompidos pela dor”, me latiu uma vez. E ele fala até sem latir. Como pode ter um pensar tão equilibrado, uma alma tão boa? Tenho certeza que em seu devido tempo será uma espécie de gerente de São Francisco de Assis, se este tiver sua porção “jardim do Éden” para os bichos.Um legislador. Com certeza Rousseau estará lá. Além disso, é esperto. Me ajuda a achar comida, rosna em desconfiança para aqueles que me trazem o mau. Dou 2 leves tapas e esguicho água em seu focinho.Ele pula fora correndo entre o vai e vem da praça. Volta correndo. É sinal para sair. Meu banho está acabado e vejo um guarda caminhando bem atrás do cão me olhando fixamente.Terminada a limpeza, eu saio. A voz do guarda soa como um lp arranhado. Eu respondo como se meus miolos estivessem mais fora do lugar do que realmente estão. Travamos um pequeno debate de surdos. Visto-me, pego minhas coisas e caminho, adentro um parque. Sento num banco. O cachorro faz festa, se encontra com umas crianças num playground. Ele adora crianças, e mesmo que as babás se assustem, ele ganha á todos. Garoto esperto. Pode ser que ele seja um anjo. Sem asas e com quatro patas. Apareceu-me numa noite, entrou embaixo do meu papelão, e quanto mais o expulsei mais ficou próximo, perambulou atrás de mim na manhã seguinte. Era bem menor naquela época. Cresceu ao meu lado, seu sorriso, e abanar de rabos ganham quase todos. Mas estou por perto e ninguém se atreve a maltrata-lo, pelo menos sem me maltratar junto.
Acho que estamos num domingo. Ou num tipo de feriado prolongado. O Parque esta aberto, tem gente como de costume, mas a cidade parece estar vazia. Falo pouco no geral, tem dias que não me lembro como é minha voz. Muitas vezes converso com Rousseau sem que ninguém ouça ou perceba. Pelos olhos. A voz de um dentro da cabeça do outro. Ser tachado de maluco? Pouco importa. Quem dá credito a um morador de rua, velho e sujo? Fico em meu mundo paralelo.Faço que não os vejo, como de fato não me vêem. Me integro a paisagem. Quando uma barreira é quebrada e alguém invade o mundo do outro faço um acordo de cavalheiros.Busco um farfalhar gostoso de orelha pelas palavras certas, geralmente ficam surpresos, e cada um que cuide de voltar a seu mundo.
Sento me num banco. Lembro da noite anterior. Um rapaz, me abordou. Um dos poucos pertences que tenho é uma caneta retroprojetora. Não preciso de mais do que tenho. Devo ser bom com o juntar de palavras, já que não as posso conter dentro de mim. Parecem percevejos correndo sob minha pele,como baratas enlouquecidas para ganhar a luz do dia. Querem jorrar de meus dedos sobre qualquer superfície que se possa escrever. Geralmente faço isso em pedaços de papelão antes de dormir.Acaba ficando decorativo ao meu redor, força meus pensamentos como uma ancora a fixar-se num lugar só. Sempre acabo cercado de gente, mas os ignoro. Com o rapaz não foi diferente. O resultado final nem sempre faz sentido até para mim mesmo, mas me alivia, e fica esteticamente bonito. Quadros de hieróglifos. Na rua se tem bastante tempo nestes dias de feriado que não posso trabalhar com o carrinho atrás de papelão. Os depósitos coletores fecham e não posso “alugar” um carrinho. Mesmo que eu exponha meu traseiro fedorento em praça pública para lavá-lo, uma resma do que chamam dignidade (e às vezes me pergunto se ainda a todos o sentido é o mesmo que para mim) não há de ser cagada de dentro de mim. Trabalho não dignifica.Trabalho rouba meu tempo, me cansa mas me traz moeda, a única coisa que se entende no mundo dos “visíveis” dos que não me enxergam. É o dinheiro que faz com que eu me faça perceptível como um fantasma que reencarna, e desaparece. Se você lê, é como o pai de Hamlet vagando por uma Dinamarca apodrecida, sumindo e desaparecendo, é esse o efeito, para se fazer mais fácil de compreender. E por isso, por mais que acostumado, junto minhas moedas, a caridade anda em baixa. Não sei quando comecei a pedir, não sei quanto tempo moro nas ruas.Mas posso puxar carrinho, Rousseau me ajuda, quase sempre se diverte.
Vejo ao redor crianças e todo tipo de gente. Correm, barulhentas, gritalhonas.Tenho comigo entre minhas coisas um pequeno saco, onde guardo esses trocos, em dia que não tenho sopão, comida ou abrigo grátis, posso pagar para mim e meu parceiro. A lua é a luz de meu teto. O Sol meu despertador, e referencia de horas. Ontem o rapaz se encantou com minhas frases. Acho que escrevi sobre a liberdade, e a prisão de todos os dias que arranca a vida das carcaças moribundas nos ônibus e metrôs da cidade. Sei que sou tão preso a este mundo doente, que simbioticamente sou tão dependente de minha própria miséria e tão preso quanto o trabalhador médio. Ele se impressiona. Senta-se ao meu lado e puxa papo. Muito educado, conversador. Pede permissão para gravar a conversa. Eu tinha o gosto da última pinga da noite sobre a língua, e meu estomago estava despertando da anestesia, e rugia. Pedi algo ao rapaz. Já devia ser tarde.Ele trouxe do japonês da praça um par de yakisobas, pensei “não vou agüentar tudo isso”, fiquei surpreso, sentou-se ao meu lado e jantamos juntos na calçada, parecia não se importar com alguns olhares de surpresa e desdém que se abatiam sobre ele. Senti vontade de falar. Até que tocou num ponto crucial. O passado.
O passado de todo mundo é um longo tecido que se estende no decorrer dos anos. Não sei se o meu se rasgou, ou se vem como uma colcha de retalhos. Pediu para se apresentar. Insisti que não. Eu iria esquecer com certeza, e nesse mundo de transeuntes só pessoas de rico coração como Rousseau mereciam ter um nome. Somos faces passantes, indo rumo ao esquecimento após a esquina, nomes não importam. Consentiu com um sorriso desconcertado e não se importou por meus lapsos e minhas falhas. Só queria um punhado de histórias, vez por outra me interrompia, me pedia detalhes. Era tão educado que não me importei. Decidi lhe falar da França. Do que me vinha a mente. Os Champs-Élysées e sua largura descomunal, o Montmartre da boemia, o Louvre, a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo.Não sei como mas algumas expressões e gramáticas francesas se confundiram se engalfinhando em meu português. Disse lhe do cheiro dos cafés e de seus pensadores que me encantam, das cores, do céu, do Moulin Rouge, e dela que esta em minhas lembranças e não me lembro de seu nome.Da consistência que tem as águas do Sena pelas manhãs, aos olhos de quem não dorme na cidade luz. Quando tenho espaço para isso, o mar de minha mente fica mais caudaloso, não sei onde termina o atracadouro de minha razão, com o mar profundo de delírios e pesadelos. Pergunto-me sem que saiba se pisei em solo franco por paginas de papel semi mofado, em asas metálicas de realidade ou no doce sonho que nunca estou só. O rapaz parecia não se importar, tinha uma sede de ouvir e conhecer impressionante. Rousseau sentou-se ao seu lado, e tinha a mão do jovem sobre sua cabeça, lambia os beiços do resto do yakisoba.Quando cansei me pedi que fosse embora.Ele me disse que retornaria. Pouco me importa, pela manhã resolvi caminhar rumo as distancias da cidade.
Quando o jovem foi embora sonhei com ela. Como sonho toda noite. Ela me abraça. Sorri. Canta. Afaga-me. Beija. Acordo suando pensando em seu nome. Invariavelmente com uma firme ereção apontando aos céus. O nome nunca me vem, decidi a um tempo a cada aparição onírica receberia um. E ela já foi Beatrice, Juliette, Marianne, tantas, até eu aceitar que “ela” seria seu nome para mim. O rapaz ficou de me procurar e me pedir mais histórias. Não quero ter o compromisso para com ninguém, que não eu e meu anjo de 4 patas. Foi ai que decidi ir á parte mais distante da cidade. Andei o dia todo sob o sol. Precisei de um banho. Com muito cuidado, tirei umas moedas de minha bolsa (ninguém precisa saber o que possuo por mais pouco que seja, no mais, os olhos da inveja estão ao redor sempre). Compro de um ambulante um espeto de churrasco. Divido com o cão. Sinto-me saciado. Um guarda do parque pede que eu me retire. Faço o olhar deprimido dos velhos vencidos pelo tempo e a vida em falsidade. Leio em sua postura e biótipo um homem de bom coração, deve ter filhos e um pai da minha idade provavelmente. Calou-se, coçou a cabeça por baixo do boné e me disse. “Se quiser domir, vá ate a parte mais á dentro do parque, tem pouco policiamento, lá fica a vontade, e ninguém te incomodará.”. Acordo com a noite. A lua esta no mesmo lugar, o parque esta fechado. Vou até uma extremidade do parque que tem um portão aberto, passo pelas grades ganho a noite. Rousseau saltitante como um carneiro, me segue passando a frente vez por outra. Meus percevejos correm pelos braços, acho numa lixeira próxima um punhado de folhas de papel. Rabisco. Libero tudo que tem de sair. A lua me olha. Lembro do Montmartre, de uma dança, tão real que sinto o toque de mãos e o perfume dos cabelos. A vida é feita de sonho penso eu. Entre o tudo e o ter, entre a riqueza e um cão falante e a miséria de moedas dadas ou ganhas. Sou o dono deste mundo.Desta porção de roupa suja que me cobre, defecando ao ar livre sobre os gramados bem aparados da conformidade. Assim sou homem apenas. A possuir-me.
Comments
E a sacada do cão com o nome Rousseau foi muito boa! "O discurso sobre a desigualdade entre os homens".
Qualquer um de nós poderia ser o velho mendigo ou o saltitante Rousseau. Se é que já não somos a nosso modo!
Abraços!
Belo nome ao cão, ótima sacada.
um conto escrito de forma simples e cheio de passagens poéticas que me fizeram imaginar. Engraçado é que não senti pena ou nenhum tipo de compaixão, apenas me pus em situação e entendi.
Sua forma de escrever me prendeu por tantos detalhes e minúscias.
Fiz o papel do rapaz agluns dias atrás e confesso que ganhei um amigo, um par de olhos brilhantes e uma história que é só dele e que este teve a generosidade de compartir. No fim, ele agradece pelos ouvidos atentos tbm. E bem aquilo que vc escreveu..o que importa á ele que qualquer um de nós voltemos? é o desapego ao tudo.
*boni