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porque trabalhar me fode

Em algum lugar de meu passado recente fui taxado de não ter ambição. Talvez seja por que eu tenha um certa dose de desprendimento em relação ao dinheiro, isso aliado á um orgulho burro e irracional, que emana de mim nas horas mais impróprias. Digo impróprias, pois minha língua trabalha mais rápida que o cérebro. O bom senso tem um alarme muito baixo comparado ao volume das palavras. Sempre me comparo com os que estão no meu entorno, com um descrédito garantido para outra parte, e quando este ambiente é o trabalho isso fica mais acentuado. Eu esquento minha cabeça em momentos que chefes adoram cobrar, exigir. Este é outro problema que acontece. Se eu sou sensível no trato com mulheres, observando pacientemente cada pedacinho delas que pode me dar prazer, com chefes meus olhos são lentes de aumento esquadrinhando cada rusga onde vejo suas fraquezas, filhadaputices e o quanto são bunda-moles... O que vem a mente num momento instantâneo de recordação são todas as vezes que fiz por merecer ser demitido. Todas as vezes que fiz os trabalhos nas coxas, e todas as vezes que eu empaquei com o trabalho em minhas mãos como a mula que sentada encima do rabo não se move um milímetro. Pressão não é para mim. É foda, eu já vi aliados, amigos, pessoa próximas, sujeitando-se a qualquer coisa em nome da sobrevivência. Eu não nasci para servir. O que me põe acima de todos os outros eu não carrego bolso, nem pode ser roubado.

Olha, para você que esta perdendo seu tempinho (que deve ser caro) lendo isso se quiser continuar bom, mas tenho que confessar várias outras coisas, o buraco é mais em baixo tá ligado? E tem outra, eu tenho conhecimento de causa. Vi anos de obediência passando. Já fui boy, comi marmita. Já puxei cabo telefônico, trabalhei no sol, agüentei chefes torrando meu saco no escritório. Cortei no estilete fatias de cobre para fazer placas de circuito impresso, passando do ambiente de 16 graus, para outro de 40 numa prensa hidráulica. Já abri portão de condomínio para muito filhodaputa inadimplente que pagava de bacana. Uma hora eu dei um basta. Minha formação libertária me põe uma idéia de que todos são iguais, meu orgulho diz que estou acima de vários outros, mau aí se você não concorda. O crime já me seduziu, mas seja por eu ser mole demais ou ter bom senso, o que foi plano um dia caiu no esquecimento. Eu não sou uma asceta, ou budista que não se deixa seduzir pelo material, mas por outro lado aprendi que não preciso de tudo que passa na minha frente. A lógica é a seguinte, eu sou quem não esta na maré. Eu não dou a mínima para o seu baseado, para sua cerveja, para sua teoria, para seus amigos para o seu carro pois eu não sei e não me importo em dirigir. Eu sei de onde vim, quem sou, que eu não fui criado com leite A. Eu nunca tive nada de mão beijada, sempre ralei pra ter o que tenho. Não pago comédia pra puta/puto bem criado. Sei que tenho para trocar em qualquer hora, a munição de idéias aqui é infinita. Sou homem, não moleque. Essa é a linha que separa. Existem os que vivem, existem os que teorizam.

Eu não penso em ter posses e bens. Eu me contento com o meu prazer. Seja ele emocional, físico e etc. O dinheiro do meu trampo é um trampolim para o que eu gosto e necessito não o fim, não o significado da minha existência. Eu tenho uma carteira profissional recheada para provar. Fico entediado, sinto-me menos inteligente e trabalhar muito desperta algo de pior em mim...Uma sensação de necessidade, que eu precise estar ali. Detesto me sentir submisso, detesto me fazer de submisso. Tenho minha ética, ela não esbarra na convivência, não atraso o lado de ninguém, e por isso pretendo me manter só por muito tempo. Quando outras pessoas dependem de você, você dispõe de um pouco de sua autonomia e liberdade.

No geral quem trabalha não percebe mas estabelece uma relação de subserviência similar aos namoros de uns amigos que já presenciei de perto. Os patrões/maridos frustrados com seus problemas de ereção fazem de conta que gostam de foder, os funcionários/esposas fazem de conta que gostam, nunca gozando plenamente, nunca sentindo tesão real com nada em suas vidinhas pacatas e “normais”. Hoje eu fui chamado á uma reunião. Eu, minha chefe e minha encarregada direta. Para ser franco elas são pessoas legais. Isso é uma coisa rara, qualquer puto ou puta que tenha alguém sob seu comando tem a sensação de ser um “senhor” do destino alheio. Pediram que eu discorresse sobre os meses no trabalho, se estava gostando. Quando falei de tudo que eu gostava ( e tinha uma dose razoável de mentira nisso), vi ambas se entreolhando. Ali naquela fração de segundo, eu sabia que minha batata tinha assado, e elas não me queriam mais no quadro. Resolvi facilitar o serviço delas, dando a munição para que me fuzilassem. A certeza foi tanta que eu aproveitei para dizer o quanto eu estava perdendo meu tempo, desperdiçando meu intelecto privilegiado, fazendo rotina administrativa. Que mesmo sendo bem pago por 4 horas, que eu estava entrando em processo de emburrecimento. E é muito chato ver gente muito menos gabaritada do que eu ganhando demais, para fazer nada. Isso deu o espaço que ambas precisavam para formular a sentença. Ela veio previsível como a chuva que vem com o fechar das nuvens. Foi implacável, ficaria 2 semanas e finda meu contrato. A ong onde trabalho é bem legal, mas eu no momento fazia o serviço mais corno, imbecil e estúpido. Se é para se prostituir que seja pelo menos por muito mais. Se for pra ficar fudido e voltar para trás não tem problema. Nesse mundão, eu sou mais um jogado, bicho solto. É bom cuidar apenas de mim mesmo.

Comments

Seu texto é maravilhoso. Pulsa. Tem cheiro de libertação. Eu gosto.
Voltarei sempre.
Abraço
Lu
Viny Rodrigues said…
Você é perigoso, traficante de idéia perniciosas e você sabe o quanto eu me identifico com isso!
Como já dizia aquele velho jornaleco (lembra?) "Enterrado vivo, mas mesmo assim VIVO"

Abraços malander!!

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