Olhara o relógio no topo da estação ferroviária. Os dedos das mãos, grossos e enrugados seguraram o aro externo da roda da cadeira, mesmo assim, enfiando-se entre os raios das rodas impulsionando a cadeira para adiante. Os músculos do braço acostumados ao trabalho de fazer o esforço que foram um dia das pernas, nem se apercebem da ação. Mesmo sendo parte de um corpo arruinado pelo tempo e desgaste, tudo funciona, em instinto como as máquinas velhas que nunca precisam de manutenção. A palma da mão seguindo o plano tão entranhado na mente também nem sentia a textura dos pneus, seguia o trabalho automático, repetido, pragmático. Quando ganhou embalo num pequeno declive da calçada, aproveitou para tirar o cabelos lisos e brancos do rosto. Esses vincos, rugas, feridas do tempo, encaixavam-se bem enquadrados na velha moldura do rosto. Olhos que á tudo percebiam, que tudo registravam no movimento das ruas. Parecia talhado na madeira, como carrancas ancestrais, só que sem o aspecto fabuloso, era humano apenas. Tão humano que desliza sobre o calçamento da rua, sem turbulências, gerando a ilusão de que o piso não é irregular. Sendo tão transeunte como os que ainda tem pernas, e como estes, tão paisagem, sem rosto e identidade.
Na mente do velho, o tempo. As badaladas do horário avisam da chegada de inúmeros pedestres, que por sua esperteza e percepção sabem que apesar de sonados pela manhã, não estão dopados de sua generosidade. Esse exército de braços e pernas que vinha dos confins da cidade monstro, espremiam-se por horas a fio, chacoalhando nos trens, num trajeto que só se alivia das quantidades extremas de lotação ao fim da linha. Os corpos que tentaram repousar durante a noite, nem sentem a reclamação das pernas e colunas, com o acotovelar-se de todos, muito menos quando pés são pisoteados dentro de calçados de baixa qualidade. Ali dentro da carcaça comprida de metal, aos poucos, muitos tentavam recuperar parte de um sono não completo. Uns poucos liam. Livros de auto-ajuda, de forte veio moralista de espíritos que sopram ao ouvido de seus médiuns lições de uma terra enevoada. Mensagens de mortos que choram os vivos invertendo a lógica de nossos loucos dias. Revistas de fofoca de vida que não se vive e se assiste. Outro se equilibra e usa caneta em palavras cruzadas. Outro tenta engolir a mensagem do livro de administração que mescla, Clausewitz, Maquiavel, Sun Tzu, Buda, Códigos Samurais, conceitos hindus, sem fazer nenhum sentido além da cooptação do esforço alheio, ali no texto chamado sutilmente de “força de trabalho”, “células produtoras” ou “ seus comandados”. Outros afundam-se em si próprios, com música no ouvido, vendo a paisagem imersa na escuridão da madrugada vestir-se no dourado e nos rosados tons da manhã. Muitos destes ainda que estivessem sob efeito de sono, não recusavam o pedido de um velho deficiente. Era difícil negar, os cabelos brancos no rosto, a barba, pareciam alerta-los da maldade que o tempo reserva a todos no fim da vida. Alguns se pegavam pensando nas pernas mortas substituídas por rodas, sob o cobertor, e mesmo que depois deixassem a imagem do velho ser sugada aos confins perdidos do subconsciente, caçavam nos bolsos, de carteiras e bolsas, algumas moedas. Sempre existiam alguns centavos a serem entregues ao velho que pedia, todos os dias no mesmo lugar. Existia sim quem reclamasse, quem o via como aproveitador o que dá um mínimo de verossimilhança nessa narrativa. Existem os que xingam de longe (e eram ignorados sumariamente por ele), ou que praguejavam ao vê-lo, os que amaldiçoam aos gritos sem emitir ondas de som e que noutros dias davam moedas ou simplesmente, encaixam essa figura junto a de outras personagens da cidade que eram, figurantes de outras tramas enrolados na existência de cada um e todos ao mesmo tempo. Tantas vidas que ali passam. Em mundos de drama e tragédia sem se dar conta do quanto entram nos dos outros, resvalando como bala que erra o alvo. O metal arredondado dourado ou prateado, amassado, riscado ou não, voava da mão dos passageiros apressados enfim, para os dedos rotos do velho, encontrando ninho no bolso do casaco esfarrapado.
Para quem lê e imagina essa situação é preciso ter um fundo aos personagens. O palco onde se instala o cenário é um bairro central. Outrora teve seus dias de brilho e hoje amarga a decadência. Parte da estação ferroviária, ainda mantêm seu desenho original, como parte de um projeto de recuperar a memória da cidade, e de não deixar que ela se devore por completo. Com essa reforma da edificação, parte do prédio abriga agora a orquestra sinfônica da cidade. Ali convive o luxo e o lixo, o trabalhador e o vadio. Sentindo como espíritos do passado que passam e deixam calafrios, a esperança e a descrença alternando-se aos segundos. Os casarões que no entorno abrigaram elites, hoje são cortiços de retirantes, solitários, famílias sem moradia fixa, mas dado o olhar do observador, podem ser canto para traficantes, prostitutas, migrantes e imigrantes (sobretudo ilegais) que se esbarram e não se cumprimentam ou dão bom dia e boa noite dado o nível de educação e boa vizinhança. Sempre existirá quem quer se ocultar no anonimato da maioria, que na similaridade das faces, nega sua individualidade para ter a paz perdida em algum passado de terras que ninguém saberá , ou se importará em saber.
Nosso velho ao contrário do que pode se pode imaginar não tem semblante de miséria. Os dias que cada dias são mais velozes, o ensinaram uma estranha expressão, a que pede e ainda exibe orgulho. Ele pede, não implora. Como se fosse um grande empréstimo. Afinal ali passavam a todo o momento uma miríade de conhecidos, de tantas vezes, as pessoas acabam por tomar feição. E seja pelo descaso que absorveu da vida, nada o intimida ou envergonha. No fundo não precisava disso. Uma aposentadoria o mantêm acima do limite da fome. Mas sua gana por dinheiro é mais feroz. O narrador então, se abstêm de julgamentos morais, a ele apenas cabem os fatos, para rebuscar aqui algo de forma interessante. Por outro lado, a postura austera do velho esconde uma ferocidade, uma voracidade quase insaciável, que foi exposto no tempo reservado a isso.
O da cadeira de rodas morava não num cortiço, mas num pequeno “hotel”. De grafia que aqui ganha aspas, pois o que ali entra e sai não são necessariamente hóspedes como chamaríamos em qualquer “hotel” comum. A rotatividade pela própria natureza das ações é maior, mais rápida e furtiva. Ali o espaço é do amor pago. Do prazer que caminha rebolativo sobre saltos altos e minissais vulgares, deixando pelos corredores o odor de cigarros e perfumes vagabundos. Habitava um quarto nos fundos, ao lado de um depósito de materiais. Era um cômodo sem banheiro demasiado pequeno, com lugar para guardar as mudas de roupas e alguns pertences que não se desapegara ainda, uma cama, e uma barra improvisada numa parede para que saltasse sem muitas dificuldades da cadeira de rodas para o repouso, completavam a decoração. Logo que chegou ali, teve que aprender a rotina, não pegava bem um “aleijado”, transitando pelos corredores. Aprendeu os horários para entrar e sair. Em algumas noites, largado na cama, ouvia os gemidos, os gritos e o gozo sonoro do impacto de corpos, o tesão que como ele entra e sai. Vícios de todos aqueles diluíam-se no caudaloso mar do sono profundo do velho ou no anonimato, de passos distanciando se no corredor e perdendo-se pelas ruas do mundo.
O passado quase sempre explica o futuro, diria o entusiasta da natureza humana, para quem segue essas linhas o velho tem o seu também. Há quem diga que foi um homem bruto, brigão de negociatas excusas. Numa conversa de boteco, alguém falou que ele perdeu suas pernas, pela dívida de sangue cobrada pela família de um infeliz, que cruzou o caminho do velho nesses tempos de brutalidade. A cadeia figurava também nessas narrativas, explicada por algumas tatuagens que poucos conheciam. Na língua de outro cronista do “achismo”, deveria ser um “bom vivant”, cafetão quem sabe...Que foi tragado pelo caminho da ruína, que vem como um atalho da estrada dos excessos projetado por si próprio. Fato real e que de fato interessa aqui, é que seu passado realmente era imerso em disputas, desregramentos, e luta de sobrevivência. Não precisa se dizer que foi cobrado dele junto dos excessos, porcentagens caras de sua alma, uma delas, as próprias pernas. Quanto a estadia sem fim no “hotel”, a resposta vinha muito simples, era amigo do dono. Ambos perderam tudo na vida. O dono do “hotel” talvez menos, mas eram guiados por um código de conduta que não era mais reconhecido por este mundo. Ambos bebiam muito e dormiam pouco, compartilhavam lembranças. Como o dono do “hotel” não tinha ninguém, e não podia pagar um funcionário de portaria, o velho ficava por ali vez por outra, recebendo dinheiro, entregando e recebendo as chaves após o uso dos quartos, fazendo gracejos com as “meninas”, como as chamava carinhosamente. Ainda conseguia, mesmo que muito à surdina, passar alguma substancia contraventora a quem procurasse, mas era muito pouco, a velhice ensina muito bem aos cães velhos que as presas caem amolecidas no fim do dia, e por isso, não se deve morder um pedaço de carne maior do que se possa engolir.
Seu plantão ali na estação durava todo o período da manhã. O velho acordava cedo, pois nunca dormia muito, do quarto rodava para ao banheiro. O amigo adaptara umas barras para que ele pudesse se lavar na banheira. Pequenos luxos (uma banheira em uma espelunca pensa quem vê a peça), mas em deficiência torna-se necessidade. Havia um espelho quadrado de bordas laranjas, preso a um prego para um eventual e raro barbear, servia mais para a conferência matutina de rugas e feridas. Trocado, montava sobre suas pernas rolantes e caia no mundo. Sempre e toda manhã na saída da estação, isso quando não chovia obviamente. Também permanecia ali e observava a passagem de um rapaz. Ambos se entreolhavam diariamente, sem nunca gastar uma saudação. Conheciam-se, o que não cabe a essa história. Era um jovem alto, cara de estudioso, trabalhava num museu próximo sabia o velho. Vez por outra passava em frente, brincava com os seguranças mas nunca falava com o rapaz. Aqui cabe o momento do segredo, basta dizer que o velho se via refletido no jovem e a isso já basta como explicação.
Depois da “coleta”, rolava por alguns bares. Tomava café, guardava moedas e trocados em bolsos separados. Uma cota para o prazer, outra para o amanhã. A segunda escorria dos dedos lentamente como areia de ampulheta, outra ganhava uma caixa escondida no fundo do quarto. O decorrer do dia deixava sua expressão amolecer. Aos poucos contornava a calçada do parque próximo, seus olhos esgueiravam-se entre as grades que de nada serviam ao redor. Ainda assim se admirava das fontes e grama aparada, e se pegava tentando entender a estranha composição que eram judeus, nordestinos, bolivianos, prostitutas gordas e precocemente envelhecidas, office-boys matando o tempo, vagabundos bêbados dormindo nos bancos, pombos e obras de arte em aço, chumbo e pedra que pululavam sob o céu azul cinzento. Cumprimentava desconhecidos, ignorava conhecidos, roubava conversas sobre pedrinhas de cascalho no caminho. A fome vinha. Pontual e britânica como o mecanismo no topo da estação. Comia uma “p.f.” num boteco onde todo tipo estranho ou normal dessa fauna também comeria ou simplesmente “bate-se o ponto”. Lá ficava até o anoitecer, ou até o amigo do “hotel” precisar de sua ajuda. Aos poucos, a bebida que no decorrer do dia ia absorvendo feito esponja ia surtindo efeito. Falava cada vez mais alto, ficava sociável, fazia piada. E isso como um cuco de relógio que não perde a hora, era feito quase em exatidão, quase no mesmo horário, considerando-se a licença poética de quem conta ou de quem esta tão bêbado quanto o distinto.
E sabe-se lá o que lhe deu o estalo. O boteco era quase uma segunda casa. Como tal se aprende onde esta tudo. Reconhece-se o pó que nunca é arrancado e nos saúda quando entramos e nossos olhos cientes por uma responsabilidade não cumprida ou dúvida de consciência, saúdam a sujeira que nos ri amarelada, por não tê-la arrancado de lá. Pode ter sido o álcool. Em alguns momentos , de cara cheia, rolava até um canto e ficava ao lado da máquina caça níqueis. Um dia notou, os sons. Ele nunca disse a ninguém mas acreditava piamente que a pinga interferia nos seus sentidos. Num desses dias, notou o tic-tic, o clanque, o zunido, escondidos em camadas de sons. Sentia-se como um cão de caça que ouve o q o dono não escuta. Em meio á copos quebrados, brigas, falácias e mentiras cuspidas no ar, ouvia apenas. Era um chamado, a máquina conversava com ele, em palavras que ali ele não compreendia, mas estava chamando-o querendo dizer algo. Desde então era seu lugar predileto. Mesmo que os bebuns e eventuais apostadores se apoderassem dela por instantes ele não tinha ciúme, ali ficava, disfarçava, bebericava, ate papeava, mas seus ouvidos ficavam mais treinados, decorando rugidos, rangeres, reclamações e ladainhas metálicas. Sentia a reclamação do brutamontes que quase lhe arrancava a alavanca, ou que apertava com força exagerado seus botões. “Imagine como trata uma mulher” pensou o velho. Ciente ou não estava decodificando. Tornavam-se o que imaginava ser um tipo de intérprete. Seus olhos não piscavam diante das luzes coloridas, dos dígitos vermelhos que selavam a sorte, de tostões que eram engolidos. “não são meus amigos” foi a primeira frase que conseguiu definir. “hoje você leva um pouco”, e um sortudo recuperava o que gastou mais uns trocados. Começou a se consternar quando um ou outro a esmurrava. Ai percebeu a melodia certa, em meio a esse concerto do desarranjo. A harmonia certa que cantava e anunciava o vomitar de centenas de moedas. E ela, temperamental como toda mulher não tinha muita distinção de para quem dava o prêmio. Começou a notar que em meio a esses humores, tinha o dia certo, e como um orgasmo que vem avassalador, não era uma erupção para todos os dias. Influíam uma porção de carícias, jeitos e trejeitos. Dentro molas, engrenagens, ventoinhas, roldanas, rodas lisas e dentadas, giravam, voltavam interpretando como uma paródia da vida no boteco e fora dele, em escala menor o papel das tristes almas, tão aprisionadas quanto elas. Repetitivas. Previsíveis. Sim foi esse o termo que o velho perdeu em seus diálogos consigo mesmo. Previsível, pois uma única vez, a melodia da conversa saiu noutro tom, ou fora de compasso dando um sinal que os ouvidos do velho mesmo ouvido uma única vez gravou e identificou. Era o sinal, como o gemido especial da mulher do dia em que todas as contrações uterinas do desejo explodem num só rumo. Isso fez com que ficasse mais por ali. Que se afundasse mais em ansiedade. É claro que começou a depositar uns trocos esperando que ela jorra-se toda sorte em moedas. Assim foi, e assim as idas a estação ferroviária começaram a tomar peso de importância uma vez que ela portava-se como mimada. E o iludia como uma mulher que gosta de brincadeiras sádicas. Ameaçava, gemia, chegando a mexer-se dando o sinal convulsivo, e na última nota do improviso, mudava de nota. Por isso o pequeno deposito de moedas foi minguando, até a caixa escondida no quarto perder de vez a utilidade. Nunca deixou que ninguém percebe-se seu dom. Mas não conseguiu disfarçar, uma vez que não era tão ativo na conversas. Um dos motivos foi o dono do bar dizer que a maquina não estava dando lucro, por ele sempre estar por perto e as pessoas sentirem-se desmotivadas de jogar. Tinha também uma questão relacionada com fiscalização e propina, que não o interessou. Isso fez com que ficasse preocupado como um cientista que perde o apoio financeiro na iminência de sua grande descoberta.
Naquele dia o amigo, meio embrutecido pelo cansaço ou alguma preocupação extra chamou-o rudemente. Quase que ordenando mandou que ficasse aquela noite na portaria. Foi o que fez. Estava o velho afoito. Como você se sentiria, sabendo que ás portas de achar a mina de ouro, não terá olhos nem dedos para manipular a chave da entrada. Um dia se torna especial quando ganha importância, uma jovem prostituta, rodou a noite em alta atividade, passando e sorrindo-lhe. A cada cliente com quem saía ou abandonava adormecido no quarto ela lhe ria. Escancarava a boca que não saberia dar a conta de beijos ou membros que abocanhava por noite, em sorriso desejoso. Não era nenhuma princesa. Era gorda, barriga saliente, pele flácida. Ainda assim em sua estrutura mantinha coxas grossas e um poderoso traseiro, firme como de uma égua. Sendo assim tinha sua beleza, chucra de palavreado baixo, mas tinha. Mas a ele, ciente de suas misérias e vivido como os cães sem dono do entorno isso era um sinal claro. O que carregava entre as pernas não estava morto como elas, mas não era posto em uso fazia tempo. Assim sendo, alguém lhe distraiu da única coisa que mantinha em sua vida...a máquina. Ao girar em fim o turno, dirigiu-se ao quarto, apanhou uma muda de roupa, a toalha e foi tomar banho. Minutos depois, sem que ele pudesse imaginar ela estava a porta, nada falou, deixou a bolsa de lado. Baixou a saia, tirou sandálias, a microblusa que espremia quase que pra fora dela os enormes peitos. Nada falou. Entrou na banheira e o acariciou, beijou-o, engolindo-o pois afinal, ela tinha enormes bocas.
Nessa manhã o velho não foi á estação. Levantou tarde. As lembranças se confundem, como o gosto na língua. Ele em algum momento vislumbrou o enorme traseiro, cruzando a porta rumo ao corredor. Devorador, já saciado o corpo da mulher, sumiu, como chegou, sem nada falar. Abandonou o corpo de pernas invalidas com um beijo na testa, sem que ele soubesse quando foi isso. Com o andamento de sua rotina descalibrado, tentou recuperar-se, passou pelo parque e viu os mesmos. Judeus, nordestinos, bolivianos, prostitutas gordas e precocemente envelhecidas, office-boys matando o tempo, vagabundos bêbados dormindo nos bancos, pombos e obras de arte em aço, chumbo e pedra que pululavam sob o céu azul cinzento, como sempre. E como tudo estava como sempre, como sempre foi ao boteco. De mente e corpo relaxado parecia estar em simbiose com a maquina, cada movimento dela era precedido de uma previsão mental do velho. Sem explicar sabia que era naquele momento. E de fato foi. Nada apoteótico, por outro lado uns poucos viram a proeza. Ele queria sigilo, com as vitórias e conquistas vem os parasitas. Pensou em sair do ciclo, do círculo e do meio. O dono do bar, pela profissão e pela clientela não sabia ficar de boca calada então era esse o tempo que o velho tinha para ir embora.
Chegando de volta ao “hotel”, o amigo já sabia da boa nova. Surpreendente dizer que a reação não foi de alegria, mas lamentação. Falava de falência, de vender, de se matar, mas mesmo o velho sabendo que ele nada daquilo faria, sentiu uma ponta de preocupação. O amigo insinua que quer dinheiro pelos anos de estadia gratuita, e que sabia que aleijado tinha posses escondidas. Isso punha a amizade em cheque. O velho contornou como um velho lobo matreiro a situação, pensando em cair fora a noite, ira ate a estação ferroviária e com o dinheiro comprar uma passagem para lugar nenhum e afundar-se no desconhecido. O “hotel” que até dado momento foi sua casa, tornara-se uma prisão, o amigo não tirava os olhos do quarto, não saia da portaria, o velho então arruma uma bolsa. Lá ficam umas poucas roupas e o prêmio, agora em notas, já que o velho trocou todas as moedas. E a deixa estrategicamente atrás da porta. “Uma hora ele vai ter que sair, nem para ir ao banheiro que seja”. As prostitutas todas passavam lhe sorrindo, parabenizando pelo prêmio polpudo. A mulher de bunda grande também lhe sorriu , e foi a única a lhe desejar sorte e aconselhar que se cuide. O jogo de gato e rato permaneceu até o amanhecer. O amigo trançava as pernas com vontade de urinar, o velho mantinha-se atento. Num determinado momento ouviu os passos do amigo correndo para o banheiro, como se ainda tivesse pernas, abriu a porta do quarto e rolou corredor afora. Ao passar pela portaria viu a mulher de grande bunda, lhe entreolhar por detrás do balcão. Ela gesticulou em silêncio, pegou a chave de entrada do “hotel”, e o acompanhou, trancaram o “hotel” por fora, e jogaram a chave longe. Rotunda e forte, a mulher se pôs atrás da cadeira e empurrou, era cedo, ainda saindo o sol, frio do outono, e deslizaram até a ferrovia. A mente do velho delineava uma paisagem que não via a muitos anos, o premio da maquina amiga era um milagre da contemporaneidade, e colava no rosto dele um sorriso.
Entraram na estação. Ela enfiou um bilhete eletrônico na catraca, girou, enquanto ele rodou pelo acesso de deficientes. Fazia muitos anos que ele não via a estação “por dentro”, acreditava que a última memória assim era do dia que chegou, ainda com as próprias pernas, sem auxílio de roda alguma. Anos perdidos e distantes. Rodaram alguns patamares. Pegaram elevadores. Andando no contra-fluxo dos passageiros da manhã e que o velho reconhecia com certa estranheza fora do ambiente que estava tão gravado em sua mente. Tomaram um café. Lado a lado e menos ofegantes, mulher e velho conversaram um pouco. Existia um clima melancólico de despedida. Do bolso da camisa o velho tira um envelope, nada demais, uma foto de uma mulher com um garoto de colo, envelhecida pelo tempo e uma carta onde se lê ao fim um endereço. Ele segura com força. A mulher de bunda grande, abaixa-se sem cuidado algum, o beija. “Boa viagem”. O velho apenas sorri sem nada falar. Ela empurra a cadeira de rodas próximo das escadas rolantes, seguem firmes pelo corredor livre e sem guardas, pois os mesmo cuidam dos acessos e saídas no rush da manhã. O ditado diz que a ocasião faz o ladrão. Ela muda o rumo das escadas rolantes para a escada fixa. Como uma gata ladra, puxa a bolsa e joga a cadeira 3 lances de escada abaixo, entrando em seguida no elevador. Ouve-se o grito e baque ao fim da escada. Alguns ossos estão partidos e corpo não comporta o veio de sangue que inunda a plataforma lá embaixo. Poucos se importam, os trens abrem as portas e alguns passageiros desviam e passam por cima do velho. Em seguida um roda se faz ao redor deste, para ser desfeita pela equipe de socorro. A mulher de bunda grande esta agora num táxi, afoita, com o coração a mil, suorenta feito uma porca. Uma caminhonete encosta diante do boteco e leva a máquina caça níqueis embora. O amigo e dono do “hotel”, esta feito louco, rodeado por prostitutas e clientes de todas as cores, tamanhos e estilos, tentando se concentrar e achar as chaves reservas do “hotel”. O jovem rapaz que sempre era observado, não dá bola ao tumulto que acontece na plataforma, esta entretido com um livro a mão. Em sua mente passa. “ Fazem 2 dias que o velho não aparece”. Nesse momento o relógio da estação, pontual como todos os dias, bate o horário exposto pelos ponteiros.
Comments
Voltando do almoço, há alguns minutos atrás, deparei-me com um sujeito que se casa perfeitamente com o velho que você tão bem descreveu. Também ele estava em cadeira de rodas, tinha os braços fortes, não tinha pernas. Talvez a diferença relevante seja de que se trata de um homem negro, embora também com barba e cabelos brancos.
Imediatamente lembrei de ter lido esse texto tão detalhada e minucioso aqui, e de que ele me despertou diferentes reações: familiariedade com o tema urbano e decadente; identificação com o jovem que passa pelo velho e nada fala, assim como com as pessoas que passam por ele e lhe são indiferentes...
Porém, se há algo que realmente apreciei, foi sem dúvida a parte que menciona a relação do velho com o caça-níqueis. E não foi tanto a realmente brilhante comparação entre a máquina e uma mulher, mas sim a tentativa da personagem em conferir um pouco de "ordem" a seu mundo. Sentava-se no bar e previa os sons, o tilintar das moedas, o humor da máquina.
Previsibilidade que não ocorreu no fim do texto, que sim, me surpreendeu.
Acho que no fim das contas, eu já queria acreditar em um amor inesperado entre a prostituta gorda e o velho sem pernas.
Culpa minha e de minha visão do amor ? Ou culpa sua que talvez tenha sugerido que não pode haver amor onde não há humanidade ?
Belo texto.
Abraço
Belo texto!
Beijos
beijos
Andei bastante preguiçoso por esses tempos mesmo. Tirei a poeira do bolg hoje. Espero não demorar tanto para o próximo texto.
Abraços!