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um dia perdido no tempo


Um garoto cruzou a cidade de ônibus, um tipo de música rápida e agressiva entra por seus ouvidos, fazendo que acompanhe as batidas rápidas e simples com tatear de dedos sobre a perna. Usava camiseta de uma banda americana, tênis e boné de uma marca de skate. A cidade cinzenta é impiedosa e o transporte inveriavelmente ruim. Os amigos do garoto o esperavam na porta de uma estação do metrô, mas o mesmo não chegava de onde ele vinha. Horas rodando, subindo e descendo para chegar ao centro. Chegando próximo da estação sentiu-se maravilhado com as pesadas e largas estruturas de concreto que erguiam como braços firmes, os trilhos do trem metropolitano ao alto. Até esse dia, ele não tinha entrado em um destes.

Os jovens se cumprimentam, com seus toques de mão adolescentes, o garoto do ônibus segue seus amigos. Param diante de um bar, os colegas cumprimentam outros que se espalham pela calçada, é apresentado como um deles, e bem recebido pelo grupo que fica cada vez maior. Uma garrafa de vinho passa, de mão em mão, os risos vão ficando frouxos. Ele passa o vinho, a memória da ultima ressaca e do vexame que a antecedeu o assombram. "Melhor não" pensa. Ele nota os adereços, os coturnos, jaquetas rasgadas, camisetas pretas, cabelo moicano. Ele não é assim, mas sente um tipo de empatia que vai além do sentimento de grupo. Cada um que passa faz um aceno de cabeça, cumprimenta os colegas e ele também.

Ele adentra ao bar. Segundo o cartaz na porta nessa noite 3 bandas tocarão. O ambiente esta mormacento e quente, uma das bandas ja tocou. Parte dela está no palco retirando cabos e equipamentos para dar espaço a banda seguinte. O garoto nota as paredes molhadas, o lugar tem péssima ventilação, deduziu que por isso que todos estão do lado de fora, é insuportavel ficar lá dentro depois do fim da apresentação. A segunda banda, afina aos poucos seus intrumentos, ele assiste de um canto de parede, as notas gemendo em baixo volume, elas parecem nunca chegar. Do lado de fora, os amigos conversam com outros amigos a multidão é maior. O garoto puxa papo com um dos integrantes que desce do palco, o baterista em questão parece ser bem solícito e informa o garoto que o show está para acabar, eles não foram a primeira banda e sim a segunda...Um sentimento de culpa (pensa no atraso do ônibus) e de frustração o íncomoda, ele puxa papo com os amigos na calçada...

O relógio não atrasa como o ônibus. Aos poucos todos que estão na calçada começam a entrar no bar. O espaço fica tomado, pouco se tem de ar para respirar. As paredes não suam, elas choram. A última banda, se apresenta. O vocalista é um homem feito, calvo, braços de quem trabalha com o pesado. Comunica-se com o público, fala palavras de ordem, sobre questões que entram como um abala certeira no peito do garoto. O guitarrista esta voltado para o alto falante do amplificador, segurando uma microfonia, que parece querer escapar feito um coelho assustado de seus dedos. O baterista, um outro, também velho como o vocalista, soa seus pratos, fazendo um "crescente" para a fala do vocalista. O baixista assiste, de palheta em punho, baixo ligado esperando o primeiro acorde...E ele vem, como se uma bomba toma-se conta do espaço, a multidao de garotos começa a mover-se, empurrando-se, descarregando o stress, a força, a vontade ou a testosterona de uma puberdade que apita em seu auge. Dois minutos e meio e a música acaba, outra é encadeada na sequencia, e outra, e outra. O garoto agita, canta as músicas, segura o microfone passado pelo velho vocalista. E sente como se ali sempre fosse seu lugar. O dia não pareceu longo, como parece distante de hoje. Mas foi uma uma curva no caminho, que ficou para trás e criou outro destino. Eu sei, pois estava lá.

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