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Torres

Tão longe, tão perto. Eu lembro de olhar da janela do quarto que dividia com meus irmãos, na casa de meus pais. Era um terreno alto, acima dos demais, lote 28, quadra B, quando mudamos para lá em idos de 1984. Dava visão para boa parte do bairro. Loteamento novo, que á anos atendia pelo nome de Fazenda Mitsutani. Ainda tinha essa cara de fazenda naquele tempo, muito mato, eucaliptos, córregos não poluídos, tudo o que a molecada podia querer para voltar o mais rápido possível da escola e aproveitar o dia, mesmo eu sendo "nerd" o suficiente para ficar em casa lendo e desenhando... E quando no começo da rua, eu olhava ao horizonte eu via longínquas as torres da Avenida Paulista.
Elas estavam lá, entre as nuvens na distância, entre o mormaço e a fuligem do centro poluído, no meu livro de história e geografia ao alcance dos dedos que viram uma página, mas, escondiam-se na neblina da manhã, quando eu ia para a Escola Fagundes Varella, toda manhãzinha. O sonho de concreto armado tão longe, mas tão visível de minha casa distante. O asfalto na rua era um sonho, e como alegria de pobre dura pouco como diz o ditado vulgar, choveu muito naquele mês de abril. Para não ficarmos envergonhados de nossos tênis enlameados ,minha mãe amarrava pequenas sacolas plásticas de supermercado em nossos pés, para que chegássemos pelo menos com os pés limpos no colégio. Era uma caminhada razoável, molecada toda junta é sempre dor de cabeça, e eram tantas campainhas de casas tocadas seguidas também
de muitas correrias. A minha preferida era da casa do Flávio (que anos mais tarde montaria comigo meu primeiro projeto de banda, ele comprou minha segunda guitarra, uma gianini sg, assim que percebi que não tinha o mínimo talento para instrumentos musicais...) e de seu vizinho, um sobradinho de esquina. Eu, meus irmãos Léo e Rodrigo, mais minha primeira paixão infantil a Roseli, Aninha, Marcos, Alberto (mais conhecido como Xó) e Adeilton (estes últimos quatro eram irmãos entre si), Éverson, durante bons anos cruzamos o bairro num esquema de diversão que nos fazia esquecer se era longe, se era perto, o que importava era rir, sorrir, e aprontar... Foram anos de fugas de
cachorros, pés de amora roubados de quintais invadidos, brigas bairristas por passar em "território alheio", de colocar palitos de fósforo na enxurrada e apostar qual chegava primeiro no fim da ladeira... O futebol no recreio que recompensava os campeões com um suculento pastel de pizza na Kombi em frente ao colégio no final da aula... Seu Zé acabou com a "pindura" tão logo se deu conta de que todos aqueles moleques suados eram sempre do mesmo time, e nunca apareciam os "perdedores" para pagar os pastéis dos vencedores, e não era possível um time de futebol de salão ter mais de 24 jogadores...

Conforme eu crescia, mais aquelas torres me fascinavam a distância. Chamavam-me, me assustavam, me desafiavam, como um limite distante ,debochando e rindo como se eu não pudesse cruzar o instransponível,invadir o meu não-lugar.Vencer pontes avenidas, e sair do "no man's land" que era meu bairro. Á partir dali, daquele ponto que eu não sabia exatamente onde, estavam as ruas arborizadas, as casas com telefones, o gás encanado, as garotas bonitas, o trânsito, a CIDADE,como dizia minha avó. Eu arranjaria emprego um dia como motorista de ônibus, como eu sonhava, por que assim eu ia conhecer todos os lugares, todas as pessoas, ia abrir a porta para mulheres bonitas com jeito de secretárias que iam me sorrir com seus lindos dentes brancos e suas valises marrons. Eu ia arranjar uma namorada, loira alta, que me esperaria na entrada a faculdade e conversaria de livros comigo.
Que iria ao cinema, que faria eu gostar de teatro, que eu achava uma coisa esnobe mas eu sabia que as garotas inteligentes gostavam. E quem sabe um dia eu ia morar por lá. Deixar meus pais e irmãos com seus sonhos e alegrias. E me aventurar. Ter uma assinatura de jornal, e uma biblioteca na porta de casa, do outro lado da rua de preferência.Eu sabia, eu de toda minha sabedoria de 13 anos de idade tinha convicção disso. Não falava para ninguém, eles iam rir. Como riam de mim e de meus amigos desengonçados e igualmente "nerds", de meu jeito quieto. Mas iam se surpreender um dia, como ficavam sempre surpresos cada vez que eu abria meu caderno de desenho com uma porção de páginas de quadrinhos feitas por mim mesmo...Babacas! Eles nunca sabiam de nada, nunca ligavam para nada que não fosse o real imediato, eles não se permitiam o sonho, então não podiam entender os meus... Foi este ano que conheci Lílian. Estudamos juntos, ela faltava muito, mas gostava de sentar ao meu lado, eu na medida do possível lhe ensinava a matéria que perdia. Sempre estava se esmurrando no pátio com algum moleque mais saidinho. Bem, ela já tinha quase 16, era bem mais alta e desenvolvida do que eu. Seu corpo já demonstrava a mulher que seria um dia. Tinha forma, arredondava-se na cintura, nos quadris e no busto.Tinha cabelos e olhos igualmente castanhos, formando um combinado perfeito de imagem emoldura. O corte do cabelo era tipo Joãzinho, ate comum nos anos 80, e em cada aula, que ela aparecia e sentava ao meu lado eu não conseguia desgrudar os olhos dela. Um dia me perguntou porque olhava tanto para ela. Eu fiquei envergonhado, e disse, "eu gosto, só isso". Ela ficou séria, com um olhar rígido em mim, para numa fração de segundo depois passar a mão espalmada na minha cara e rir, me chamado de bobo. Sempre conversava comigo no recreio, mas não falava tudo o que eu queria saber, nem respondia tudo o que eu perguntava. Eu estava lá para ela simplesmente para que ela se sentisse ouvida. Vi que tinha umas pequenas cicatrizes pelo braço,nunca quis me dizer o porquê ou o como as conseguia. Um dia na hora um pouco antes da saída me abraçou e falou que eu era diferente. Não sei se era para ficar contente, lisonjeado, sabe-se lá, eu me achava gênio entre os outros, mas não entendia nada de sentimentos, que dirá entender as garotas, elas SEMPRE eram muito complicadas. Depois de um tempo começou a aparecer menos nas aulas e vi que sentia sua falta.Apareceu um dia, sentou ao meu lado, mas seu olhar mirava ao vazio e concentrava-se menos ainda que o habitual. No intervalo do recreio tirou uma gilete da bolsa e escreveu a palavra "dor" no braço, sangrou e perguntei se doía, ela disse, "não mais que dentro de mim". Naquele dia a professora Maria Helena cobrou de nós o livro didático que seria estudado. Nos 3 dias seguintes compareceu ás aulas, munida de um livro novinho em folha, ao mesmo tempo que Adriana, outra colega da sala reclamava de ter "perdido", o seu exemplar. Seguiu-se mais um sumiço habitual, no qual Lílian não retornaria mais á Escola. Mais um tempo e a professora Maria Helena devolveria o livro á Adriana, á pedido de Lílian. Encontrei-a meses mais tarde, num ponto de ônibus. Me abraçou e sorriu,perguntei por que não ia mais á escola, e me disse que estava de mudança. Eu sabia que ela morava só com o pai, e perguntei para onde iam. Ela disse que não sabia, e que o pai dela saberia menos ainda. Ela ia morar com o namorado. Esperava um bebê dele, estava muito forte, musculoso com cara de poucos amigos. Quando fui apresentado a ele, quase esmagou todas as falanges da minha mão, me sorriu com certo desdém, era pela menos uma meia dúzia de anos mais velho que eu. Eu já tinha visto ele trabalhando na feira de domingo na barraca de peixe. Anos mais tarde soube que trabalharia para o "poder paralelo" do bairro empregando seus músculos á serviço de assaltos á banco. O ônibus chegou, ela me beijou na testa e me disse "Continue diferente". Era o Praça Ramos , 7651, que sobe a avenida Rebouças e segue até a rua da Consolação, cruzando a Avenida Paulista. Nunca mais vi ambos, espero que estejam felizes.Durante anos passei pelo mesmo ponto de ônibus imaginando-o sem sua casa em algum bairro longínquo depois de terem passado pelas torres da Avenida Paulista. Um dia chegaria minha vez, por enquanto não era hora.

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