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sujeito homem

A virtude de se estar na academia é saber a quantidade infinita de livros que vai ter de ler durante a vida. Se este for o interesse para com a carreira. Buscar erudição... Este é o pensamento que roda dentro de Sua cabeça, nos últimos meses. O de que tem uma tarefa imensa e invencível pela frente. A teoria se enfia de tal forma, que nada mais parece existir de fato. Nada sem a explicação da lógica que alguma alma afortunada e abençoada pela “benção” da universidade. Sua vista cansa entre linhas tortas e profundas como um pires, porém muito bem embaladas e devidamente empoladas para parecer o mais “profundo e rebuscado” possível. A petulância. A arrogância. A prepotência de quem “vê” e não vive. Textos que querem explicar os meandros da sociedade, vistos por uma analise distante, fora da relação imediata, do esbarrão na calçada. Sua vista dói. As costas também.Os ponteiros do relógio na parede da biblioteca, sempre agem contra. Rápidos quando Ele não tem tempo, lerdos quando desgastado. Uma conjunção de vários fatores lhe trás uma porção de sensações físicas incômodas. Mas nada é mais incômodo, do que a perda de sua paciência.

Ele sabe que a vida pulsa nas ruas. Onde nada possa de fato ser explicado, de forma simplista, ou complexa em teses de páginas infinitas. A vida é complexa. Na periferia distante de onde veio. Do lugar onde Se criou, o respeito se conquista, não se compra. Palavra empenhada não volta, e farsante paga, com o pescoço ou a vida se preciso. “Seja sujeito homem”, já dizia seu pai quando era garoto. Desviando os olhos das páginas xerocadas, Ele olha a janela, próxima á estantes apinhadas de livros. Um por do sol dourado joga sua memória pelo menos 20 anos no passado. Ele vem para casa do colégio, a camiseta do uniforme esta esgarçada na gola, rasgada em vários pontos. Uma mochila cheia de cadernos nas costas, uma das alças esta arrebentada e mal amarrada sobre o ombro direito. Seu pulso dói. A testa formiga e o nariz sangra. Pescoço, canelas, cotovelos ralados.Um choro contido aperta sua garganta, pois sabe que o que vai enfrentar em casa é pior que o que enfrentou no portão da escola. Sua mente repete sem parar, “Homem não chora” como se a repetição fizesse o nó na garganta e a dor na barriga (que veio com a ansiedade) irem embora. E elas não vão. Ele queria que o caminho para casa fosse maior agora. Que não tivesse que ver as vizinhas fofoqueiras, olhando e cochichando. Uma delas, intrometida como sempre, começou a perguntar “O que aconteceu menino?”, “Caí da escada.”, Ele sabia que não ia adiantar inventar história nenhuma, e que a esta altura sua mãe já sabia e o esperava. Dobra a esquina, a menina da casa próxima à curva, a mesma que ele tem observado com um estranho interesse a semanas o vê e mostra um rosto surpreso. Tudo o que faltava para deixar seu dia melhor.

Agora mais próximo de casa Seu estômago parece se juntar em um único nó com a garganta. Sufoco. Um filme de imagens aceleradas passa por sua cabeça. O sinal tocando. A hora do recreio. A quadra apinhada dos moleques de todas as salas. A escolha dos times. O garoto da sétima série, que não aceita esperar para jogar. O “marmanjo’ entra mais por imposição de tamanho, do que por ser escolhido propriamente. Ele, é escolhido. A dividida onde seu amigo é derrubado e rala o joelho no piso rústico e esburacado. O grandalhão sorri, esbraveja e grita palavrões aos sete ventos. Um calor que corre Seu corpo e explode irracionalmente. O pontapé proposital no joelho do falastrão. O burburinho na quadra. Os moleques dos dois times que fazem um semi-círculo, repetem um ritual corriqueiro em qualquer colégio. Os oponentes devem ficar só ao meio, e resolver a pendência. Toca o sinal. A inspetora que chega e os separa. O pito na frente de todo mundo.Todos se fazem de desentendidos.A bronca especial para o garoto problema.A inspetora ainda, faz uma cara de decepção citando o nome Dele, sabendo Ele, que tentava ela ser “justa”, no cumprimento de sua função. A ameaça que vem no silencio, e no apontar do dedo gordo, que no gesto reto mostra o lugar, o portão, que com o girar dá o tempo, depois da aula.

Ele esta de frente para o portão de casa. A cachorra de estimação pula alegre como todos os dias, latindo, lambendo-o com o afeto que só os animais tem de verdade. Seu coração esta acelerado. As mãos suam, e as pernas tremem. Ao subir a escada. Ouve a voz do pai. A mãe ao notar sua feição deixa os afazeres de lado e vem acudi-lo como se visse o próprio Cristo, como se este na última hora exausto do teatro trágico, recusa se a permanecer na cruz e toma-se o rumo de casa. Ele explica, já sabendo exatamente toda as frases que vai ouvir. E ela repete todas, segura os ombros Dele, chacoalhando-o, reclamando, repreendendo. Pela primeira vez, em sua existência de garoto ele não bate de frente. Esta cansado e abatido demais para isso. Ao passo que a voz da mãe fica insistente como uma ladainha carola, Seus pensamentos flutuam. Sua mente sente a dor na testa. Foi um soco direto, de frente. Ele saia ao portão, ladeado pelo colega que machucara o joelho. Parecia que entrara em pleno Coliseo Romano, um estádio antigo que ele vira um filme, mas que tinha lutadores ao invés e jogadores de futebol. Por uma fração de segundo ele ainda pensa se os jogadores não eram lutadores no fim das contas. Como de praxe, quase todo corpo estudantil do colégio estava ao portão. Ele não via o oponente. Ele sente um tranco forte na mochila, ouve o rasgar da alça. Quando vira pra o lado, vê os mesmos dedos gordos, cerrados vindo em direção de seu rosto. Reflexo ou não, ao mover o rosto, sua testa é atingida. O colega de joelho machucado até tenta acudi-lo, mas recebe um chute violento no local ferido. Ele é erguido pela camiseta que se rasga. A frase é nítida: “ Isso é pra você nunca se meter comigo moleque.” . A dor de cada golpe amplifica os gritos. Os risos. Ele nunca gostou que rissem dele. O calor novamente. Na catequese falariam em Davi contra Golias, e sabia os códigos de conduta do dia a dia. Se saísse ferido ou sangrando, não poderia andar de rosto erguido no corredor. Para os garotos, você pode até tomar muitos socos, mas não há nada pior para a reputação que um olho roxo, ou uma boca que sangra em público. A voz do pai estava na sua cabeça. “Seja sujeito homem”. Ele se lembrava de quando era menor e o pai falava brincando como se fosse um boxeador, “ Olhe nos olhos, você vai sentir a hora, e quando for, seja rápido e acerte o olho ou o nariz, isso dói e vai deixar qualquer um grande ou pequeno, desnorteado...”. Aqueles segundos foram longos, mas seu braço teve a velocidade do relâmpago. O nariz de Golias sangrava. Enquanto corria com a mão no rosto sem saber, o como isso podia lhe acontecer. A multidão se satisfez e começava a descer das árvores, muros e ir para casa. Um amigo ampara o outro e dá um nó mau-feito na mochila.

“Estou falando com você!” era a voz da mãe. O pai se aproximara, trouxera água boricada, mertiolate e todos os cacarecos farmacêuticos que mãe sempre guardava numa caixinha.. Estava quieto com o cigarro no canto da boca, passando algodão. Com o mesmo silêncio olhou a mãe nos olhos, balançou a cabeça e ela se retirou. Sabia que era hora do pai falar com o Filho. O pai senta-se ao seu lado. O Filho relata tudo. Quieto, o homem jovem, marceneiro como José, pai de Cristo, olha para seu pequeno boxeador e ri. “Quer dizer que você acertou o nariz dele?”. O Filho acena com a cabeça, ainda sem entender o motivo das risadas. Os olhos castanhos do pai, miram o rebento, e diz: “ Hoje você mostrou que esta um pouquinho mais homem adulto. Brigar não resolve. Na rua ainda, podia ter sido atropelado.Mas não fuja do problema. Olhe a situação de frente menino...” . “Mas eu não era homem até agora pouco????”. “Quem te garante algo sou eu, nem barba na cara você tem ainda.”. “Quer dizer que eu vou ter que ter barba na cara?”. “Não só tem que ter para poder se barbear...Mas nem precisa ter pressa, pois daqui a pouco você vai lavar todo o quintal para largar de ser briguento...”. Ele ficou anos sem entender. Mas a memória despontou um sorriso em seu rosto. Estava na biblioteca novamente, e tudo parecia muito mais claro do que antes.
Um exercício de auto-afirmação é feito todo dia. Repetido por anos. De preferência pela manhã, como a oração á muito tempo esquecida ou apagada da vida. Nunca esquecer. Nunca retroceder. Aceitar a irmandade, mesmo que os irmãos e irmãs não compartilhem este sentimento. Se reconhecer, na faxineira que limpa o escritório. No motoboy na fila do banco, na “tia” de pele escura para quem sede o lugar no metrô. O problema, a adversidade, o saco cheio do dia a dia, sempre ia cruzar os passos com os seus. Nem Durkein, nem Weber, nem Kant, nem Marx, Nietzche , Barthes, Foucalt, Miller, Hesse, Kafka, Engels, Bakunin ou Malatesta, nenhum herói ou escritor que conhecesse de uma lombada de livro ia pode ensinar a viver.Eles tiveram seus dias e próprias dores. Juntado os textos xerocados ergue-se ciente de uma resposta que O anima.. “Eles não sabem de nada”.

Comments

Vêu... said…
‘”sujeito homem” definitivamente não tem como saber de algo se não sentir,
tocar...olhar...
isso ninguém explica ,sabe aquelas perguntas que fazemos que nunca ,nunca mesmo achamos respostas?
é isso! os livros vários livros, xerox e blablabla Só conseguem mostrar o que outras pessoas passaram não o que estamos passando, ate semelhança vemos e acreditamos que aquilo era p ser sua vida que só pode ter sido roubada de vc, mas não é . vai entender...vai entender...

Vêu.

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