Depois de coletar a voz do mendigo pôs se a andar e pensar. O ancião abandonado a sorte era uma figura única. Andava com um alegre cachorro preto, escrevia coisas desconexas, mas ao mesmo tempo geniais em pedaços de papelão. Deu uma refeição como “pagamento” pela voz. O mendigo em sua loucura e crostas de sujeira exalava sabedoria. O velho despediu-se e seguiu sua vida. Ele por outro lado estava empolgado com a gravação. Pos se a andar freneticamente pelo parque. Tinha um fone de ouvido na mochila. Tirou este e plugou no pequeno aparelho de gravação. Mergulhou de novo na história do homem, lembrou-se de uma mulher, de bailes no Mont Martre, no poder que o dinheiro traz, e a derrocada advinda de sua ausencia. Devaneios, pensou ele. A paisagem a sua volta mudava. Pensou em como a insanidade pode ser criativa. Cruzou o parque, saindo dos caminhos de pedra, pisando na grama com o sol de fim de tarde em sua face.
Com o caminhar trocou a voz da gravação, por uma caixinha digital que comporta musicas ao infinito. Lembrou-se que não almoçara. Gostava de dar conta do trabalho. Mas mesmo nos intervalos de aula, não terminava de rever a matéria e preparar tudo para a semana seguinte. Parou em um café. A musica corria sua caixa craniana, compondo trilha sonora para as imagens frenéticas de uma metrópole em fim de dia. Pediu um espresso, uma fatia de torta. E observou da vitrine o desenrolar da vida num misto de desdém e curiosidade por algo que sai do squetch deste teatro. Pensou na garota. Em sua garota. Não a verá hoje, ela tinha uma conversa com o pai. Hoje era dia Dele, para com Ele mesmo.
Pagou o que consumiu. Acendeu um cigarro para acentuar a dupla com a xícara de café. Cruzou a rua e foi para um grande sebo. Já era velho conhecido. Cumprimentou o dono, os funcionários. Enfiou-se na sessão de lps. O cheiro, o pó, e alguns ácaros brincavam no ar com suas narinas. E na rua lá fora a tarde findava aos poucos sem a pressa dos carros e buzinas. Sua casa era próxima, Ele não precisa ter pressa.
O sofá da casa também tinha visto a passagem do tempo estático. Desde que chegara ali permanecera no mesmo lugar, via dia a dia, as camadas de pó aos poucos cobrirem seu tecido. Ali logo abaixo da janela, ele sentia também o sol desbotar e roubar no caminhar de anos suas cores. Era uma quitinete onde se encontrava. O sofá se abria todas as noites, pois nesse lar não existe cama. Os outros movéis que fazem companhia, vieram de diferentes procedências, até mesmo do exército de salvação. Cada um carregando sua história para compor a do dono. Este passava o dia fora, mas quando em casa, limpava esses poucos pertences com afinco. Não gostava de sujeira, sentia-se incomodado. Tudo devia estar no lugar que planejou, desde o momento que adquiriu. Mesmo a vizinhança do centro da cidade cinzenta não sendo das melhores, gostava de abrir bem a janela (a mesma de onde o sol roubava as cores do sofá) para tirar o “cheiro de casa fechada”.
A vida compartimentada do centro. Trabalho. Estudo. Lazer. Relações. Tudo a pé. Tudo perto e longe. Os que se esbarram na calçada, se perdem na vista sem tocar o campo das lembranças. Ele caminha novamente, imerso em seus pensamentos. A mochila nas costas, fone nos ouvidos, a caixinha tecnológica que comporta toda musica do mundo no bolso. Carrega um pacote embaixo do braço, um pacote quadrado e fino, carregado com cuidado o que demonstra a fragilidade do produto interno. Ele caminha pensando no seu canto. Desconectando-se do trabalho. Desligando-se da vida para se entregar a fantasia. Era sempre assim, nos dias que saia de suas aulas, só voltava a pensar nelas, quando tivesse que voltar a sala. Nunca cobrava nada dos alunos que eles não pudessem cumprir naquele período de tempo. No outro trabalho também se proibia, de pensar em suas ações profissionais fora do horário que o contrato lhe obrigava estar ali. Ele tinha jeito com pessoas e com coisas. Polia, organizava, limpava. Etiquetava, numerava, catalogava. Tudo no seu lugar. Reservando o tempo e o significado. Tudo tem que ter sua identidade, se não ‘temos legendas não temos fatos”, falava seu instrutor de acervo. Ele aprendeu isso com afinco.
Ele sente-se sujo. Todas as vozes, todos os corpos que esbarram parecem trazer camadas de pecados que viscosamente grudam em sua alma. Ele vê os seres opacos da cidade, como pombos que não se importam com o transeunte da praça, que não esboçam reação a nada. “Até onde não serei um desses?”.
Passando a entrada do prédio, faz um aceno ao porteiro. Um homem de meia idade, gordo e calvo. Entrega a correspondência. Entra no elevador, o ruído metálico, a porta com aspecto de gaiola, os andares que sobem, os pisos que descem. Esta de frente para sua porta. As chaves saem do bolso. Tudo no lugar de sempre. Deixa o pacote sobre a mesa. Tira a mochila das costas. Abre a janela. Um mar de buzinas, fuligem, freadas, invade o silencio de seu lar. Ele sente como se a vida morta invadisse seu canto de forma violenta. Divaga enquanto como autônomo faz mecanicamente seus rituais. Desliga o aparelho e tira os fones do ouvido. Tira os sapatos, gastos, tortos na sola do calcanhar. Liga o computador. Pensa (como noutras muitas vezes) em trocar o pano do sofá. Bate o olho rapidamente nos emails. Desliga. Vai ao banheiro, alivia-se dos líquidos da bexiga. Lava uma ultima louça que o esperava na pia. Secando as mãos, vai até a sala (que também é seu quarto) e para de frente á uma grande estante, que ocupa toda uma parede. Lá estão seus tesouros. Livros, organizados por temas. A maioria deles de história. História dessa cidade. História desse Estado, do país, deste continente tão novo, comparado ao outro, que fica além mar e chamado de velho. Abaixo muita literatura, de todos os continentes, traduzidos na língua desse lugar, mas que trazem as mais profundas essências do homem oriental e ocidental. Entre eles, existe um “frankestein”. Um aparelho de som, montado de partes distintas. Um toca discos. Um deck de fitas. Um receiver. Quatro caixas de som, de pares e tamanhos diferentes, dispostas nos quatro cantos da sala/quarto. Todos velhos de décadas e também comprados de segunda mão. Graças a uma ligação adaptada, Ele pluga a caixinha tecnológica, completando a contradição que é a união de todos esses elementos de tempos e lugares diferentes estarem ali, num cabo auxiliar e a casa vibra com a musica.
O chuveiro faz seu serviço, com ajuda do sabão, manda ao ralo, toda sebosidade pecaminosa que o ar da cidade deposita sobre o morador dali. A toalha tira o excesso de água. Coloca uma roupa mais leve, chinelos nos pés. A caixinha tecnológica ainda esta tocando. O sol já se foi, e as buzinas gritam mais insandecidas. Todos querem todos os caminhos. Todos querem o aconchego do lar. No apartamento do outro lado da rua Ele vê a vizinha se despir de janelas abertas. Ele acende um cigarro e a observa. Sem desejo, vê os seios caídos, a celulite percorrendo a bunda. É um ritual de todo dia. Ele senta-se no sofá. Deixando a nicotina corroer mais ainda seus pulmões, ele vislumbra além da fumaça azulada o pacote fino e quadrado que trouxe. A caixinha tecnológica poderia cantar por dias sem fim se não fosse silenciada. O pacote é apanhado, aberto. Um lp. Capa dupla. Encarte com letras. Da lateral alem de sair a bolacha de vinil, vem também o cheiro de papelão velho. Ele adora essas sensações e repara em uma inscrição. Uma assinatura não identificável e uma data de muitas décadas. O disco é pesado. Da época que a crise do petróleo não tinha minguado com a produção de vinil, uma bolacha firme, que não enverga. Brilhante, negra, muito bem cuidada. Ele o observa de perfil, os polegares no selo e os demais dedos nas bordas. Ele vai até o toca discos. Ergue a tampa, muda a chave seletora do receiver, as caixas, respondem com uma leve ribombar nos falantes, sinais de que estão no canal correto. O vinil, é encaixado no prato do toca discos, e começa a girar. A experiência e o costume fazem o botão do volume ir crescendo aos poucos conforme a agulha entra no primeiro sulco, dando uma primeira volta completa, sem ter a preocupação dos maratonistas. A cápsula da agulha no braço, corre ritmada, sem pressa, sem ondulações, como que indo no mais perfeito dos asfaltos. Esses segundos de início, jogam aos ouvidos o chiado familiar, que devem ser a herança de uma prensadora de algum lugar, que cristalizou o sinal do não silêncio para a eternidade. É um lembrete de que o silêncio por completo não existe nunca, pois até pensar gera som, e nunca seremos imersos ao não som, quem sabe um dia no fim da existência.
Ele permanece ao lado em seu ritual. É uma voz de mulher que sai do vinil. Canta, entristecida, a perda de seu homem. Canta a dor de ser trocada por outra. Canta inúmeras dores do espectro feminino. Ele torna-se cúmplice naquele momento, tentando entender a dor que se faz arte, que se faz produto depois. Outros cigarros vem. Ele pensa, nas mulheres de sua vida. Nas que amou, e nas que lhe entregaram o coração. Não consegue deixar de olhar a estante, numa repartição existe uma caixa, dentro dela, outras pequenas caixas com o nome de cada uma delas, guardando, fotos, cartas, lembranças, histórias, pedaços de vida, que duraram a eternidade de um fogo de artifício. Hoje ele tem o coração ocupado. Pode-se dizer feliz a seu modo.
Os pensamentos correm acompanhando a fumaça que entra pelas bordas dos livros, e o papel de cigarro que vira cinza sobre o tapete. Ele sem perceber, esquece a voz negra da cantora. A grande estante esta na sua frente. Cada parte corresponde a um momento de sua vida. Álbuns de foto de amigos e familiares. Discos de vinil. Livros e revistas em quadrinhos, que ele contesta como não sendo uma “arte menor”. Filmes em vhs e dvd. Um vídeo cassete, um aparelho de dvd e um de tv grande. Parece que tudo sobre ele esta naquela estante. Catalogado. Compartimentado. Sempre a vista de um olhar, que identificaria com facilidade se algo fosse removido.
Ele tira os diários de aula da mochila, tira os livros que tem ler sobre acervos, e os deixa fora de seu campo de visão noutro canto da sala. O fim de semana está achegando, ele só pensara nesses objetos na segunda feira pela manhã. Estica-se no sofá. Sonha com dias sem fim, dessa mesma cidade cinzenta. Acorda com a noite calma. O disco da cantora chegou ao fim, e a agulha obediente ao hábito de sempre retornou ao seu lugar. No celular uma mensagem da namorada. Se encontrarão amanhã. TE AMO, em letras maiúsculas ao fim da mensagem. Ele sorri tranqüilo, agradecendo a si pelo momento.
Indo a mesa próxima, apanha a mochila. Lá dentro ainda esta o gravador, pluga-o no computador, transfere esses sinais digitais que são a alma de um homem abandonado que dorme com seu cachorro ao ar livre nos parques da cidade. Mais alguns clics e essa mesma história se tornará um cd, expulso das entranhas do computador, mediador fundamental nessa transição. Uma caneta de tinta preta e ponta porosa, escreve pressionada pela mão firme na superfície do cd, a data, o nome, e o lugar onde essa sessão foi executada. Ele ouve mais uma vez a história. Reconhece a própria voz nas perguntas. Volta ao som das crianças que brincavam a volta. O cheiro da grama, e a luz do sol, tudo vem na voz digitalizada do velho. Ele sente-se emocionado com a história. Ele olha a janela, os carros são poucos agora, rumando sabe-se lá para onde. Olhando na direção do horizonte imerso em prédios, ele manda um beijo de boa noite a namorada que esta indo dormir. A noite já avançou. O sono vai demorar a vir. Ele tira o cd, guarda numa outra caixa. Lá existem outras almas, catalogadas, digitalizadas, numeradas. Um arquivo de computador é aberto no aplicativo de funções. Editor de texto. Quem pudesse estar próximo e ler, veria que o mesmo arquivo já foi modificado milhares de vezes. Dezenas de milhares de caracteres que se encadeiam contando trajetórias de vidas, que se perdem no anonimato. Raptadas ao passo de um clic de gravador. Imortalizadas na mídia eletrônica, e no anomimato de um escritor que não cria para dividir. É o único jeito que Ele encontrou para não tornar-se uma carcaça oca, um revoar de pombos teimosos que só tem olhos as migalhas de pão. Ele dedica algumas horas madrugada adentro, incessante como o mendigo que diz de sua esquizofrenia que lhe obriga a escrever. A cantora do vinil canta seus amores perdidos mais infinitas vezes na noite que parece não acabar. O sono não vem, os cigarros se vão organismo adentro. Ele se admite sensível, não escrever, não guardar, não registrar a própria essência e existência é morrer, e ele entrega sua potência insone para manter-se vivo, mas acima de tudo humano.
Com o caminhar trocou a voz da gravação, por uma caixinha digital que comporta musicas ao infinito. Lembrou-se que não almoçara. Gostava de dar conta do trabalho. Mas mesmo nos intervalos de aula, não terminava de rever a matéria e preparar tudo para a semana seguinte. Parou em um café. A musica corria sua caixa craniana, compondo trilha sonora para as imagens frenéticas de uma metrópole em fim de dia. Pediu um espresso, uma fatia de torta. E observou da vitrine o desenrolar da vida num misto de desdém e curiosidade por algo que sai do squetch deste teatro. Pensou na garota. Em sua garota. Não a verá hoje, ela tinha uma conversa com o pai. Hoje era dia Dele, para com Ele mesmo.
Pagou o que consumiu. Acendeu um cigarro para acentuar a dupla com a xícara de café. Cruzou a rua e foi para um grande sebo. Já era velho conhecido. Cumprimentou o dono, os funcionários. Enfiou-se na sessão de lps. O cheiro, o pó, e alguns ácaros brincavam no ar com suas narinas. E na rua lá fora a tarde findava aos poucos sem a pressa dos carros e buzinas. Sua casa era próxima, Ele não precisa ter pressa.
O sofá da casa também tinha visto a passagem do tempo estático. Desde que chegara ali permanecera no mesmo lugar, via dia a dia, as camadas de pó aos poucos cobrirem seu tecido. Ali logo abaixo da janela, ele sentia também o sol desbotar e roubar no caminhar de anos suas cores. Era uma quitinete onde se encontrava. O sofá se abria todas as noites, pois nesse lar não existe cama. Os outros movéis que fazem companhia, vieram de diferentes procedências, até mesmo do exército de salvação. Cada um carregando sua história para compor a do dono. Este passava o dia fora, mas quando em casa, limpava esses poucos pertences com afinco. Não gostava de sujeira, sentia-se incomodado. Tudo devia estar no lugar que planejou, desde o momento que adquiriu. Mesmo a vizinhança do centro da cidade cinzenta não sendo das melhores, gostava de abrir bem a janela (a mesma de onde o sol roubava as cores do sofá) para tirar o “cheiro de casa fechada”.
A vida compartimentada do centro. Trabalho. Estudo. Lazer. Relações. Tudo a pé. Tudo perto e longe. Os que se esbarram na calçada, se perdem na vista sem tocar o campo das lembranças. Ele caminha novamente, imerso em seus pensamentos. A mochila nas costas, fone nos ouvidos, a caixinha tecnológica que comporta toda musica do mundo no bolso. Carrega um pacote embaixo do braço, um pacote quadrado e fino, carregado com cuidado o que demonstra a fragilidade do produto interno. Ele caminha pensando no seu canto. Desconectando-se do trabalho. Desligando-se da vida para se entregar a fantasia. Era sempre assim, nos dias que saia de suas aulas, só voltava a pensar nelas, quando tivesse que voltar a sala. Nunca cobrava nada dos alunos que eles não pudessem cumprir naquele período de tempo. No outro trabalho também se proibia, de pensar em suas ações profissionais fora do horário que o contrato lhe obrigava estar ali. Ele tinha jeito com pessoas e com coisas. Polia, organizava, limpava. Etiquetava, numerava, catalogava. Tudo no seu lugar. Reservando o tempo e o significado. Tudo tem que ter sua identidade, se não ‘temos legendas não temos fatos”, falava seu instrutor de acervo. Ele aprendeu isso com afinco.
Ele sente-se sujo. Todas as vozes, todos os corpos que esbarram parecem trazer camadas de pecados que viscosamente grudam em sua alma. Ele vê os seres opacos da cidade, como pombos que não se importam com o transeunte da praça, que não esboçam reação a nada. “Até onde não serei um desses?”.
Passando a entrada do prédio, faz um aceno ao porteiro. Um homem de meia idade, gordo e calvo. Entrega a correspondência. Entra no elevador, o ruído metálico, a porta com aspecto de gaiola, os andares que sobem, os pisos que descem. Esta de frente para sua porta. As chaves saem do bolso. Tudo no lugar de sempre. Deixa o pacote sobre a mesa. Tira a mochila das costas. Abre a janela. Um mar de buzinas, fuligem, freadas, invade o silencio de seu lar. Ele sente como se a vida morta invadisse seu canto de forma violenta. Divaga enquanto como autônomo faz mecanicamente seus rituais. Desliga o aparelho e tira os fones do ouvido. Tira os sapatos, gastos, tortos na sola do calcanhar. Liga o computador. Pensa (como noutras muitas vezes) em trocar o pano do sofá. Bate o olho rapidamente nos emails. Desliga. Vai ao banheiro, alivia-se dos líquidos da bexiga. Lava uma ultima louça que o esperava na pia. Secando as mãos, vai até a sala (que também é seu quarto) e para de frente á uma grande estante, que ocupa toda uma parede. Lá estão seus tesouros. Livros, organizados por temas. A maioria deles de história. História dessa cidade. História desse Estado, do país, deste continente tão novo, comparado ao outro, que fica além mar e chamado de velho. Abaixo muita literatura, de todos os continentes, traduzidos na língua desse lugar, mas que trazem as mais profundas essências do homem oriental e ocidental. Entre eles, existe um “frankestein”. Um aparelho de som, montado de partes distintas. Um toca discos. Um deck de fitas. Um receiver. Quatro caixas de som, de pares e tamanhos diferentes, dispostas nos quatro cantos da sala/quarto. Todos velhos de décadas e também comprados de segunda mão. Graças a uma ligação adaptada, Ele pluga a caixinha tecnológica, completando a contradição que é a união de todos esses elementos de tempos e lugares diferentes estarem ali, num cabo auxiliar e a casa vibra com a musica.
O chuveiro faz seu serviço, com ajuda do sabão, manda ao ralo, toda sebosidade pecaminosa que o ar da cidade deposita sobre o morador dali. A toalha tira o excesso de água. Coloca uma roupa mais leve, chinelos nos pés. A caixinha tecnológica ainda esta tocando. O sol já se foi, e as buzinas gritam mais insandecidas. Todos querem todos os caminhos. Todos querem o aconchego do lar. No apartamento do outro lado da rua Ele vê a vizinha se despir de janelas abertas. Ele acende um cigarro e a observa. Sem desejo, vê os seios caídos, a celulite percorrendo a bunda. É um ritual de todo dia. Ele senta-se no sofá. Deixando a nicotina corroer mais ainda seus pulmões, ele vislumbra além da fumaça azulada o pacote fino e quadrado que trouxe. A caixinha tecnológica poderia cantar por dias sem fim se não fosse silenciada. O pacote é apanhado, aberto. Um lp. Capa dupla. Encarte com letras. Da lateral alem de sair a bolacha de vinil, vem também o cheiro de papelão velho. Ele adora essas sensações e repara em uma inscrição. Uma assinatura não identificável e uma data de muitas décadas. O disco é pesado. Da época que a crise do petróleo não tinha minguado com a produção de vinil, uma bolacha firme, que não enverga. Brilhante, negra, muito bem cuidada. Ele o observa de perfil, os polegares no selo e os demais dedos nas bordas. Ele vai até o toca discos. Ergue a tampa, muda a chave seletora do receiver, as caixas, respondem com uma leve ribombar nos falantes, sinais de que estão no canal correto. O vinil, é encaixado no prato do toca discos, e começa a girar. A experiência e o costume fazem o botão do volume ir crescendo aos poucos conforme a agulha entra no primeiro sulco, dando uma primeira volta completa, sem ter a preocupação dos maratonistas. A cápsula da agulha no braço, corre ritmada, sem pressa, sem ondulações, como que indo no mais perfeito dos asfaltos. Esses segundos de início, jogam aos ouvidos o chiado familiar, que devem ser a herança de uma prensadora de algum lugar, que cristalizou o sinal do não silêncio para a eternidade. É um lembrete de que o silêncio por completo não existe nunca, pois até pensar gera som, e nunca seremos imersos ao não som, quem sabe um dia no fim da existência.
Ele permanece ao lado em seu ritual. É uma voz de mulher que sai do vinil. Canta, entristecida, a perda de seu homem. Canta a dor de ser trocada por outra. Canta inúmeras dores do espectro feminino. Ele torna-se cúmplice naquele momento, tentando entender a dor que se faz arte, que se faz produto depois. Outros cigarros vem. Ele pensa, nas mulheres de sua vida. Nas que amou, e nas que lhe entregaram o coração. Não consegue deixar de olhar a estante, numa repartição existe uma caixa, dentro dela, outras pequenas caixas com o nome de cada uma delas, guardando, fotos, cartas, lembranças, histórias, pedaços de vida, que duraram a eternidade de um fogo de artifício. Hoje ele tem o coração ocupado. Pode-se dizer feliz a seu modo.
Os pensamentos correm acompanhando a fumaça que entra pelas bordas dos livros, e o papel de cigarro que vira cinza sobre o tapete. Ele sem perceber, esquece a voz negra da cantora. A grande estante esta na sua frente. Cada parte corresponde a um momento de sua vida. Álbuns de foto de amigos e familiares. Discos de vinil. Livros e revistas em quadrinhos, que ele contesta como não sendo uma “arte menor”. Filmes em vhs e dvd. Um vídeo cassete, um aparelho de dvd e um de tv grande. Parece que tudo sobre ele esta naquela estante. Catalogado. Compartimentado. Sempre a vista de um olhar, que identificaria com facilidade se algo fosse removido.
Ele tira os diários de aula da mochila, tira os livros que tem ler sobre acervos, e os deixa fora de seu campo de visão noutro canto da sala. O fim de semana está achegando, ele só pensara nesses objetos na segunda feira pela manhã. Estica-se no sofá. Sonha com dias sem fim, dessa mesma cidade cinzenta. Acorda com a noite calma. O disco da cantora chegou ao fim, e a agulha obediente ao hábito de sempre retornou ao seu lugar. No celular uma mensagem da namorada. Se encontrarão amanhã. TE AMO, em letras maiúsculas ao fim da mensagem. Ele sorri tranqüilo, agradecendo a si pelo momento.
Indo a mesa próxima, apanha a mochila. Lá dentro ainda esta o gravador, pluga-o no computador, transfere esses sinais digitais que são a alma de um homem abandonado que dorme com seu cachorro ao ar livre nos parques da cidade. Mais alguns clics e essa mesma história se tornará um cd, expulso das entranhas do computador, mediador fundamental nessa transição. Uma caneta de tinta preta e ponta porosa, escreve pressionada pela mão firme na superfície do cd, a data, o nome, e o lugar onde essa sessão foi executada. Ele ouve mais uma vez a história. Reconhece a própria voz nas perguntas. Volta ao som das crianças que brincavam a volta. O cheiro da grama, e a luz do sol, tudo vem na voz digitalizada do velho. Ele sente-se emocionado com a história. Ele olha a janela, os carros são poucos agora, rumando sabe-se lá para onde. Olhando na direção do horizonte imerso em prédios, ele manda um beijo de boa noite a namorada que esta indo dormir. A noite já avançou. O sono vai demorar a vir. Ele tira o cd, guarda numa outra caixa. Lá existem outras almas, catalogadas, digitalizadas, numeradas. Um arquivo de computador é aberto no aplicativo de funções. Editor de texto. Quem pudesse estar próximo e ler, veria que o mesmo arquivo já foi modificado milhares de vezes. Dezenas de milhares de caracteres que se encadeiam contando trajetórias de vidas, que se perdem no anonimato. Raptadas ao passo de um clic de gravador. Imortalizadas na mídia eletrônica, e no anomimato de um escritor que não cria para dividir. É o único jeito que Ele encontrou para não tornar-se uma carcaça oca, um revoar de pombos teimosos que só tem olhos as migalhas de pão. Ele dedica algumas horas madrugada adentro, incessante como o mendigo que diz de sua esquizofrenia que lhe obriga a escrever. A cantora do vinil canta seus amores perdidos mais infinitas vezes na noite que parece não acabar. O sono não vem, os cigarros se vão organismo adentro. Ele se admite sensível, não escrever, não guardar, não registrar a própria essência e existência é morrer, e ele entrega sua potência insone para manter-se vivo, mas acima de tudo humano.
Comments
Belo texto, com muitas das suas caracteristicas.
Obs: Estou sem acento nesse computador podre vindo direto do seu armario, espero que consiga identifficar onde eles estariam nesse comentario.
Abraco!
Abraço malandro!
Parabéns pelo texto, talvez vc tenha ouvido seu coração, só esses são dignos.
Abraço!
(só hoje que vi seu comentário a respeito de meu artigo "punk" sobre o punk. Obrigado). Podemos sim trocar algumas informações sobre as coisas desta e da outra vida.
Até mais.