Vez
ou outra, saio da Universidade para almoçar e vou a
um shopping center próximo. É a melhor opção de comida, sem ter
que escaldar no sol. Na verdade não é a melhor comida da região.
Tudo é igual e industrialmente processado. Só é próximo. E como a
primavera aqui é digna de um verão africano, melhor andar menos.
Sobrevivendo de ar condicionado e plásticos, tristemente. Com
uma pequena serra relativamente próxima, com montes a vista no
horizonte, deveria existir mais circulação de ar, penso eu. Vez por
outra do dia os morros e montes, se enchem de uma bruma branca,
fenômeno que nunca tem hora para acontecer. Descendo ou subindo, o
alívio deveria vir. Por fim, aceito que a brisa refrescante esquece
de vir, para que um sol todo poderoso e ardente chegue ao meio dia no
topo de sua glória. Ainda que eu não aprove a vida compartimentada,
melhor enfrentar o menor dos males.
Andar
em estabelecimentos assim, tem algo de aeroporto. Um lugar dentro de
outro lugar, que em si, é lugar nenhum. É passagem pura e simples,
com suas placas, orientações, direcionamentos, luminosos, carrinhos
e setas. As pessoas circulam pelos corredores, alguns absortos nos
próprios pensamentos, outros caçando o que fazer. Passam "dondocas'
que preenchem o vazio de suas vidas, com cacarecos e bugigangas.
Existem os atletas de academia, que não entendo, conseguem justo
esse horário para treinar. Vejo alunos da medicina e odonto com seus
"fardamentos". Por um momento, no canto de um olho, percebo
um professor já conhecido, caminhando rápido, muito apressado.
Crianças, cães, gente que anda lentamente na frente dos que tem
pressa. Gente vagabundeando, ou flanando, depende do ponto de vista.
E muitos outros que caminham, veja só que proeza, de pescoço
inclinado acompanhando ou se alimentando do que lhes aparece pelos
telefones celulares.
Horário
de almoço é tempo para si. Deveria ser. Devia ser mais também, do
que o mero abastecimento biológico. Deveria dar prazer mais que
saciedade. Mas o tempo do consumo, o do investimento e do retorno
numa sociedade que estipula um preço em tudo, inibiu isso. Existe
uma sistemática doentia na vida organizada ao redor do capital. O
aferimento de valor que enfia uma etiqueta invisível no pescoço de
cada um. Que determina as cobranças dos “superiores” sobre os
“subalternos”. Ela causa pequenas psicopatias, pequenas doenças
que se relacionam com o vício, e que acabaram ser parte constituinte
do que somos. Isso está implantado em nós desde que a sociedade “do
trabalho” estipulou que ele é o único meio de felicidade.
Parabéns aos workaholics, mas me incluam fora dessa. Curto meu
dinheiro e o que me proporciona, mas não o ponho em altar de
adoração.
Quando
saio para o almoço, tento nesses minutos que me "são
concedidos" pelas cambaleantes leis do trabalho, parar para
refletir. Pensar. Ler o que não seja técnico, e entender a gente,
as pessoas, o povo como são. Muito do que somos é mostrado em nossa
postura. Nos sinais que damos na relação com outros da espécie.
Assim como o Alfa de qualquer manada, tem seu abecedário de
dominação. Assim como diversas fêmeas mamíferas tem seus rituais
de escolha para a perpetuação da espécie. Assim somos nós,
enquanto animais sociais.
Peço
uma massa. Macarrão do tipo penne. Molho sugo. Manjericão e
cebolinha. Queijo parmesão cobrindo. Um suco para acompanhar. Parece
delicioso quando se lê aqui não? Mas ao vivo é outra coisa.
Simplicidade sem glamour e sem surpresa alguma. Esse
horário é também a saída de um colégio próximo. Vez por outra
uma molecada toma conta do espaço. Os maiores aos bandos, com seus
cadernos a mão, alguns de uniformes ajustados a seus gostos,
quebrando a “uniformidade” pressuposta pela roupa. Outros menores
com mães. Aí a coisa fica divertida. Entenda os pais, por como agem
com seus filhos, penso, ainda que a frase não seja minha e nem
lembro de onde aprendi. E vejo que minha geração, e a geração
depois dela, especializou-se no “mimo” e não no criar filhos.
Mas quem sou eu. Não sou pai. Não sei o que é esse perrengue e
transformação.
No
balcão de um fast food, vejo um casal. Um rapaz e uma moça. Ela
deve ter 14 anos, ele no máximo 15. Ambos são pequenos, mais ou
menos um metro e sessenta de altura. Ela tem espinhas espalhadas pelo
rosto e feições leves, nariz fino não muito longo, lábios grossos
e dentes levemente tortos de quem ainda não usou aparelho. Usa
cabelo curto, tingido de azul. Seu cabelo verdadeiro deve ser
castanho escuro, pois é a cor da raiz que desponta. Tem postura
alegre e carinhosa. Abraça o rapaz constantemente. Lhe dá beijos no
rosto, e na boca, passando os braços por trás da cabeça dele.
Apesar do carinho e da aparente doçura, busca uma forma de marcar
sua personalidade. Percebo que o corpo começa a desenhar suas
formas, e que isso ainda não é bem aceito. As transformações
corpóreas das mulheres, são muito mais marcadas que nos homens.
Hormônios explodem moldando o corpo, da noite para o dia e nem
sempre a mente evolui no mesmo ritmo. Talvez, por isso use roupas
largas, como camadas preparadas para escondê-la. Calça esportiva,
moleton de capuz, camiseta de caveira. É como se nos desse um recado
mudo, “não preciso ser como vocês querem e não me importo com
sua opinião”. Parece uma versão adolescente da atriz Léa
Seydoux, no filme “Azul é a cor mais quente”. Talvez o corte de
cabelo seja proposital para realçar a semelhança. Acho que esse
filme tem o mesmo efeito causado por Amélie Poulain anos atrás, que
jogou o figurino nas ruas.
Já
o garoto é mais “regular”, camiseta, jeans e tênis da moda.
Percebo que tem o corte de cabelo padrão, curto dos lados, pouco
mais alto acima. Eu chutaria que ouve algum sertanejo safado com os
irmãos ou amigos mais velhos. Se seguir esse caminho, será mais um
entre milhões de caras comuns, que passam, trabalham, e vivem sem
serem notados na multidão. Ou talvez seja a armadura anônima que
escolheu para si. O formato dos olhos transmite uma inocência meio
burra. Daqueles garotos lentos para compreender o óbvio. Apesar da
compleição míuda, deve treinar, ou praticar algum tipo de esporte.
Os ombros são levemente largos, e os braços começam a desenhar
músculos. Tem um rosto banal, comum, sem um fio de barba. Carrega
uma mochila nas costas, cujas alças ela brinca, subindo e descendo
enquanto está de frente para ele, brincando e conversando.
Se
me baseasse pela vestimenta, diria que estariam em pólos opostos na
sala de aula ou no pátio, na hora do recreio. Mas estão juntos.
Felizes. Várias pessoas vão recebendo seus pedidos e se
dirigem ás mesas, e ambos permanecem ali. Se abraçam, se beijam.
Isso atiça minha curiosidade. Pouco depois o atendente grita um
número e berra. “Vegetariano!”. Os garotos pegam seus sanduíches
e procuram uma mesa. Rio comigo mesmo. Eles se sentam próximos e
falam sobre o que adolescentes falam: escola, amigos, festas,
pequenos bens de consumo, fofocas, filmes, livros.
Entre
esses papos, percebo que as carícias continuam. Não intensamente.
Não é algo sexual de provocação em público. É um jogo de
descobertas. Quando ele comenta algo que ela gosta, o abraça e num
desses momentos sussurra aos sorrisos algo em seu ouvido. Percebo
nitidamente o quanto as garotas são mais inteligentes que os
garotos. Ele, seja pelo que ela falou, ou por estar em público, fica
um tanto enrubescido. Mas sorri, de forma ingênua, meio pueril. Ela
tem mais iniciativa e fogo. Mas não é lasciva. Está se permitindo.
Não preciso de mais de dez minutos para perceber, que é mais madura
e decidida do que ele. Ainda que o caminho das descobertas seja para
ambos. O rapaz é acanhado, mas está apaixonado. Os olhos brilham,
quando se falam. E se olham profundamente olho a olho. Quando outros
rapazes passam perto, mesmo que não olhem para ela, o garoto a
abraça. Como um cão de guarda mostra sua defensiva a dentes vistos.
E o que reforça seu vínculo é o que denuncia sua insegurança.
Se soubessem que talvez estejam vivendo o melhor de suas vidas, de um jeito tão simples e ordinário talvez não ficassem numa mesa de shopping center. Mas o caminho de cada um, a si próprio pertence. Acho que me vi um pouco nessa cena. Quando jovem era meio lento para perceber e compreender as coisas. Nessa idade tinha coração bom e puro. Luto para manter isso em mim, e não me perceber morrendo hora a hora, dia a dia, semana a semana, afogado em meu próprio cinismo. Observar a vida se desenrolar nessas ocasiões é como observar a vista de um trem em movimento. Você abre uma janela, percebe o que passa, e pensa no que ficou para trás. Olho para o celular, e a “coleira” avisa que é hora de voltar. Passo pelos garotos. Estão absortos roubando fritas um do outro. Rio comigo mesmo. Quanto tempo mais será que essa história durará? E se o término vier no tempo, quem estará chorando? Ou como será a escolha da escola dos filhos destes? Que o futuro deles, chegue. Quando de fato vier e tiver de chegar.
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