A vaidade é algo que tempera os dias que passam e correm no fluxo das semanas. Sentir-se desejado ou querido, é algo que faz bem á qualquer alma. Numa cidade como esta, um amontoado disforme de concreto, apinhado de seres perdidos é como um alento. Vivemos o signo da paranóia. Da neurose. Seja vencer o trânsito e chegar no seu lar. Seja trepar com a gostosa do escritório. Seja comer um sanduíche numa hora de muita fome, ou o impensável, de mandar a merda o chefe que fode sua vida. A cada não realização, a neurose aumenta, transformando esta distância do desejo num abismo cada vez mais instransponível. E a biologia atesta e comprova, com uma porção de patologias que advém deste ritmo doentio que vivemos. Eu poderia como amigos meus dizer que é, o “dilema da pós-modernidade”, mas não gosto de usar o “conhecimento”, a pseudo-erudição de cinco semestres da faculdade, para empolar minhas frases. Valorizo o que descubro no meu dia a dia, acima de análises teóricas e distanciadas do viver imediato. Mas voltando ás minhas divagações acerca da neurose, ela é o simplesmente o espaço entre o que se deseja e o que se pode de fato ter. A vaidade para mim, entra como ingrediente que faz isso ser um pouco menor. É um analgésico para quem morre de câncer, eu sei. Seja por eu estar falando aqui de mim mesmo. Seja no meu trato coletivo diário. O tornar-se objeto do desejo alheio. A sensação de centro de alguma atenção.Ou ainda a ilusão de poder controlar uma situação, transmite uma percepção mais aguçada da possível concretização do desejo, em sentidos que são mortos, ou vagarosamente extirpados no dia a dia.
Adoro observar as pessoas, em especial as mulheres. Já me permiti andar só, por várias tardes desocupadas e observá-las.E como agora ficar sentado junto de algum balcão de bar. Entre a fumaça, o burburinho, e o estalido dos ordinários copos americanos. Atento para seus corpos e a transcrição de suas mentes, nos movimentos mais sutis. Em bando ou solitárias, como andam, se portam ou concorrem entre si. Como se vestem umas para as outras. E por outro lado a maneira especial como conseguem, assim como eu mesmo, cobiçar um corpo que lhe atraia. Como atuam diante de seu objetivo e como algumas se frustram na falha. Tirei isso da conversa com uma porção delas. Assistindo-as em convivência direta ou indireta. E sei que não sou tão sábio á ponto de formular toda esta teoria. Muitas já foram tão louvadas por poetas, outras levaram a ruína reis. E muitas foram perseguidas em sua inteligência, assediadas sexualmente nas suas formas mais variadas. Sei que isso é um devaneio. Ou um efeito que não sei se vem de minhas paixões.
A sensação é muito boa, quando por alguma freqüência mental desconhecida, percebo-as alertas, de que estão sob observação e dirigem os olhos curiosos de volta ao ponto onde estou assistindo seus movimentos. Reações diversas, aquelas que se escondem como lêmures na pradaria de concreto, ou as que te desafiam com o olhar felino. Você nunca ouviu que o gato é único de fitar os olhos de um rei? Algumas mulheres são felinas na sua essência mais íntima. Sensuais, esguias, inteligentes, desprendidas, caçadoras, astutas, livres ou interesseiras, com alguns destes adjetivos ou todos juntos.
De onde me sento, vejo o bando que ri embriagado pela cerveja. Elas riem, algumas beijam-se provocando a libido dos homens ao redor. Uma parcela se enoja, outra se intimida. Eu me excito. Aceito minha porção animal, e o que me atrai. Continuo minhas observações, o copo de refrigerante está terminando. Ele cobre todo ar de vulgaridade que o ambiente têm e precisa nestas linhas preguiçosas. O balcão grudento, os pôsteres de propaganda de cerveja engordurados pela fritura. Eu poderia escrever nestas linhas que era um vinho barato, ou um wisky, mas tenho meu caráter para não copiar os autores que me influenciam. Sou sincero com você que gasta teu tempo lendo isso aqui. Não gosto de álcool. Não dou a mínima para estas celebrações. E ainda não entendo estas “convenções sociais”, embebedar-se por alegria e tristeza. Foda é a ressaca, pois afinal já bebi muito e sei do que estou falando. E odiava quando elas aconteciam. Não, os grandes viveram sua vida honestamente mesmo que na merda.E é isso o que tiro de lição deles para fazer o que faço, e ver o mundo por meus olhos, e devolvê-lo por meus dedos. Não sou Poe a ser encontrado na sarjeta bêbado no fim de meus dias futuros. Não serei o guia espiritual como Hesse. Ou o viajante descobridor de mundos como Kerouac. Posso ter ficado muito doente como Kafka, mas o tempo e a ciência foram meus aliados para não ter o mesmo fim que ele. Ser um escritor maldito corresponde á um molde estritamente digerido pela nossa sociedade. Assim como ser um escritor “bem quisto”. Não sou o próximo Bucowski, nem Miller e etc, e é por isso que você lê agora linhas simples sobre meus dias. Sejam elas geradas á base de refrigerante ou um café com açúcar na madrugada. Sou no fim, sempre um rabiscador, sem grandes metáforas, honesto comigo mesmo, mentiroso para com você talvez. E a “senhorita dispersão” não consegue desviar meu olhar da mesa cheia de garotas.
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