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Portaria

Blam! Era o portão batendo. Aquele merda de morador deveria estar chegando bêbado depois do trabalho e irritado por Ele estar fechado ( e cochilando) na guarita. Por não tê-lo visto e demorar para destravar o mesmo. Era isso. O morador do bloco A, apartamento 23, era adepto da cachaça. Sem controle. Antes soubesse ele que seu vizinho do bloco D, que ficava ao lado, e tinha vistas para seu apartamento sempre estava na companhia da mulher do descuidado alcoólatra, nestes longos períodos de boteco. Cumprindo a função que ele como macho não tinha condições. E ela quando recebia o “doente” maridinho, o abraçava, enchia de carinhos, ainda com o cheiro do outro no corpo. Ainda mais o amante sendo um tipinho sem classe, um borra bodas qualquer que adora vangloriar-se das conquistas. Tem por diversão interfonar na recepção para perguntar o que sabia, pelo puro prazer de encher o saco.
Ele, agora um humilde e mau-humorado porteiro, tinha acabado de se separar, o rancor afiado como uma faca na língua, a lembrança doída e quente como uma cicatriz de fogo no peito. Ficar na portaria do condomínio não era a carreira que Ele queria. Tem todo o charme de observação do zôo humano que adora, e também os efeitos colaterais. Agüentar fofocas, crianças mal educadas, moradores esnobes, entregadores folgados. Além de ser advogado, testemunha e oficial de justiça, em pendências diárias, “fulano esvaziou meu pneu”, “beltrano esta correndo no andar de cima e não me deixa dormir...”, “o zelador está?”, “ por que não posso ter 2 carros no estacionamento??”. Enfim, por mais estanque e ridículo que fosse o trabalho, cada dia era diferente. Tinha tempo para ler (e “1984”, “a metamorfose”, “a peste” foram excelentes companhias em noites intermináveis, interrompidas apenas pelos motoboys entregando pizzas...), para matutar sobre seu futuro, re-planejar de voltar a estudar, olhar a deliciosa moradora solitária do Bloco E, saindo do banho (nua e de janela aberta), e ainda tirava uns trocados, que lhe garantiam, livros, discos, idas ao cinema e teatro. Era uma época solitária, mas ao mesmo tempo feliz. Sentia-se livre como um pássaro.
Mas seu saco andava bem cheio. Cumpria aviso-prévio e estava disposto a não agüentar as chatices de sempre e não engolir desaforos por conveniência. Morava com os pais, o máximo que podia lhe acontecer, era ficar um tempo sem grana e ter que se sujeitar á rodar de agência em agência atrás de outro trabalho. Era hora para o troco.
O bêbado caminhava trôpego, até a entrada de seu bloco. Ele como os porteiros de todos os turnos, sabia que o D. Juan sempre descia pouco tempo antes do bêbado abrir a porta, e saia pela porta lateral do andar. Justamente para não se esbarrarem. Por um “acaso” neste dia a porta “estratégica” estava fechada, e a porta principal onde o alcoólatra, se enrolava para achar a chave, estava aberta. Esta fração de segundos foi o tempo suficiente pra que ambos dessem de cara um com o outro. Na verdade, não necessariamente de “cara”. O choque causado pela visão, de sua esposa de quatro na cama, com o fanfarrão peludo engatado como cão atrás, devolveu certa sobriedade.Não foi necessário ver os sopapos e tabefes que sobraram para todos. Os móveis todos se espatifaram, e o pastiche de Casanova saiu correndo seminu, com nariz sangrando, aos berros enfurecidos do agora “ex-bêbado” em seu encalço. Metade do condômino acordou, e obviamente a história acabou no distrito policial mais próximo.Saldo geral: Um fanfarrão talarico de mudança, e uma adúltera que volta a ser uma senhora respeitável.
Na manhã seguinte o troco continuava. O morador do 12 C, picareta de plantão havia ofendido O porteiro, na semana anterior, quando este entregou-lhe uma carta de intimação judicial por estar inadimplente. Mestre do trambique, estava com um “gato” ligado no relógio de luz á 6 meses. Um credor irritado estava em seu encalço, caloteiro se escondia como o diabo da cruz, ainda mais do oficial de justiça que viria retirar o automóvel não pago na primeira chance. Pois bem que o dia começou com uma visita feita por um técnico da companhia elétrica acionada por uma ligação anônima. Além de gelar o banho matutino de uma determinada pessoa e lacrar o relógio de luz (pra que não surgissem novos gatos) deixaram por debaixo da porta do apartamento uma conta imensa, cobrando juros sobre juros de meses caloteados. Pouco depois, quando os ponteiros do relógio mal chegavam ás 9 da manhã, o oficial de justiça, cumprimenta o Porteiro, e retira uma chave na portaria que dá acesso ao bloco do devedor. Com a luz cortada bateu na porta, o idiota o atende ainda de toalhas e molhado. Não há tempo para delongas, o mandato de apreensão é entregue, a chave do Omega que enfeitava a garagem é retirada do molho de chaves na porta. Agora é uma reluzente lembrança que vai se deteriorar no pátio de algum posto de apreensão até ser leiloado. O telefone da guarita toca. “Alô?”. “Quem autorizou o oficial vir ao meu apartamento??!?!!?”. “Ele tinha um mandato, não posso impedi-lo eu seria preso”.. Mas VOCÊ deveria me avisar!Vou fazer com que seja demitido!”“.Não se dê ao serviço, eu já me demiti, além do mais, liguei, mas ninguém atendeu, o senhor esta tendo problemas com eletricidade?!”. Um silêncio furioso se faz do outro lado da ligação. Quando o fone toca o gancho um sorriso se faz no rosto do jovem porteiro. Apesar de ficar sem dinheiro, tinha uma satisfação imensa em ver o dia passar e saber que não teria que agüentar uma porção daquelas pessoas.
Faltava alguém ainda. A recém divorciada do bloco F. Esnobe, arrogante, sempre passava, pegava o jornal e sequer respondia um bom dia. Ela precisava ouvir algo. Ela descera no horário de sempre. E as pessoas em condomínios não percebem o quanto levam vidas previsíveis guiadas pela rotina, como ratinhos brancos correndo dentro de uma gaiola. Ela se aproxima do balcão. Seus ombros relativamente largos, os lábios carnudos, os cabelos vermelhos encaracolados e compridos que compunham um excelente conjunto com a cintura fina, e o quadril que ela trabalhava com tanto cuidado na academia de ginástica. Este ar altivo o excitava. Ele teria que falar algo para ela. Ela pede o jornal. “Bom dia” diz ele, Ela sequer o olha nos olhos. Quando faz menção de apanhar o maço de papel, Ele o solta no chão. Ela diz. “Você ficou louco?”. O script estava pronto na mente. “Hummm, então a senhora sabe falar? Ótimo saber isso. Nestes meses todos pensei muito para falar-lhe isto. Porém fiquei pensativo quanto a possibilidade de não conseguir articular uma conversa normal com sua pessoa.Por você não ter capacidade de compreensão. Sou expansivo, conversador, não preciso ser seu amigo, mas ser educado com as pessoas é uma regra mínima no convívio social, que todos devem ser cientes. Eu acho que você tem lindos lábios. Deliciosos são os melhores adjetivos, porém, imagino que você seja oca. Uma carcaça linda, porém vazia, amarga e sem vivacidade. Você esta morta, pois se até aquele borra botas te chutou, é por que você não vale , um grão amassado de feijão que aquele infeliz pacote de merda, que um dia ousou se identificar como seu marido, pôs na mesa da sua casa. Portanto, e concluindo meu pensamento, se um dia precisar de um HOMEM, na compreensão mais simples, baixa e verdadeira do termo. Um MACHO, me ligue posso pensar no seu caso. Antes disso. Um bom dia, encaminhe sua reclamação para a Administradora. Estou indo embora este foi meu último turno. Passar bem.”.Ela permanece estática. Ele pega seu exemplar de “O Uivo” , de Allen Gisnberg, coloca no bolso da surrada calça jeans. Abre o portão para o porteiro que assumirá o turno seguinte, e vai embora. Ela permanece muda, uma leve lágrima escorre por um de seus olhos.Ao ganhar a rua, mira um grupo de andorinhas cruzando o céu em bando. Hora de mudar de ares. Um portão se fecha atrás de suas costas. Os enormes caminhos da possibilidade se abrem á sua frente.

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