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uma noite, vários dias

Da varanda vendo as luzes da madruga ele se perguntava. “Haveria chance?”. Pela primeira vez em muito tempo ele se permitia a dúvida. Desde dias que deixara a estabilidade para trás. Desde de dias em que o companheirismo e a parceria se tornariam uma coisa distante no tempo. Coisa dos dias em que havia com quem dividir. E hoje tudo isso não passa de um amontoado frio de cinzas, de uma fogueira de noite passada. Tempo perdido. Ventava, fresco, seus olhos acompanhavam a movimentação das putas e travestis nas ruas. Senhoras e Senhores da própria vida...Animais evoluídos num mundo de modernidade simiesca. Ele voltou os olhos para dentro do apartamento, a “trepada” mais recente se entregara ao mundo dos sonhos. Tinha um belo corpo, um cabelo muito cheiroso, um desempenho sem precedentes, mas era simplesmente insuportável no quesito conversa. É assim, “Deus em sua infinita sabedoria presenteou os belos com a chance de foder com todo mundo, mas em contrapartida rendeu-lhes a futilidade e burrice proporcionais”, pensou ele. Jesus, como era chata aquela mulher, se para uma boa trepada era necessário aturar aquilo estava disposto á entregar-se de vez aos prazeres pagos. Citações de autores que não leu, de cineastas que não assistiu, “minha recente estada na França”, demônios cale a boca e engula meu pau. Era esse o preço de se trazer colegas de trabalho para casa depois de um happy-hour de bebedeira. Seria mais justo pagar uma profissional, numa troca de favores, no sentido mais estrito do capitalismo, bom serviço, gozo, despedida nada mais. As “moças” na rua o atraiam isso era inegável. Sempre tentou ser no mínimo humano com elas, o mínimo se referia á um “bom dia” nos fins de madrugada, quando a insônia o empurrava para a padaria. E essas moças talvez tivessem uma vivência tão bruta que seria impossível não pensar na vida , em seus aspectos mais reais. Com a vantagem de não lhe atormentarem no telefone, nas horas mais impróprias.
Fechou a varanda, colocou o pequeno gato amarelo para dentro do apartamento, ele roçava-se carinhosamente em sua perna, mas como tudo tem um preço, dava o sinal de que pote de ração estava vazio. Repôs a água e a ração. Apanhou a cafeteira, e pensou : “um homem de verdade pode se entregar á seus vícios”. Os dele eram café e mulheres, sem uma ordem lógica de preferencia. Podia trocar uma mulher por uma xícara de café e vice-versa...ou não. Voltando da cozinha, num olhar de soslaio, viu o disco dos Dead Kennedys próximo ao cd player. “Give me convenience or give me death”. Pensou, nunca foi tão real uma frase de banda punk. Pensou no quanto seu dia a dia era tedioso, no monte de pessoas chatas que roubavam seu tempo. Em alunos preguiçosos. E da necessidade de conveniência que as pessoas precisavam em suas vidas. O trabalho, o maldito dinheiro, o modelo familiar...Nem seu próprio gato, lhe inspirava confiança. Sendo este o único a lhe dar uma merreca de carinho verdadeiro.
Pensou numa pequena história para passar o tempo. Sentou-se ao computador, ligou-o, plugou o head fone, o momento era seu, e acordar a amiga, que provavelmente iria torra-lo durante horas discorrendo sobre expressionismo alemão ou situacionismo, era a coisa mais fora de cogitação do mundo. Em instantes como esse, a melhor coisa é abstrair. Na seqüência de meia dúzia de clics de mouse, Jello Biafra já vocifera suas letras, como que cuspindo via fone. Sorve o café. Escreve. Sorve o café e escreve. Prossegue nisso até o dia raiar. A parceira sai de sua cama, vai ao banheiro, toma banho, passa nua por ele. Ele ainda escreve. As teclas reclamam da velocidade e da força. E Jello Biafra canta “Insight” pela quinta vez consecutiva. Mesmo com o fone de ouvido ligado ele ouve as divagações rasas. “Ela não se toca” pensa. Quinze minutos depois, devidamente trocada, pega a bolsa de chita, tira o fone esquerdo do ouvido dele, e sussurra : “gostoso”. Ele sorri, com o que ele próprio chama de “sorriso cínico número um”, aquele que diz, “gostei, mas não espere outro retorno nem convite para voltar á esta casa”. Ela sai, ele contempla furtivamente o traseiro dela, antes que a porta se feche. Novamente a duvida. Ela paira suavemente como a fumaça de um cigarro mau apagado da garota no cinzeiro da sala. Talvez ela mereça uma chance, pelo tesão. E sente medo de se prender a conveniência.

Duas semanas depois pensou na pequena prostituta que rondava a entrada de seu prédio. Ela sempre rondava o pequeno pedaço entre a Praça Roosevelt, da rua Nestor Pestana e imediações. De tantos “olá” e “bom dia”, ela já não lhe olhava com hostilidade. Durante dias pensou e matutou, até chegar num dia e criar coragem de abordá-la. O olhar da pequena prostituta, ficou firme, como que se decepcionando. Seu rosto dizia “igual á todos os outros”. Mesmo assim topou, afinal de contas é um trabalho, um ganha-pão não reconhecido dos mais antigos do mundo. Combinaram um preço. As restrições eram o sexo anal caso ele fosse dotado. E por mais profissional que ela fosse, gostava do que fazia. Adorava sentir-se desejada. E no elevador ao fitá-lo viu que além de bonito, atrás de óculos e do jeito atrapalhado, seu novo cliente tinha algo que despertava seu tesão. Ela sabia, pois provocava o desejo alheio, e sabia quando isso se abatia sobre ela. Lançou dos olhares mais lascivos, ao que ele pareceu não perceber. Quando entraram no apartamento ela o agarrou, caindo ambos na cama. Na atitude que talvez fosse a mais inesperada para tal situação, ele pega uma nota de 50, paga, e puxa uma cadeira ao lado da cama, e senta-se. “Me conte uma história”, ele diz. Sem ação a pequena puta, diz “só isso? Mas você não quer...?”. Ele fala, “quero uma boa conversa, uma boa história, você pode me dar?”. Com um inevitável desapontamento, e a desconfiança natural da profissão ela discorre sobre sua vida. Falar era seu forte. Era ex operadora de telemarketing. Viera de Campinas. Filha de mãe religiosa extrema, fugiu para São Paulo para tentar a vida e acabou caindo na “vida”. Dado o período do programa, juntou suas coisas, e foi embora. A química funcionara, e como em poucas vezes na vida, ele sentiu a certeza em seu coração. Rapidamente os encontros repetiram-se, sempre com o toque máximo de verdade. Coisa difícil de se encontrar em ambos, já que eram hábeis mentirosos. Esse exercício de dizer a verdade, era uma pequena ilha de sinceridade na vida de ambos. Desde então, encontram-se com freqüência razoável, ele paga o programa, ela desabafa e conta sua história. Noutro dia foi convidado para ir a kitnet da puta. Não recusou o convite, ao chegar tomaram um café, que ela providenciou por ver a cafeteira sempre na sala do apartamento dele. Ela sentada no sofá pergunta inúmeras coisas á respeito dele. O “contrato” firmado entre ambos era de que ela apenas respondesse á ele, tudo o que fosse perguntado. Era uma visita formal, o acordo não cobria esta situação. Ele fala dos divórcios e suas desilusões amorosas. E como não consegue entender o mundo das mulheres e homens. Ela sorri, e continua perguntando inúmeras coisas sobre ele, ao que é satisfeita prontamente. A visita durou o tempo exato de um programa. Quando ele se preparava para sair, ela abre uma pequena bolsa e lhe dá uma nota de 50. Pagamento, justo como ele próprio pensaria. Da rua liga para a colega chata de trabalho. Uma noite chata de conversas sem fundamento lhe aguardava, mas haveria sexo do bom pelo menos, e desta vez sem espaço para dúvida.

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