Abrindo caixas velhas em meu quarto, deparei me com antigas cartas, com fotografias, fitas k-7, demos tapes...Rabiscos em papéis soltos que não teria coragem de cantá-los hoje em dia, pois esse foi o intuito de escrevê-los, outra vida, outra época. Eu tinha muito mais ingenuidade e pureza de coração. Foi como um estalo para me lembrar que não visitava meus pai e mãe á um tempo razoável. Já era o dia da prometida visita. Com algumas destas memórias refrescadas me pus a caminho da casa de meus pais. Era um domingo de outono, pouco frio para se usar camiseta, quente demais para se estar de blusa. Cruzei a cidade de ônibus num meio de manhã, com o corpo satisfeito e cansado por uma noite de trocas e caricias sem compromisso. E uma mente em profusão por memórias e lembranças. Sei como minha mente lida com estas coisas, e como sou totalmente sugestionável por uma musica, levei por isso mesmo, o disc man. Que cuspia Integrity em meus ouvidos. Músicas falando de marchas de mortos, demônios, perseguições raciais, bruta, seca, e que não me deixaria totalmente voltado á mim mesmo. Mas a cada trecho era reavivado um “timming”, meu primeiro emprego, primeira ida ao cinema, nesta rua fui assaltado, naquela outra vi um acidente, a cidade com toda sua imundice estava em mim, em recortes guardados, como as caixas do meu quarto, esquinas, becos, postes, mendigos, putas, outdoors, botecos...Tudo me guiando para o centro do furacão, o epicentro de calmaria ou o fundo do poço. Não nego que foi pela força de algumas lembranças que repeli certos caminhos até a casa de meus pais por muito tempo. Era como reviver os pesadelos, o soco no estômago, a punhalada nas costas, em replay a cada vez.
Tenho o privilégio de ter uma mãe amiga. Muito mais que uma genitora que carregou minha placenta e aturou noites de um choro agudo no ouvido. Nossa simbiose me assusta, como um anjo da guarda, me apareceu nos momentos mais propícios e dividiu suas dores e alegrias comigo. Meu telefone toca, nos dias que estou mais triste, sem eu ter avisado-a. E quando eu tento me cingir de homem de aço, invencível em minhas dores e sentimentos, ela afaga minhas feridas e me mostra que não sou Atlas para segurar o mundo nas costas. D. Maria e Seu Expedito, me servem o almoço, o feijão e seu tempero, a maciez e o cheiro não mudam. Mesmo eu aprendendo como, seguindo sua receita, nunca será assim, nunca será tão saboroso. Vem as batatas assadas ao forno, a lasanha vegetariana, pois até minhas mudanças de hábitos alimentares ela dominou. O almoço termina, meus sobrinhos correm pelo quintal, e meu pai vai tirar sua ciesta. Tem dias que se está mais propenso ao diálogo do que outros. Comento meu dia á dia. De meus regulares emputecimentos para com o mundo e quem me cerca. Paciente ela me olha, me ouve e espera o momento certo. Talvez tivesse esperado por anos ou mesmo alguns segundos entre uma fala minha e outra. Me perguntou se eu acreditava em Deus. Não como se fosse um a cobrança, ou com aquele temor da decepção que eu já vivenciei em outras conversas. Os tempos são outros. Tomei fôlego e o que pude dizer foi que eu tenho uma forma minha de crer, que poderia ser que ela não compreendesse. “Eu não consigo compreender o seu coração”. Inquiri, sem querer ser grosseiro, e percebendo que a conversa levaria á outros caminhos.” Dos meus filhos você herdou o máximo de sinceridade que eu e teu pai temos, mas não consegue perdoar. Você guarda suas dores, falhas e supostos inimigos com mais zelo do que tuas alegrias, e falo isso pois tive mais de 30 anos para te conhecer, onde errei filho?”. Desconcertado ouvi e não sabia por onde desatar os nós. Seria minha memória privilegiada, meu exacerbamento quanto ás minhas paixões? “O rancor é bonito de ser praticado, mas te mata por dentro.” Isso eu ouvi de uma simples mulher. Uma dona de casa da periferia que me criou e espremeu o máximo a vida, tirando de erros e acertos, como o suco que sai da laranja. Ela me falou de meus rancores, e senti o peito doer. Me lembrou de todas as minhas reclamações. E finalizou dizendo que eu deveria buscar ajuda. Principalmente aceitando que as dores passam, e que quem nos fere também em determinadas ocasiões sai ferido também. Eu lembrei de cabelos ruivos e olhos claros. Que se perderam na bruma de meu rancor, que se tornou ódio e vez por outra teimava em arder meu peito. Dias depois vi passar por mim a dona destes olhos e cabelos e pude ver que se eu não renovar o ódio ele vai passar, como passam as manhãs de outono, para virarem noites de inverno, ou amanheceres de verão ou anoiteceres de primavera. Eu sei o quanto isso é piegas, mas não foi um sentimento cristão de benevolência que me vez ver tudo isso. Foi um esclarecimento natural, que vem com o branco que pintam meus cabelos á cada estação. Muito maior do que qualquer sentimento de bom crente, ou de um livro de auto-ajuda vagabundo. Foi uma conversa simples e clara, como eu tentarei levar minha vida daqui para frente, como sempre falei, sempre me prometi e me esqueci, mas agora, mais do que nunca.
Tenho o privilégio de ter uma mãe amiga. Muito mais que uma genitora que carregou minha placenta e aturou noites de um choro agudo no ouvido. Nossa simbiose me assusta, como um anjo da guarda, me apareceu nos momentos mais propícios e dividiu suas dores e alegrias comigo. Meu telefone toca, nos dias que estou mais triste, sem eu ter avisado-a. E quando eu tento me cingir de homem de aço, invencível em minhas dores e sentimentos, ela afaga minhas feridas e me mostra que não sou Atlas para segurar o mundo nas costas. D. Maria e Seu Expedito, me servem o almoço, o feijão e seu tempero, a maciez e o cheiro não mudam. Mesmo eu aprendendo como, seguindo sua receita, nunca será assim, nunca será tão saboroso. Vem as batatas assadas ao forno, a lasanha vegetariana, pois até minhas mudanças de hábitos alimentares ela dominou. O almoço termina, meus sobrinhos correm pelo quintal, e meu pai vai tirar sua ciesta. Tem dias que se está mais propenso ao diálogo do que outros. Comento meu dia á dia. De meus regulares emputecimentos para com o mundo e quem me cerca. Paciente ela me olha, me ouve e espera o momento certo. Talvez tivesse esperado por anos ou mesmo alguns segundos entre uma fala minha e outra. Me perguntou se eu acreditava em Deus. Não como se fosse um a cobrança, ou com aquele temor da decepção que eu já vivenciei em outras conversas. Os tempos são outros. Tomei fôlego e o que pude dizer foi que eu tenho uma forma minha de crer, que poderia ser que ela não compreendesse. “Eu não consigo compreender o seu coração”. Inquiri, sem querer ser grosseiro, e percebendo que a conversa levaria á outros caminhos.” Dos meus filhos você herdou o máximo de sinceridade que eu e teu pai temos, mas não consegue perdoar. Você guarda suas dores, falhas e supostos inimigos com mais zelo do que tuas alegrias, e falo isso pois tive mais de 30 anos para te conhecer, onde errei filho?”. Desconcertado ouvi e não sabia por onde desatar os nós. Seria minha memória privilegiada, meu exacerbamento quanto ás minhas paixões? “O rancor é bonito de ser praticado, mas te mata por dentro.” Isso eu ouvi de uma simples mulher. Uma dona de casa da periferia que me criou e espremeu o máximo a vida, tirando de erros e acertos, como o suco que sai da laranja. Ela me falou de meus rancores, e senti o peito doer. Me lembrou de todas as minhas reclamações. E finalizou dizendo que eu deveria buscar ajuda. Principalmente aceitando que as dores passam, e que quem nos fere também em determinadas ocasiões sai ferido também. Eu lembrei de cabelos ruivos e olhos claros. Que se perderam na bruma de meu rancor, que se tornou ódio e vez por outra teimava em arder meu peito. Dias depois vi passar por mim a dona destes olhos e cabelos e pude ver que se eu não renovar o ódio ele vai passar, como passam as manhãs de outono, para virarem noites de inverno, ou amanheceres de verão ou anoiteceres de primavera. Eu sei o quanto isso é piegas, mas não foi um sentimento cristão de benevolência que me vez ver tudo isso. Foi um esclarecimento natural, que vem com o branco que pintam meus cabelos á cada estação. Muito maior do que qualquer sentimento de bom crente, ou de um livro de auto-ajuda vagabundo. Foi uma conversa simples e clara, como eu tentarei levar minha vida daqui para frente, como sempre falei, sempre me prometi e me esqueci, mas agora, mais do que nunca.
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