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prefácio para um cenário de histórias

A cidade cinzenta parece ser uma criação do tempo. Não este a matéria prima da história, e sim um escultor, personificado, que fosse amigo do destino. E que com ele conversa para compor grandes obras. O tempo parece ter falanges firmes e habilidosas, uma mão trabalhadora dura de veias visíveis, que talhou a cidade, pedaço a pedaço em nacos de imortalidade. Parece tão firme e rija, que transcende, transpassando um sentimento de imutabilidade. Da pedra que vence os anos. De mil torres que raspam o teto dos céus com antenas que irradiam sinais sem fim. Quem de fora vem, ou observa imagina que ali sempre esteve, testemunho de eras. Estendida sobre um planalto distante algumas horas de um litoral bravio. Vencer a serra era proeza heróica nos anos de fundação em tempos que não foram escritos. Índios já conheciam a rota a séculos, antes do homem branco sequer chegar nesse continente trazendo suas doenças e transformando tudo ao redor. Desacralizando o chão, vulgarizando a criação.

Hoje a cidade cinzenta é cortada sem piedade por ventos fortes, frios, que correm como demônios guinchando entre prédios de cimento e vidro. Que passam como milhares de olhos esbugalhados perscrutando vitrines apagadas. O ar tem sabor de fumaça, e as pessoas vivem o ritmo do trabalho. Como se o sol não nascesse, e a lua não iluminasse o céu chamando ao sono. A arquitetura parece uma brincadeira maldosa com alguém de poucas capacidades, como um amontoado deformado de brinquedo de montar, é toda irregular, uma piada geográfica. Sem harmonia. Depressões, morros, ladeiras, que com colonizadores sem criatividade e sem vontade de domar ao meio, só foram criando suas povoações. Espalhando para que brotassem em encostas, morros, a beira de rios, acima de penhascos, assinalando o improvável como possível. Se amparando na estrutura natural, o que reforça esses aspectos caóticos, apinhados, confusos.

Pense leitor também em um complexo hídrico que fez com que o maior rio do mapa a rasgassem ao meio. Por outro lado, essa barreira natural foi bem aproveitada. Quem saberá dizer com ou sem propósito? Como um fosso ao redor do castelo medieval. Cercando de pontes sobre esses rios, que delimita periferia e grande centro. A manifestação natural alimentou a sociológica na discreta ordem do poder. Outrem, a mão de obra deveria ocupar os subúrbios, mas uma classe média fincou-se firme ali. E lá permanece. Ricos apóiam-se bem localizados e próximos de suas necessidades, muitas vezes seguros em muralhas atrás de seus cães-seguranças-armados e câmeras de alta definição. Aos pobres abriu-se longa, distante (e num dado momento do tempo inabitada) a periferia. A terra ainda lembrava do tempo do índio, com seus matagais, bichos. Mas o destino do homem é ser imperfeito, trazer o grotesco ao mundo, e lá também corrompeu a terra, não por ganância mas por sobrevivência. Lá se escondem, lá vivem, repousam dormem, numa enorme corrente de quilômetros de largura ao redor do grande centro.

A cidade, com centro, subúrbio e periferia, é um monstro que se alimenta da dor, e da alegria, sentindo ruas como veias, e que nunca dorme, que espele, que se infecta das próprias pessoas que a habitam. E nessa ambigüidade constante torna-se lar, abrigo, oportunidade e esconderijo, para aquele que nasceu em sua terra de concreto ou para o forasteiro que ali encontrou abrigo. Para o criminoso que quer ser ninguém. Ao assassino que se faz fumaça. Ou a massa que não pode ser um. Ou o um que não quer se perder em milhões. É a sinfonia do concreto armado, de britadeiras, buzinas e despertadores. Da fumaça de cigarro e do carro. Do gosto de sangue na boca, e do beijo doce de quem ama, que cospe o mau-dizer e contempla em palavras o senso comum. É o esbarrão, a trombada, o murro no baço, os bilhões de dedos em riste chamando um ônibus. Um metrô apinhado. O ambiente fechado em 30 graus no auge do inverno, ou a chuva ácida gelada que ocupa o verão descontrolado. Que exala nos corredores, nas catracas da madrugada, o perfume do sabonete barato. O éter numa sala de espera branca de hospital que se faz atmosfera para os que chegam chorando e os que se vão em silêncio. É o néon do motel vagabundo, do rugir do estômago faminto, o fritar do yakissoba feito ao ar livre temperado pela fuligem. Que conversa na universal linguagem do dinheiro, em cores, etnias e procedências distintas. Que louva o Diabo em ações mas ergue diferentes casas de Deus. Orando, orando, praguejando, sob abobadas que querem reproduzir o infinito, ou cubículos que são reencarnação de prostíbulos. Terra do relógio em dias e noites de guerra, no corpo e na mente. De paranóia, medo, de riso e alegria histéricas. De pecado, e pitadas de redenção. A cidade sem tempo, a terra de passagem, escura com luzes de todas as cores engolidas na escuridão da noite. De tudo, de todos. No Man´s Land. De solidão acompanhada onde nunca se está só. Em ruas, casas, morte e vida, andando de mãos dadas ao sol, num piquenique sobre a grama.

Parques, praças, avenidas, ruas, pontes, favelas, morros, pinguelas, bibocas, cada dia mais e mais. Casas, edifícios, mansões, quitinetes, marquises, sobrados, barracos. Crescente. Que invade se arrasta para além do mapa, para além da pesquisa social, além do que sociólogos e cartógrafos possam entender. Entrando na derme, nos ossos de seus habitantes, que gozam ao som dos tiros. Que se espremem curiosos sobre os cadáveres do asfalto, que choram no melodrama televisivo e não percebem o mar de almas que nadam todo dia na multidão. Fome de espírito, de poder comê-lo, de tomar o brilho dos olhos de quem não perdeu. Teto do amor, da ternura, mãe ingrata de filhos desamparados. Onde bravos não percebem sua força e covardes empunham as armas do medo.

A terra escura instiga dúvidas e confunde em bilhões de respostas. Que tanto faz as respostas estas sejam em primeira ou terceira pessoa, não importa o singular o plural. Esperando que todos se derretam e sejam absorvidos pelo grande macro-antropofágico. Sussurrando aos becos a língua do imutável. Ouvindo e distribuindo dialetos. Com ondas virtuais que substituem o contato físico em cubículos conectados em rede, da cidade com o mundo. O drama humano se faz, no Espaço e no Tempo. Sem subjetividades, como animais a carência de rumo, ou de prumo, é a linha principal no emaranhado de questões que não da a resposta de nossa existência. E se a cidade cinzenta é complexa, por demais não seriam simples seus habitantes. A cidade nada seria sem sua gente. O macro é feito de micros. A paixão se vale da necessidade de se preencher um coração vazio, e o desamparo é essa medida de sentimento a ser proporcionado. Que esta vago, vazio. Assim tudo se torna uma enorme rede de organismos, prontos a se devorarem, que transmitem emoção. Para aquele que ainda não deixou seu coração bater os olhos sobre Medusa, que o mantenha bem guardado em um tórax de ouro. Para aquele que carece de sentido, deite as pupilas do globo ocular atento, no microespaço, que pode ser mais vasto, que a profundidade desconhecida de nossas almas

Comments

Salve Marcelo,

Velho, uso msn sim.
lutterblisset@hotmail.com
meu email é: jbmbittencourt@yahoo.com.br
Escreve aí.
Abraço
Unknown said…
Muito rococo no primeiro paragrafo, talvez. Faltou a descrição da biqueira, desculpe, meu dia a dia. Tenho dúvidas se o mundo complexo gera dúvidas nas pessoas, no final das contas são todas tão iguais, buscando a normalidade e os valores mais banais,quando não conseguem piram de um ou outro jeito. Gostoso de ler, bonitas palavras do Professor Marcelo.

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