Mais do que nunca é refém de seus pensamentos. Pensa com seus botões, em como tudo de errado pode se abater por vezes consecutivas sobre sua cabeça. Olha para o visor partido do celular, os minutos que voam, ou às vezes que ficam inertes. Ele deveria se levantar mas não consegue. Algum tipo de letargia imobiliza sua vontade. Tenta empurrar a síndrome de vitima para longe, mas sabe quem é, quem se fez, e que mais que a vontade,o corpo tem que responder com o esforço físico. Isso não é o que vai lhe abater. Tudo escurece e clareia, oscilante. Sua garganta dói. O estômago tem um pequeno revirar, a coluna tem as dores esparsas, como parasitas presos em seu tronco, presentes de noites mal dormidas. O sono que se esvai na paranóia, e também pelo alarde do casal que se esmurra bêbado todas as noites no apartamento ao lado.A dor é moral, é espiritual e é carnal. Em cacos de espírito e cartilagens rebentadas.Da miséria e da derrota para o sistema. “Somatizar”, não é funcional apenas, nas neuroses que afligem a mente e o corpo, mas a somatória dos desalentos da alma também. Sabe que cada milímetro de seu caráter foi erguido a custa de, sacrifícios e o exercício contínuo de manter a vergonha na cara.Seus olhos correm o quarto. As ruínas de seu reino. Cadeira quebrada, espelho partido, roupas espalhadas. A simplicidade de moveis toscos desmembrados, a proximidade dilacerada de tudo. Cacos infinitos. Pedaços por toda parte, um puzzle de lixo não reciclável. A presença constante de quem não mais volta.Continua a pensar. Ser sujeito é muito mais que ter um r.g., é muito mais que pagar contas, ter um carro, uma graduação, mais que ser bonito, ou saber belas palavras e empolar a fala. Ser sujeito é ter sangue correndo nas veias. Não aquela preocupação “sanguínea” que ateste uma pretensa nobreza como buscam os “orgulhosos” senhores deste mundo. É ter sangue de verdade, quente que arde como o fogo, como o rancor de quem tem a marca de um tapa na face.É ter verdadeiros ‘testículos’, mesmo sendo mulher. Isso os herdeiros desta cloaca fedida rumo ao abismo nunca terão. Na ordem dessa sociedade isso é pouco mais que um pensamento antiquado.Ser um homem de verdade é artigo a ser comprado, ou ser fóssil de eras mortas. Assim a força da vontade de aço esmorece.Os joelhos do guerreiro enfraquecem. As sinapses Dele estendido no colchão, correm o ritmo louco da eletricidade, trazendo o cansaço, a dor e a descrença.
Olha para as estantes do quarto. Os mestres o observam, em suas faces quadradas, amarelas e empoeiradas, ele vê seus nomes. Como professores que lhe ajudaram a delinear o gosto, como guias em entroncamentos estranhos da imaginação. Como a professorinha distante, que segurava a sua mão no desenhar a primeira letra, a primeira silaba. Ele se põe a pensar o quanto às criações de cada um contam suas historias de dor, vitória, tristeza. Uns mais que outros é claro. Mas como cada homem por sobre este planeta é um pequena bolinha de gude empurrada pelas mãos infantis e sádicas de Deus rumo ao desconhecido. Porém, nem todos se despem em suas almas. Essas palavras ali escritas contem vísceras de sentimentos e cadáveres de emoções, cravado no tórax de cada gentio que como Ele, ainda sensível, não se deixou derrubar pelo mundo.Ele precisa se levantar.Mas não precisa.Não há lugar para ir. Não á responsabilidades a serem cumpridas.Existe a sobrevivência. O dinheiro inexistente, a comida que acaba.Seu mundo ,roubado, suas conquistas cada dia menosprezadas. Fim de contrato, de ano, de promessas. A noite anterior esta em suas escoriações na mente. No filete fluido e escarlate com cheiro de ferrugem, que escorre de seu flanco e mancha o velho lençol. Assinado nos círculos coagulados em roxos por toda parte de seu corpo. Em inchaços que revestem seus ossos quebrados. Pensa. O pulmão pode estar perfurado, a respiração esta dolorida.
Ve o teto, em descontinuidades mentais, nacos temporais giram sem conexão. “É o remédio” pensa. O princípio, pois tudo começa de algum ponto, se deu horas antes,tantas que não saberia precisar. A tragicomédia do levantar-se na busca e esfacelar-se de cara no chão, por não encontrar ou por ter o queixo arrogante em riste.A noite veio depois do dia. Começou numa tarde que dera lugar a um arrastar longo e moroso de horas. Estivera em vários escritórios no começo do girar do relógio. Antes de sair de casa conferia os bolsos, o dinheiro cada vez mais escasso. Comera pouco no jantar, sabia que a fome viria como de costume, sendo assim fosse boa companhia. Não era mais incômodo, pois já era hábito. Tomou um café preto e amargo. O açúcar acabara, não tinha pão. Uma batida rápida de olho no armário e geladeira, desvelou o nada aos olhos. Seria bom se pudesse se alimentar de rancor e de pedaços de gelo. Muito pouco restara da compra do mês. Ele não tinha mais dinheiro, que não fosse o do bolso. Sempre parecia um esforço de “secar o gelo”, ou de construir um castelo de areia rente ao quebrar de ondas da praia, tudo sempre desmorona, se desfaz,acaba, mudando ou não para outra coisa. Quando se mora com os pais, parece que tudo se organiza em passe de mágica, e a necessidade de reposição do que acaba na economia domestica em solidão, torna-se doloroso como deixar as comodidades do ninho materno.
Ao ganhar a rua sentiu a brisa fria no rosto. Tinha alguma nevralgia no rosto, já esperava o incomodo com a mudança das estações, o vento fez doer-lhe a face. Pensou em ir ao médico, mas não tinha convênio. O único que cuidava de si era o próprio. O que restava era contornar a dor com alguns analgésicos que levava no bolso. Tinha enormes filas de atendimento para enfrentar. Metrô, entrevistas, caminhadas, agências. Torcendo para que não chovesse. Hoje não era dia para os abatedouros públicos da carne. Era dia para os abatedouros morais. Para ser esmagado e desossado como um suculento bife, por entrevistadoras, em dinâmicas e testes de paciência e níveis variados de imbecilidade, que não descobriam um fiapo de sua alma. Ou de sua inteligência. Ou de seu caráter. Carregava uma pasta com copias de seu currículo. Sentia o cheiro do próprio corpo, havia tomado banho, feito a barba, para ficar mais “apresentável”, como tantos o recomendaram. O dia estava nublado e vestia um velho blazer de algodão, camisa de botão,calça, sapatos que apertavam seus dedos, isso pouco importa pois é preciso saber vender-se. Vender a imagem. Vender o discurso.Vender-se. Prostituir-se sorrindo. Sorrir para ser roubado, enrabado, e destratado sob o açoite sorridente de seu patrão. Submisso ao senhor-dono pelo capital.Capital que traz satisfação, dinheiro, comodidade e sobrevivência. Nas narinas,o odor próprio lhe trazia a mente mais que higiene, pois era necessário purificar-se, buscar uma limpeza interna mesmo que a água não passasse da derme. Era reconfortante sair da cama,ir ao banheiro, sob o chuveiro. Enquanto havia energia para aquece-lo. Uma massagem leve, parecia aos poucos por no lugar todos os nervos tencionados, e acalentar células que perderam a necessidade de sono.
Antes de entrar no metrô, vê as enormes filas. As feições são de ovinos, suínos, caprinos, eqüinos que passam rolando as catracas, acotovelando-se, empurrando-se correndo ao comboio metálico que toca a sinal para o fechamento das portas.Juntos como em baias, aguardando com olhos vazios, a sineta do abate. Repetida, cacôfonica ad infinitum. O movimento dessa orquestra do bizarro é mecânico, em sons metálicos, guinchos e tosses humanas. Tão animal que impossível não perceber a ereção de alguns machos descontrolados dentro de suas calças ao encontrar nádegas de fêmeas ou de outros machos no espremer dos corpos dentro dos vagões.Ele sente-se enojado, mas não tem forças para importar-se, ninguém se importa.O trem ganha os túneis subterrâneos, e Ele se vê na luz fosca em reflexo da janela, tão espremido como todos.Igual entre os diferentes, e a apatia é o que mais o incomoda. O ar abafado que passou viciado por todos os pulmões dali, o hálito de alguém próximo embrulha seu estômago. Ele toma outros comprimidos alem do analgésico que trouxe. Quem sabe alivie a mente. E afaste do imediato, as leituras de anos passados.Cada vez mais a renuncia contamina seu cérebro. Ele quer sedar parte de si. Ele não mais quer o duelo morrer-matar-viver, quer conformação resignada. Tal qual o cérebro suicida que vence a mão trêmula. Que vence sua parcela que quer vida, Ele almeja sobrepujar a si mesmo. Para que mergulhe seus olhos em normalidade, que rebaixe Seu intelecto a ver o mundo sem complexidades, com a tranqüilidade e a realidade de uma novela, que a crítica se engavete num punhado liquido, pegajoso de células moribundas num canto de interno da cabeça.Pensar dói.Traz a dor. É preciso esquecer as teses, as revoluções, não se pensa em transformações radicais em fome e doença. Ou melhor se pensa, apenas não as FAZ. Do mesmo modo que tem de haver o terreno propicio a eclosão, unicamente uma mente e um coração nada podem fazer na aridez da apatia. A Sua frente o vitorioso esta feliz com um celular de câmera embutida e mp3 player. Perfumado por Hugo Boss e regrado na mordaça temporal de uma linda e brilhante réplica de Rolex. Felicidade. Que Ele não sabe mais definir. Escapando como o dragão que desperta do abismo depois do sono de milanos para trazer a discórdia, as palavras de La Farge evocam o ócio. Elas giram em Sua mente, emergindo do negrume revoltado, dançando nos átomos perdidos de sua indignação. Em Seu intimo Ele sabe e almeja o ócio. A Criatividade grita. E uma faísca descontrolada de suas sinapses que não se deixam acorrentar, liga como um interruptor de luz em circuito, um pensamento de que ninguém mais merece o ócio. De que Ele ali espremido como todos, pode legislar em Seu silêncio de que ninguém merece a tortamente compreendida, corrompida e difamada liberdade. Ninguém se permite, pois a tratam como uma prostituta de baixo preço. O cristianismo conseguiu. O socialismo conseguiu.O liberalismo conseguiu, o capitalismo conseguiu, junto de calvinistas, judeus, marxistas loucos que colocam o tripalium no lombo de todo proletariado. Esse é o terceiro punhado de terra sobre o caixão saído do velório do espírito de revoltosos e homens bombas em jihad, jogado pela a crítica, sete palmos bem frios e mortos abaixo da terra. Pois o Krisis tem suas polpudas bolsas para estudar e fazer crítica ao trabalho sem ter que acordar às 5 horas da manhã. Eles têm seu quinhão europeu sob a égide da Mater Acadêmica ou do seguro desemprego vitalício em euro. De que estão tão no jogo como o vencedor de celular à frente Dele. Seus olhos ganham o mapa das estações. A voz morta do operador, balbucia o nome de seu destino. Ele salta. Sendo levado pela onda humana. Poucos se importam com suas dores. As dores nevrálgicas, as dores do espírito.
Suas pernas mesmo tendo saltado a pouco da cama, estão cansadas e indispostas. De agência em agência, Ele perambula. O tempo passa, escorregando moroso de mãos dadas a fome que vem e vai pelo corpo Dele. Filas, senhas, apresentações e sorrisos sem graça.Um tipo de anestesia o invade. Sente-se como uma barata ao ver os sorrisos amarelos, a repetição da ladainha das atendentes. Preencher fichas. Já decorou os números dos próprios documentos.Anexar o currículo. Tentar ser “simpático”. Falar sobre si a ouvidos que não tem interesse. Ele ouve a mesma pergunta “Qual sua maior qualidade, e qual seu maior defeito?”. Ainda que difícil esboça um riso ao ver o quanto todos são previsíveis. Nesses tempos aprendeu a camuflar-se. A não ser tão incisivo em opiniões. As psicólogas, as entrevistadoras são preparadas a selecionarem os mais servis, os humildes, os domesticados. Sem perceber elas viram a chama da autoestima e arrogância, que o destino não conseguiu apagar Nele.Arde qual chama, no fundo de Seus olhos. Sendo assim tornam-se elas, os verdugos da paciência, são elas a cada ficha preenchida, a cada teste aplicado e a cada entrevista mau ouvida que se incumbem de minar miligramas de esperança, fazendo que necessidade o obrigue a implorar pelos arreios da subserviência. Ele as odeia.Elas sempre estão entre Ele e a oportunidade.Ele odeia os necessitados, aqueles que disputam a vaga junto e querem socializar. Ou que não perdem a chance de dizer que estão velhos, sem dinheiro, com filhos para criar. Odeia aqueles que se macaqueiam em dinâmicas de grupo, que participam, que atuam, que se curvam, que choram, que se prostram. Ele sente que se odeia pois pouco a pouco parte dele escorre pela uretra rumo a privada, a cada dia que seu peso diminui em desespero, enquanto o próprio corpo se alimenta de si para continuar existindo. Quando ele se vê tão igual a essas almas desgraçadas e que de nada vale seu intelecto, seu dom de escrever, ou nada que tenha feito até aqui. O mundo é o mercado. Essa é banca das frutas semi-podres prestes a serem descartadas. Ele ainda assim pode ver os sorrisos dos avaliadores. Sádicos, senhores do mundo, com suas pranchetas, canetas. Com seus ternos. Quantos livros teriam lido na vida? Quantas vitórias reais eles tiveram? Quantas vezes saíram da linha? O que os torna tão especiais assim para serem os poderosos semi-deuses das câmaras de avaliação? Algo esta errado na ordem deste mundo.Onde esses homenzinhos de papel, sem bolas guiam destinos de pessoas que se obrigam ainda ter carne e osso, puderam se apropriar do poder?
No meio da tarde Ele fica sabendo pelo celular que foi aprovado. Não para preencher uma vaga, mas para uma próxima etapa de seleção. Estava sentado num parque, descansando de caminhadas, e ouvindo o recado esboçou um sorriso que só os que não tem nada podem abrir. Foi lhe dado um horário para estar. Estava próximo, nada ia fazer então resolveu rumar ao endereço. Olhou as arvores, viu os pássaros, pensou o quanto poderia ser um desses, ou qualquer outro animal fora deste mundo. Mas ele teimou em ser o macaco que desceu da árvore. Tudo isso a notar que como um simiesco Prometeu, a banana do conhecimento só lhe traria mais revolta. Que a academia é impregnada dos mesmos maneirismos, e salamaleques de qualquer relação hierarquizada.
Ele chega. Ao passar pela entrada do prédio um carro quase o atropela. Um rapaz de cabelos curtos, o olha sem falar nada de dentro do veículo. Lá dentro tudo transcorre conforme o esperado. Ele vê as feições de alegria de seus concorrentes. Tem um mau estar ao ser observado, em cada milímetro pelo corpo de seleção da empresa. Tenta afastar o pensamento, tapando o rombo de sua esperança com a seguinte frase: “amanhã posso estar empregado”.Uma das selecionadoras diz para que “quebrem o gelo” se cumprimentando, e se apresentando. A primeira atividade feita a demonstrar sua capacidade de socialização é,andarem pela sala a esmo, e bater bunda com bunda. A necessidade, o desprendimento da maioria faz que saltem como pererecas, em ebulição sem senso de ridículo. Nesse momento algo dentro Dele, saiba-se lá por conta da medicação o impede. Em sua mente algumas perguntas começam a brotar. “para que fazer tudo isso, por um salário de fome?”. Ele não se levanta. Não socializa. Outras pessoas da equipe de seleção o miram desconcertadas. Um ódio irascível começa a gestar dentro Dele. A etapa seguinte é apresentar-se e falar sobre as qualidades. Ele permanece calado. Um rapaz alto, de cabelos curtos, camisa e gravata, que até o momento mostrava se deliciando-se com o teatro trágico dos candidatos pede para que se levante, perguntando o por que não esta “colaborando” com as atividades. Nada ouve como resposta. No auge da raiva Ele reconhece o rosto que quase o atropelou ao entrar no prédio. Um silencio tétrico pousa na sala como se assentado sob as asas frias da morte. Toda equipe de seleção, acostumada a ter tudo sob seu controle, fica desnorteada, simplesmente por não ouvir uma resposta. Alguém pergunta se esta tudo bem. Ele treme. Transpira. Permanece sem esboçar nenhuma palavra. Os demais candidatos ficam curiosos, mas achando que faz parte da dinâmica. Ficam mais apreensivos esperando o próximo comando. De repente, sem que ninguém espere Ele levanta. Diz que quer ir. Pega sua pasta, e pede para sair da sala. A equipe desnorteada pede que permaneça. Ele insiste, não quer mais participar da seleção. “Se a seleção é este circo, que dirá o trabalho, é preferível passar fome a sujeitar-se a isso.” O rapaz alto se ofende e pragueja algo. Neste momento mesmo que ele gritasse não seria ouvido. A astral miserável dos dias, a fome, o tentar subjugar o senso, as crenças e a própria filosofia, se transmutam noutro elemento.Ódio. O rapaz alto diz algo como “dessa maneira você não conseguirá nada.”. É a senha para que a voz suba de tom, para quem um dedo fique em riste, desconcertando o jovem executivo e arrancando risos dos presentes.“A dinâmica não avalia ninguém, e mesmo que avaliasse estou acima da média.” São as ultimas palavras para o avaliador. Ao sair, deixa um silencio sepulcral entre todos. A mente gira. A revolta a raiva, e um sentimento consentindo consigo próprio que aceita a própria inveja queimam-no por dentro. Como ser avaliado por pessoas que não o conhecem, que não sabem o que passa e o que vive? Apanha sua carteira profissional na recepção e vai embora. Ao passar na calçada, vê o carro do avaliador estacionado. Deve valer pelo menos 10 anos de trabalho dele no valor de seu ultimo salário. O mundo o esnoba em posse esfregando na cara o que não pode ter. Sente suas glândulas lacrimais secas, como se fossem bolsões de areia. Ao lado, um grupo de pedreiros descarrega tijolos para levarem a uma construção próxima. A chance faz o ladrão, para que este roube sua vida de volta. Ao dar as costas e sumir na multidão da rua, o que ouve é o alarme disparado, gritando como uma bruxa numa fogueira medieval, e um tijolo jazendo junto a estilhaços no banco da frente.
A garganta, o estômago, e a nevralgia na face doem conjuntamente. Ele sai desnorteado, uma parte desafogada liberta e sentindo-se aliviada por respirar um ar não viciado como o da sala, a outra amedrontada por desperdiçar mais uma chance de trabalho. Sua mente roda e seu corpo parece estar tomado por um padecimento vivo, como se a qualquer momento partes dele começassem a desprender-se de sua estrutura corpórea. Nas ruas vê o desalento, parece que enxerga por lentes de aumento, parece que começa a integrar a massa física do horror quotidiano. Ele volta ao parque, senta-se num banco e, vê um mendigo e seu cão, um vira latas preto e saltitante que brinca com as crianças. O homem de longa e suja barba, tem um olhar sereno e contemplativo, um olhar que deveria ser o mesmo que têm os santos, pensa Ele. Nota que o indigente carrega uma porção de pedaços de papelão com frases sem sentido rabiscadas. O desespero toma conta Dele, como se num conto de Dickens visse a si próprio no futuro. Um farrapo do que é hoje. O mendigo e seu cão estão fechados em seu mundo, passam por ele como se não existisse. Como se fosse tão paisagem quanto o hidrante, a grama e os bancos á sua volta. E essa não existência o iguala a toda humanidade no mesmo passo que o exacerba em medo.
Olha para as estantes do quarto. Os mestres o observam, em suas faces quadradas, amarelas e empoeiradas, ele vê seus nomes. Como professores que lhe ajudaram a delinear o gosto, como guias em entroncamentos estranhos da imaginação. Como a professorinha distante, que segurava a sua mão no desenhar a primeira letra, a primeira silaba. Ele se põe a pensar o quanto às criações de cada um contam suas historias de dor, vitória, tristeza. Uns mais que outros é claro. Mas como cada homem por sobre este planeta é um pequena bolinha de gude empurrada pelas mãos infantis e sádicas de Deus rumo ao desconhecido. Porém, nem todos se despem em suas almas. Essas palavras ali escritas contem vísceras de sentimentos e cadáveres de emoções, cravado no tórax de cada gentio que como Ele, ainda sensível, não se deixou derrubar pelo mundo.Ele precisa se levantar.Mas não precisa.Não há lugar para ir. Não á responsabilidades a serem cumpridas.Existe a sobrevivência. O dinheiro inexistente, a comida que acaba.Seu mundo ,roubado, suas conquistas cada dia menosprezadas. Fim de contrato, de ano, de promessas. A noite anterior esta em suas escoriações na mente. No filete fluido e escarlate com cheiro de ferrugem, que escorre de seu flanco e mancha o velho lençol. Assinado nos círculos coagulados em roxos por toda parte de seu corpo. Em inchaços que revestem seus ossos quebrados. Pensa. O pulmão pode estar perfurado, a respiração esta dolorida.
Ve o teto, em descontinuidades mentais, nacos temporais giram sem conexão. “É o remédio” pensa. O princípio, pois tudo começa de algum ponto, se deu horas antes,tantas que não saberia precisar. A tragicomédia do levantar-se na busca e esfacelar-se de cara no chão, por não encontrar ou por ter o queixo arrogante em riste.A noite veio depois do dia. Começou numa tarde que dera lugar a um arrastar longo e moroso de horas. Estivera em vários escritórios no começo do girar do relógio. Antes de sair de casa conferia os bolsos, o dinheiro cada vez mais escasso. Comera pouco no jantar, sabia que a fome viria como de costume, sendo assim fosse boa companhia. Não era mais incômodo, pois já era hábito. Tomou um café preto e amargo. O açúcar acabara, não tinha pão. Uma batida rápida de olho no armário e geladeira, desvelou o nada aos olhos. Seria bom se pudesse se alimentar de rancor e de pedaços de gelo. Muito pouco restara da compra do mês. Ele não tinha mais dinheiro, que não fosse o do bolso. Sempre parecia um esforço de “secar o gelo”, ou de construir um castelo de areia rente ao quebrar de ondas da praia, tudo sempre desmorona, se desfaz,acaba, mudando ou não para outra coisa. Quando se mora com os pais, parece que tudo se organiza em passe de mágica, e a necessidade de reposição do que acaba na economia domestica em solidão, torna-se doloroso como deixar as comodidades do ninho materno.
Ao ganhar a rua sentiu a brisa fria no rosto. Tinha alguma nevralgia no rosto, já esperava o incomodo com a mudança das estações, o vento fez doer-lhe a face. Pensou em ir ao médico, mas não tinha convênio. O único que cuidava de si era o próprio. O que restava era contornar a dor com alguns analgésicos que levava no bolso. Tinha enormes filas de atendimento para enfrentar. Metrô, entrevistas, caminhadas, agências. Torcendo para que não chovesse. Hoje não era dia para os abatedouros públicos da carne. Era dia para os abatedouros morais. Para ser esmagado e desossado como um suculento bife, por entrevistadoras, em dinâmicas e testes de paciência e níveis variados de imbecilidade, que não descobriam um fiapo de sua alma. Ou de sua inteligência. Ou de seu caráter. Carregava uma pasta com copias de seu currículo. Sentia o cheiro do próprio corpo, havia tomado banho, feito a barba, para ficar mais “apresentável”, como tantos o recomendaram. O dia estava nublado e vestia um velho blazer de algodão, camisa de botão,calça, sapatos que apertavam seus dedos, isso pouco importa pois é preciso saber vender-se. Vender a imagem. Vender o discurso.Vender-se. Prostituir-se sorrindo. Sorrir para ser roubado, enrabado, e destratado sob o açoite sorridente de seu patrão. Submisso ao senhor-dono pelo capital.Capital que traz satisfação, dinheiro, comodidade e sobrevivência. Nas narinas,o odor próprio lhe trazia a mente mais que higiene, pois era necessário purificar-se, buscar uma limpeza interna mesmo que a água não passasse da derme. Era reconfortante sair da cama,ir ao banheiro, sob o chuveiro. Enquanto havia energia para aquece-lo. Uma massagem leve, parecia aos poucos por no lugar todos os nervos tencionados, e acalentar células que perderam a necessidade de sono.
Antes de entrar no metrô, vê as enormes filas. As feições são de ovinos, suínos, caprinos, eqüinos que passam rolando as catracas, acotovelando-se, empurrando-se correndo ao comboio metálico que toca a sinal para o fechamento das portas.Juntos como em baias, aguardando com olhos vazios, a sineta do abate. Repetida, cacôfonica ad infinitum. O movimento dessa orquestra do bizarro é mecânico, em sons metálicos, guinchos e tosses humanas. Tão animal que impossível não perceber a ereção de alguns machos descontrolados dentro de suas calças ao encontrar nádegas de fêmeas ou de outros machos no espremer dos corpos dentro dos vagões.Ele sente-se enojado, mas não tem forças para importar-se, ninguém se importa.O trem ganha os túneis subterrâneos, e Ele se vê na luz fosca em reflexo da janela, tão espremido como todos.Igual entre os diferentes, e a apatia é o que mais o incomoda. O ar abafado que passou viciado por todos os pulmões dali, o hálito de alguém próximo embrulha seu estômago. Ele toma outros comprimidos alem do analgésico que trouxe. Quem sabe alivie a mente. E afaste do imediato, as leituras de anos passados.Cada vez mais a renuncia contamina seu cérebro. Ele quer sedar parte de si. Ele não mais quer o duelo morrer-matar-viver, quer conformação resignada. Tal qual o cérebro suicida que vence a mão trêmula. Que vence sua parcela que quer vida, Ele almeja sobrepujar a si mesmo. Para que mergulhe seus olhos em normalidade, que rebaixe Seu intelecto a ver o mundo sem complexidades, com a tranqüilidade e a realidade de uma novela, que a crítica se engavete num punhado liquido, pegajoso de células moribundas num canto de interno da cabeça.Pensar dói.Traz a dor. É preciso esquecer as teses, as revoluções, não se pensa em transformações radicais em fome e doença. Ou melhor se pensa, apenas não as FAZ. Do mesmo modo que tem de haver o terreno propicio a eclosão, unicamente uma mente e um coração nada podem fazer na aridez da apatia. A Sua frente o vitorioso esta feliz com um celular de câmera embutida e mp3 player. Perfumado por Hugo Boss e regrado na mordaça temporal de uma linda e brilhante réplica de Rolex. Felicidade. Que Ele não sabe mais definir. Escapando como o dragão que desperta do abismo depois do sono de milanos para trazer a discórdia, as palavras de La Farge evocam o ócio. Elas giram em Sua mente, emergindo do negrume revoltado, dançando nos átomos perdidos de sua indignação. Em Seu intimo Ele sabe e almeja o ócio. A Criatividade grita. E uma faísca descontrolada de suas sinapses que não se deixam acorrentar, liga como um interruptor de luz em circuito, um pensamento de que ninguém mais merece o ócio. De que Ele ali espremido como todos, pode legislar em Seu silêncio de que ninguém merece a tortamente compreendida, corrompida e difamada liberdade. Ninguém se permite, pois a tratam como uma prostituta de baixo preço. O cristianismo conseguiu. O socialismo conseguiu.O liberalismo conseguiu, o capitalismo conseguiu, junto de calvinistas, judeus, marxistas loucos que colocam o tripalium no lombo de todo proletariado. Esse é o terceiro punhado de terra sobre o caixão saído do velório do espírito de revoltosos e homens bombas em jihad, jogado pela a crítica, sete palmos bem frios e mortos abaixo da terra. Pois o Krisis tem suas polpudas bolsas para estudar e fazer crítica ao trabalho sem ter que acordar às 5 horas da manhã. Eles têm seu quinhão europeu sob a égide da Mater Acadêmica ou do seguro desemprego vitalício em euro. De que estão tão no jogo como o vencedor de celular à frente Dele. Seus olhos ganham o mapa das estações. A voz morta do operador, balbucia o nome de seu destino. Ele salta. Sendo levado pela onda humana. Poucos se importam com suas dores. As dores nevrálgicas, as dores do espírito.
Suas pernas mesmo tendo saltado a pouco da cama, estão cansadas e indispostas. De agência em agência, Ele perambula. O tempo passa, escorregando moroso de mãos dadas a fome que vem e vai pelo corpo Dele. Filas, senhas, apresentações e sorrisos sem graça.Um tipo de anestesia o invade. Sente-se como uma barata ao ver os sorrisos amarelos, a repetição da ladainha das atendentes. Preencher fichas. Já decorou os números dos próprios documentos.Anexar o currículo. Tentar ser “simpático”. Falar sobre si a ouvidos que não tem interesse. Ele ouve a mesma pergunta “Qual sua maior qualidade, e qual seu maior defeito?”. Ainda que difícil esboça um riso ao ver o quanto todos são previsíveis. Nesses tempos aprendeu a camuflar-se. A não ser tão incisivo em opiniões. As psicólogas, as entrevistadoras são preparadas a selecionarem os mais servis, os humildes, os domesticados. Sem perceber elas viram a chama da autoestima e arrogância, que o destino não conseguiu apagar Nele.Arde qual chama, no fundo de Seus olhos. Sendo assim tornam-se elas, os verdugos da paciência, são elas a cada ficha preenchida, a cada teste aplicado e a cada entrevista mau ouvida que se incumbem de minar miligramas de esperança, fazendo que necessidade o obrigue a implorar pelos arreios da subserviência. Ele as odeia.Elas sempre estão entre Ele e a oportunidade.Ele odeia os necessitados, aqueles que disputam a vaga junto e querem socializar. Ou que não perdem a chance de dizer que estão velhos, sem dinheiro, com filhos para criar. Odeia aqueles que se macaqueiam em dinâmicas de grupo, que participam, que atuam, que se curvam, que choram, que se prostram. Ele sente que se odeia pois pouco a pouco parte dele escorre pela uretra rumo a privada, a cada dia que seu peso diminui em desespero, enquanto o próprio corpo se alimenta de si para continuar existindo. Quando ele se vê tão igual a essas almas desgraçadas e que de nada vale seu intelecto, seu dom de escrever, ou nada que tenha feito até aqui. O mundo é o mercado. Essa é banca das frutas semi-podres prestes a serem descartadas. Ele ainda assim pode ver os sorrisos dos avaliadores. Sádicos, senhores do mundo, com suas pranchetas, canetas. Com seus ternos. Quantos livros teriam lido na vida? Quantas vitórias reais eles tiveram? Quantas vezes saíram da linha? O que os torna tão especiais assim para serem os poderosos semi-deuses das câmaras de avaliação? Algo esta errado na ordem deste mundo.Onde esses homenzinhos de papel, sem bolas guiam destinos de pessoas que se obrigam ainda ter carne e osso, puderam se apropriar do poder?
No meio da tarde Ele fica sabendo pelo celular que foi aprovado. Não para preencher uma vaga, mas para uma próxima etapa de seleção. Estava sentado num parque, descansando de caminhadas, e ouvindo o recado esboçou um sorriso que só os que não tem nada podem abrir. Foi lhe dado um horário para estar. Estava próximo, nada ia fazer então resolveu rumar ao endereço. Olhou as arvores, viu os pássaros, pensou o quanto poderia ser um desses, ou qualquer outro animal fora deste mundo. Mas ele teimou em ser o macaco que desceu da árvore. Tudo isso a notar que como um simiesco Prometeu, a banana do conhecimento só lhe traria mais revolta. Que a academia é impregnada dos mesmos maneirismos, e salamaleques de qualquer relação hierarquizada.
Ele chega. Ao passar pela entrada do prédio um carro quase o atropela. Um rapaz de cabelos curtos, o olha sem falar nada de dentro do veículo. Lá dentro tudo transcorre conforme o esperado. Ele vê as feições de alegria de seus concorrentes. Tem um mau estar ao ser observado, em cada milímetro pelo corpo de seleção da empresa. Tenta afastar o pensamento, tapando o rombo de sua esperança com a seguinte frase: “amanhã posso estar empregado”.Uma das selecionadoras diz para que “quebrem o gelo” se cumprimentando, e se apresentando. A primeira atividade feita a demonstrar sua capacidade de socialização é,andarem pela sala a esmo, e bater bunda com bunda. A necessidade, o desprendimento da maioria faz que saltem como pererecas, em ebulição sem senso de ridículo. Nesse momento algo dentro Dele, saiba-se lá por conta da medicação o impede. Em sua mente algumas perguntas começam a brotar. “para que fazer tudo isso, por um salário de fome?”. Ele não se levanta. Não socializa. Outras pessoas da equipe de seleção o miram desconcertadas. Um ódio irascível começa a gestar dentro Dele. A etapa seguinte é apresentar-se e falar sobre as qualidades. Ele permanece calado. Um rapaz alto, de cabelos curtos, camisa e gravata, que até o momento mostrava se deliciando-se com o teatro trágico dos candidatos pede para que se levante, perguntando o por que não esta “colaborando” com as atividades. Nada ouve como resposta. No auge da raiva Ele reconhece o rosto que quase o atropelou ao entrar no prédio. Um silencio tétrico pousa na sala como se assentado sob as asas frias da morte. Toda equipe de seleção, acostumada a ter tudo sob seu controle, fica desnorteada, simplesmente por não ouvir uma resposta. Alguém pergunta se esta tudo bem. Ele treme. Transpira. Permanece sem esboçar nenhuma palavra. Os demais candidatos ficam curiosos, mas achando que faz parte da dinâmica. Ficam mais apreensivos esperando o próximo comando. De repente, sem que ninguém espere Ele levanta. Diz que quer ir. Pega sua pasta, e pede para sair da sala. A equipe desnorteada pede que permaneça. Ele insiste, não quer mais participar da seleção. “Se a seleção é este circo, que dirá o trabalho, é preferível passar fome a sujeitar-se a isso.” O rapaz alto se ofende e pragueja algo. Neste momento mesmo que ele gritasse não seria ouvido. A astral miserável dos dias, a fome, o tentar subjugar o senso, as crenças e a própria filosofia, se transmutam noutro elemento.Ódio. O rapaz alto diz algo como “dessa maneira você não conseguirá nada.”. É a senha para que a voz suba de tom, para quem um dedo fique em riste, desconcertando o jovem executivo e arrancando risos dos presentes.“A dinâmica não avalia ninguém, e mesmo que avaliasse estou acima da média.” São as ultimas palavras para o avaliador. Ao sair, deixa um silencio sepulcral entre todos. A mente gira. A revolta a raiva, e um sentimento consentindo consigo próprio que aceita a própria inveja queimam-no por dentro. Como ser avaliado por pessoas que não o conhecem, que não sabem o que passa e o que vive? Apanha sua carteira profissional na recepção e vai embora. Ao passar na calçada, vê o carro do avaliador estacionado. Deve valer pelo menos 10 anos de trabalho dele no valor de seu ultimo salário. O mundo o esnoba em posse esfregando na cara o que não pode ter. Sente suas glândulas lacrimais secas, como se fossem bolsões de areia. Ao lado, um grupo de pedreiros descarrega tijolos para levarem a uma construção próxima. A chance faz o ladrão, para que este roube sua vida de volta. Ao dar as costas e sumir na multidão da rua, o que ouve é o alarme disparado, gritando como uma bruxa numa fogueira medieval, e um tijolo jazendo junto a estilhaços no banco da frente.
A garganta, o estômago, e a nevralgia na face doem conjuntamente. Ele sai desnorteado, uma parte desafogada liberta e sentindo-se aliviada por respirar um ar não viciado como o da sala, a outra amedrontada por desperdiçar mais uma chance de trabalho. Sua mente roda e seu corpo parece estar tomado por um padecimento vivo, como se a qualquer momento partes dele começassem a desprender-se de sua estrutura corpórea. Nas ruas vê o desalento, parece que enxerga por lentes de aumento, parece que começa a integrar a massa física do horror quotidiano. Ele volta ao parque, senta-se num banco e, vê um mendigo e seu cão, um vira latas preto e saltitante que brinca com as crianças. O homem de longa e suja barba, tem um olhar sereno e contemplativo, um olhar que deveria ser o mesmo que têm os santos, pensa Ele. Nota que o indigente carrega uma porção de pedaços de papelão com frases sem sentido rabiscadas. O desespero toma conta Dele, como se num conto de Dickens visse a si próprio no futuro. Um farrapo do que é hoje. O mendigo e seu cão estão fechados em seu mundo, passam por ele como se não existisse. Como se fosse tão paisagem quanto o hidrante, a grama e os bancos á sua volta. E essa não existência o iguala a toda humanidade no mesmo passo que o exacerba em medo.
Decide caminhar até o hospital público. Na fila, desvalidos de toda sorte. Ouve as lamúrias e percebe que sua dor não é tão grande. Mas ele precisa de um endosso a química oficilizada. Muito mais que ver um medico que não o toque e já o recomende remédios, ele precisa de um salvo conduto entre a química que o anima nas doses que precisa em falta total de dinheiro. A receita é entregue. Ele passa no setor indicado e um funcionário com aparência de estar mofado, por viver séculos como um quasímodo no subsolo da velha clinica, o entrega o pacote. Sem esperar ele abre e toma muitos comprimidos, coloridos, no bebedouro do corredor. Uma sensação de bem-estar e formigamento estomacal o aliviam.
Perambula. Não se lembra mais das horas e nem o porque ir onde esta indo. Ele vê os discos e os livros que gosta em vitrines, e parece que mesmo sendo de vidro elas o repelem, o excluem da posse. Parece que depois de tudo neste dia, sua sensibilidade fica aguçada para perceber as misérias do mundo. A cabeça dói sem saber afirmar se pelos remédios ou pela fome. O mundo do consumo se entranhou na vida das pessoas e aqueles que não se conformam com isso, ou se adaptam ou morrem. Em suas considerações não saberia nos dizer se ainda está vivo. A noite cai aos poucos. Quando chega a porta do apartamento, um aviso do senhorio está anexado a sua porta. Ele tenta entrar mas a fechadura foi trocada. Repassa mentalmente as etapas. Sem trabalho. Sem dinheiro. Sem comida. Sem telefone. Sem casa. Uma carta de despejo. Uma onda de raiva e frustração faz sua mente girar, Ele desce até a rua. Vaga a esmo. A noite vem em completude, ouve os risos dos que voltam aos lares. Sente o cheiro de comida descendo por janelas, flutuando por calçadas. Poderia ir à casa dos pais, tomar um bom banho e comer boa comida, mas o orgulho exacerbado e indomado guia seus dias desde o fim da adolescência, eles não sabiam da situação, não era agora que falaria. Quando chega numa praça mais calma, deita-se no gramado. Com a noite o vento resolve mexer-se, baixando mais ainda a temperatura. Ele ergue a gola do blazer apoiando a cabeça na pasta como se esta fosse um travesseiro. Pouco importa os que o olham. O celular toca. Ele reconhece uma voz feminina que não ouve a mais de um ano. Ele não ouve palavras. Ouve hesitação, preocupação, uma oferta de ajuda “apesar dos pesares”,Ele retribui com o fim não avisado da ligação. Irritado bate o aparelho partindo o visor contra o chão. Pouco depois, por pura exaustão desmaia, acorda com o cutucar de um guarda com o cassetete nas suas costas. Nas palavras do próprio “Aqui não é dormitório pra vagabundo”. Já era tarde da noite. Sentia o corpo frio. Por instinto seu corpo pede sua casa. Mesmo que ela não fosse mais Dele.
Ele adentra o prédio, subindo silenciosamente as escadas. Por sorte a espelunca não tem porteiro, e o senhorio também não mora ali. O que teria a fazer era arrombar a porta, comer algo, tomar um banho e dormir um pouco.E assim esperar o novo dia. A ligação, a voz feminina, estão na sua mente, irritando-o mais ainda. Ele sente vontade de destruir algo, de deixar-se romper por dentro colocando todas as tripas e demônios voarem por todas as direções, abandonando este reles simulacro de vida. Seus pensamentos não tem mais fluxo, como numa panela de pressão tudo fervilha e corre desgovernado dentro dele. Ele tenta forçar a fechadura. Além dela, uma corrente e um cadeado impedem a entrada. “Entrar em sua própria casa não é invasão, amanha vou me embora, a algum lugar ninguém saberá que passei.”. Tenta forçar a porta de inúmeras maneiras. Não consegue. Esta ofegante e a possibilidade de comer o resto de qualquer coisa dentro de seu ex-lar o deixa mais afoito. “Alguém pode ouvir”. Ele precisa forçar a entrada. Decide descer a rua, pegar algo que possa arrancar o cadeado e a corrente. Uma vez feito isso, jogaria todo corpo na porta e a arrombaria, se alguém ouvisse, “dane-se”. Deixa o blazer, a esta altura amassado, e a pasta junto a porta. Desce as escadas. Anda no entorno do quarteirão. Numa caçamba de entulho encontra uma barra de metal. Caminha quase se arrastando pela rua. Sua visão esta turva. Tão prejudicada por tudo, que não reconhece o carro de vidro estilhaçado na calçada em frente ao prédio, e um homem jovem com olhar furioso. Tão pouco, percebe o estalido eletrônico da porta automotiva se abrindo. Para dar conta das sensações auditivas nessa narração, basta dizer que os três sons que se ouvem correspondem á locução de Seu nome em voz alta, o baque seco de um soco esmagando seu nariz á curta distância, e o tilintar pesado da barra de metal vibrando contra a calçada. Tudo é muito rápido. O avaliador enfurecido o xinga, busca todos os palavrões necessários a descarregar a raiva. É sem duvida muito veloz, e tem algum conhecimento de defesa pessoal, socos precisos, guarda ligeira. Certeiro e furioso como uma maquina descalibrada. Incansável. “Não achou que ia ficar assim, não é? Muita burrice a sua fazer isso em local publico cheio de testemunhas, com o próprio endereço no currículo e ficha de cadastro”.Ninguém passa na rua. Pela hora, pela lição moral que a vida reserva a cada um. E assim prossegue, ataques no baço, costelas, queixo, olhos, temporas, nuca. O som dessa cena é apenas dos golpes, e das frases esbravejadas. Da outra boca ensangüentada e despojada de uns dentes nada se ouve. Dentro deste, do que é surrado, vários golpes são dados em sua autoestima, porem por algum motivo não sente. Nem dor, nem remorso, nada. Ele então começa a rir. Filetes de sangue, na boca, no nariz, e ouvido. O avaliador não compreende, mas exercita alem dos punhos, o intelecto buscando adjetivos, para alem de ofender a progenitora alheia (que acorda de um sono conturbado noutro canto da cidade). “Fracassado”. “Perdedor”. “Velho”.“Te daríamos uma chance, mas você é orgulhoso e bom demais para se sujeitar”. Ele se arrasta depois de cair ao ultimo golpe. Encosta-se a parede, com um sorriso alucinado nos lábios. Sabe que internamente esta todo arrebentado, mas até ai já estava assim antes da surra. Fala para o avaliador “Carros muito bons são para homens de pinto pequeno”. Em fúria o homem jovem o chuta, encontrando não a costela já fraturada, mas a barra de aço que lhe atinge a lateral do joelho. Apoiada entre o braço, o corpo em frangalhos e a parede, esta mais firme e agressiva que qualquer um possa imaginar O avaliador grita e tomba na calçada, recebe mais duas cacetadas nas costelas, para se calar. Contorcido em dor no frio do tempo e da calçada. Ninguém aparece. Muitos ao redor ouviram, mas preferiram cuidar de suas vidas, sem ao menos se dar ao trabalho de olhar as janelas.
Perambula. Não se lembra mais das horas e nem o porque ir onde esta indo. Ele vê os discos e os livros que gosta em vitrines, e parece que mesmo sendo de vidro elas o repelem, o excluem da posse. Parece que depois de tudo neste dia, sua sensibilidade fica aguçada para perceber as misérias do mundo. A cabeça dói sem saber afirmar se pelos remédios ou pela fome. O mundo do consumo se entranhou na vida das pessoas e aqueles que não se conformam com isso, ou se adaptam ou morrem. Em suas considerações não saberia nos dizer se ainda está vivo. A noite cai aos poucos. Quando chega a porta do apartamento, um aviso do senhorio está anexado a sua porta. Ele tenta entrar mas a fechadura foi trocada. Repassa mentalmente as etapas. Sem trabalho. Sem dinheiro. Sem comida. Sem telefone. Sem casa. Uma carta de despejo. Uma onda de raiva e frustração faz sua mente girar, Ele desce até a rua. Vaga a esmo. A noite vem em completude, ouve os risos dos que voltam aos lares. Sente o cheiro de comida descendo por janelas, flutuando por calçadas. Poderia ir à casa dos pais, tomar um bom banho e comer boa comida, mas o orgulho exacerbado e indomado guia seus dias desde o fim da adolescência, eles não sabiam da situação, não era agora que falaria. Quando chega numa praça mais calma, deita-se no gramado. Com a noite o vento resolve mexer-se, baixando mais ainda a temperatura. Ele ergue a gola do blazer apoiando a cabeça na pasta como se esta fosse um travesseiro. Pouco importa os que o olham. O celular toca. Ele reconhece uma voz feminina que não ouve a mais de um ano. Ele não ouve palavras. Ouve hesitação, preocupação, uma oferta de ajuda “apesar dos pesares”,Ele retribui com o fim não avisado da ligação. Irritado bate o aparelho partindo o visor contra o chão. Pouco depois, por pura exaustão desmaia, acorda com o cutucar de um guarda com o cassetete nas suas costas. Nas palavras do próprio “Aqui não é dormitório pra vagabundo”. Já era tarde da noite. Sentia o corpo frio. Por instinto seu corpo pede sua casa. Mesmo que ela não fosse mais Dele.
Ele adentra o prédio, subindo silenciosamente as escadas. Por sorte a espelunca não tem porteiro, e o senhorio também não mora ali. O que teria a fazer era arrombar a porta, comer algo, tomar um banho e dormir um pouco.E assim esperar o novo dia. A ligação, a voz feminina, estão na sua mente, irritando-o mais ainda. Ele sente vontade de destruir algo, de deixar-se romper por dentro colocando todas as tripas e demônios voarem por todas as direções, abandonando este reles simulacro de vida. Seus pensamentos não tem mais fluxo, como numa panela de pressão tudo fervilha e corre desgovernado dentro dele. Ele tenta forçar a fechadura. Além dela, uma corrente e um cadeado impedem a entrada. “Entrar em sua própria casa não é invasão, amanha vou me embora, a algum lugar ninguém saberá que passei.”. Tenta forçar a porta de inúmeras maneiras. Não consegue. Esta ofegante e a possibilidade de comer o resto de qualquer coisa dentro de seu ex-lar o deixa mais afoito. “Alguém pode ouvir”. Ele precisa forçar a entrada. Decide descer a rua, pegar algo que possa arrancar o cadeado e a corrente. Uma vez feito isso, jogaria todo corpo na porta e a arrombaria, se alguém ouvisse, “dane-se”. Deixa o blazer, a esta altura amassado, e a pasta junto a porta. Desce as escadas. Anda no entorno do quarteirão. Numa caçamba de entulho encontra uma barra de metal. Caminha quase se arrastando pela rua. Sua visão esta turva. Tão prejudicada por tudo, que não reconhece o carro de vidro estilhaçado na calçada em frente ao prédio, e um homem jovem com olhar furioso. Tão pouco, percebe o estalido eletrônico da porta automotiva se abrindo. Para dar conta das sensações auditivas nessa narração, basta dizer que os três sons que se ouvem correspondem á locução de Seu nome em voz alta, o baque seco de um soco esmagando seu nariz á curta distância, e o tilintar pesado da barra de metal vibrando contra a calçada. Tudo é muito rápido. O avaliador enfurecido o xinga, busca todos os palavrões necessários a descarregar a raiva. É sem duvida muito veloz, e tem algum conhecimento de defesa pessoal, socos precisos, guarda ligeira. Certeiro e furioso como uma maquina descalibrada. Incansável. “Não achou que ia ficar assim, não é? Muita burrice a sua fazer isso em local publico cheio de testemunhas, com o próprio endereço no currículo e ficha de cadastro”.Ninguém passa na rua. Pela hora, pela lição moral que a vida reserva a cada um. E assim prossegue, ataques no baço, costelas, queixo, olhos, temporas, nuca. O som dessa cena é apenas dos golpes, e das frases esbravejadas. Da outra boca ensangüentada e despojada de uns dentes nada se ouve. Dentro deste, do que é surrado, vários golpes são dados em sua autoestima, porem por algum motivo não sente. Nem dor, nem remorso, nada. Ele então começa a rir. Filetes de sangue, na boca, no nariz, e ouvido. O avaliador não compreende, mas exercita alem dos punhos, o intelecto buscando adjetivos, para alem de ofender a progenitora alheia (que acorda de um sono conturbado noutro canto da cidade). “Fracassado”. “Perdedor”. “Velho”.“Te daríamos uma chance, mas você é orgulhoso e bom demais para se sujeitar”. Ele se arrasta depois de cair ao ultimo golpe. Encosta-se a parede, com um sorriso alucinado nos lábios. Sabe que internamente esta todo arrebentado, mas até ai já estava assim antes da surra. Fala para o avaliador “Carros muito bons são para homens de pinto pequeno”. Em fúria o homem jovem o chuta, encontrando não a costela já fraturada, mas a barra de aço que lhe atinge a lateral do joelho. Apoiada entre o braço, o corpo em frangalhos e a parede, esta mais firme e agressiva que qualquer um possa imaginar O avaliador grita e tomba na calçada, recebe mais duas cacetadas nas costelas, para se calar. Contorcido em dor no frio do tempo e da calçada. Ninguém aparece. Muitos ao redor ouviram, mas preferiram cuidar de suas vidas, sem ao menos se dar ao trabalho de olhar as janelas.
A barra de aço é carregada, na verdade, arrastada, tilintando, fazendo uma melodia disforme com os degraus da escada, que segue com todo o corpo destruído acima. Tudo que um homem pode querer depois de um dia carregado e cheio de stresses é seu repouso. Ele vence o ultimo degrau, enfia a barra entre o cadeado e a corrente. Dá a distancia de 2 passos, corre de ombro com a porta. Todos os ferimentos e hematomas explodem em dor.Assim como parte do batente e do trinco. Prédios velhos são criadouros de toda sorte de praga, bêbados, ratos, pervertidos, baratas, pombos, viciados, aqui os cupins mostram a humanidade dos animais trabalhadores, ao ajudarem a porta ceder. Ele ao menos, pega o blazer e a pasta na porta, trôpego entra, olha tudo ao redor, seu mundo, nada que valha de fato a pena. Com a barra em mãos destrói móveis, espelhos, erguendo depois uma cadeira a altura da cabeça explodindo-a contra a parede. Arranca fotos e quadros da parede, espatifa a cama, fazendo o colchão jazer no chão tomba de joelhos e ri, com lágrimas nos olhos. Um riso frouxo, abobalhado e banguela. Seria sua expiação máxima, um tipo de epifania que só o mais espezinhado pode ter. A beleza do mundo se fez aos cacos, no nada ter. No aceitar, o ódio, a raiva, o rancor, o medo, a dor, o fracasso, o fel, a infecção, a doença, a morte e a derrota. Na percepção que é humano, nesses cacos estilhaçados do quarto, como também no espírito apodrecido. Descendo ao inferno se fez humano. Fez-se ladrão ao roubar a vida de volta. De dar o troco, ir a forra. Ele sente os dentes frouxos na boca, seus olhos inchados. Sente o frio da barra de aço entrando em sua costela. Por sobre ombro, já tombando, vê o vulto do avaliador que conseguiu sua desforra, correndo manco através da porta, sumindo na escuridão da escadaria. Ele conseguiu. Tomba ao chão, depois se arrasta para cima do colchão ao lado. Ele olha o teto, o quarto. Pensa em horas e no sono que logo vai chegar. O celular toca com o visor quebrado sem emitir som. O pressentimento materno sempre é certeiro, ela tenta falar com o filho. Seu pensamento viaja, a luz no teto nunca tinha se mostrado tão bela. Ele pensa. Mesmo tudo escurecendo, sua mente não pára nunca.
Comments
beijo em você!
engraçado é q enquanto eu o lia, uma colega de trabalho falava c/ a supervisora aqui ao meu lado: "o trabalho dignifica o homem". hahaha
há tempos que esse tipo de trabalho não traz mais dignidade alguma, e o que me irrita são essas pessoas que insistem em fingir que gostam de dormir mal, pegar buzão lotado e gastar mais de um terço do dia p/ receber ordens de chefes incompetentes.
não tenho a coragem do personagem do texto, mas fingir gostar também é foda né! hehe
e lá vem o final de ano, c/ suas cretinas festas de confraternização!
parabéns pelo texto!