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Para Além do Prata. Parte Dois.

Empurrou a porta e deparou-se com uma escada. Era feita de algo que parecia ser mármore, branco, mas gasto e desnivelado pelo uso, denunciando que seus tempos de glória estão perdidos em algum passado. As paredes laterais eram forradas por uma madeira envernizada, depois de uma pequena curva chegava-se ao fim da escada num balcão.Na realidade era um apinhado de coisas, não necessariamente um balcão. A base era feita de dois enormes barris, o tampo uma madeira grande e retangular que um dia poderia ter sido uma porta. Além do computador e um pequeno monitor, com a visão de uma câmera estrategicamente colocada por sobre a porta de entrada. A tábua estava apinhada de toda sorte de quinquilharias, cartões postais, anúncios de outros hostels, doces, revistas velhas, e uma árvore de natal que não via a hora da morte, com os enfeites decaídos e tristonhos na chegada de janeiro. Ao fundo uma geladeira com porta de vidro, com vários tipos de bebidas. Cervejas, refrigerantes, sucos. Em meio a esse cenário um tanto esquizofrênico, um rapaz branco com um nariz consideravelmente grande e cabelo encaracolado cortado tipo “mullet”, o saúda com um “Hola!” e um sorriso amistoso. Enrolado em um péssimo portunhol, Ele cita o nome dos amigos que o aguardam. O atendente narigudo pede que fale em português mesmo, pois entendia Seu idioma. Solícito o jovem abre um livro, de registros e o encaminha para o quarto. Faz que sabia de sua chegada, mas seu olhar denuncia que não.

O caminho até o quarto é extremamente curto, uma vez que quase todos os quartos nessa construção, davam para o “hall” de entrada, um tipo de sala central. Além do mencionado balcão, existiam um sofá ao lado da escada e mais 3 computadores, onde alguns hóspedes com cara de norte americanos conferiam seus e-mails. O Hostel, um velho casarão de esquina, com 6 quartos, dois banheiros, duas salas, tinha uma decoração peculiar e um “q” de hippie, cocares indígenas, tapeçarias com motivos de futebol,bugigangas que rememoravam os pampas e o tango, tudo tinha um ar de improviso e remendo, um jeito de quarto universitário, de “república” jovial e colorida. Talvez tenha tomado essa aparência por ser um lugar de passagem, e de sua clientela ser predominantemente jovem. Por incrível que pareça a soma de todos estes elementos passava um ar agradável e aconchegante.

Batendo na porta o atendente sorri para Ele. Talvez seja um traço de afeição, pensa. Após a segunda seqüência de batidas, T. abre. Sem camisa, de bermuda, saúda com um comprimento e um abraço. Jú, sua namorada esta deitada na cama, nitidamente cansada. Após os cumprimentos, discorrerem mutuamente sobre como chegaram. Após isso se atém a um problema imediato. O quarto reservado meses antes era triplo. E o quarto em questão era duplo. Voltando ao hall ou sala principal, com o mesmo sorriso e disposição, o atendente, explica um pequeno problema de trâmite e reservas e que o quarto triplo em questão estará livre no dia seguinte. Um check-in é feito, o nome Dele é inscrito no livro de hóspedes. Por enquanto uma cama á mais é colocada no quarto. O dormitório em questão era relativamente pequeno, mas na medida para comportar três pessoas, ainda que um pouco apertadas. Possuía além das camas, um armário, um ventilador (item de primeira necessidade dado o calor, e o mormaço da estação) e uma pequena escrivaninha com sua respectiva cadeira. Ao invés de uma janela, uma porta dava para um balcão com os seguintes dizeres: “ no esta permitido asomarse a los balcones / not allowed to stay in the balcony “.



Conversaram um pouco mais, até Ele notar que T. e Jú estavam praticamente apagados, e que falava quase que sozinho. Riu consigo sem que ninguém notasse.Aproveitou para trocar-se, e substituir os tênis por um par de chinelos, a calça por uma bermuda. Comeu alguns biscoitos que estavam sobre a escrivaninha, junto á bolsas, sacolas, roupas, e uma garrafa vazia de cerveja Guiness. Vinha de muitos quilômetros, e só agora definitivamente estava parando. As paisagens rodavam sua mente. Mapas noturnos com pontos luminosos. Desenhos feitos para serem apreciados do alto. A cartografia do homem em horizontes que só Deus poderia aferir com seus instrumentos. Da mesma forma que os amigos apagaram, o cansaço se batia sobre Seus músculos. Um cansaço que surge mais pela tensão, e atenção demasiada á tudo (para se localizar, para não se perder) do que por esforço. A noite já ia avançada, e o sono não vinha. Na cama com o disc man, olhava o céu num azul escuro que beirava o negro, porém límpido com nuvens deslizando calmamente no reflexo de uma lua que fugia á seu campo de visão.

Levantou-se e foi ao banheiro. Não havia mais ninguém além do atendente na sala principal, perguntou onde eram os sanitários e notou os computadores sem nenhum usuário. Mijou, examinando as paredes brancas, os boxes para banho. Lavou as mãos e ao sair, viu que paralela á sala principal existia outra, ao fim de um pequeno corredor. Era muito maior que a primeira com um pé direito alto, o que levou-o a deduzir que existia um grande sótão. Uma t.v. enorme era assistida por uma mesa, uma cafeteira automática e alguns sofás que como os degraus de entrada, tiveram seus dias de glória sabe lá em que tempo. No outro extremo ficavam um bilhar e uma mesa de ping-pong. Viu um orelhão, mas dada à hora, e sua experiência no aeroporto, decidiu outro meio para comunicar-se.

No computador acessando a internet, estranhou a disposição de algumas, sem que isso fosse real empecilho. O cursor saltava piscando, abrindo páginas até atingir a de uma operadora de celular. Digitou o número de quem aguardava uma resposta sua. Alguém que por alguma certeza, que só se vem dos sentimentos, sorriria ao ver em seu aparelho, meia dúzia de caracteres vindos de tão longe. O pequeno espaço restringia o uso de muitos caracteres. Escreveu:

“cheguei bem, apesar da distancia, e do pouso ser longe pra k7. ta um calor violento, vim ouvindo musica. pensei em ti, sei que dormirei pensando tb, beijos!”

Fechou a janela do explorer, dirigiu-se ao quarto. T. roncava abraçado á Jú. Ambos suavam, abriu um pouco mais a porta e infringindo as ordens escritas no peitoril, saiu ao balcão, olhando a esquina tranqüila e sentindo uma brisa muito suave. Sorriu, imaginando o sorriso Dela ao receber seu recado. Viu como o celular deixava sua função de “coleira eletrônica” para ser o telégrafo do século XXI. Mais rápido. Barato e tão eficiente quanto. Sorria de olhos fechados para a brisa fresca, ouviu alguns cães vagabundos festejando a lua, numa farra coletiva. O sono deu seu sinal num bocejo. Entrou, deitou-se e dormiu.


Acordou com um som muito familiar. Era como se estivesse em Seu quarto em São Paulo, 4 metros acima da rua Darzan. Buzinas, motores, berravam sob um sol escaldante. T. e Jú, noutra posição, estavam amontoados e ainda dormiam. Olhou o relógio de pulso e como que em sincronia entre digital e biológico, este tocou. Sete da manhã, hora que costuma se levantar e pôr-se á trabalhar. Meteu os pés nos chinelos, a velha e surrada toalha de banho amarela retirada da bolsa, foi jogada sobre o ombro. Apanhou uma pequena sacola com creme dental, escova de dentes, desodorante e etc. Antes de deixar o quarto olha da sacada e vê uma fila de ônibus velhos, coloridos, carros, entregadores em bicicletas, guardas de trânsito esforçando-se para controlar a bagunça. Pensa no quanto o “trânsito” é uma instituição metropolitana, independente de qual seja ou onde ela esteja. Na sala principal uma garota assumia o posto de atendente do dia. Era baixinha, rechonchuda, com seios vistosos e um belo sorriso. Ele, descabelado, com remelas nos olhos, o rosto vincado pelo travesseiro, ainda atordoado pelo sono solta um “Hola!” com voz grave e rouca. Ela apenas sorri. No banheiro entra num dos boxes e se entrega á um fresco e demorado banho. Aos poucos vai ouvindo outros adentrando e saindo, no próprio fluxo de acordar do hostel.Um eco babilônico de muitas línguas na reverberação dos azulejos brancos. Escova os dentes. Penteia os cabelos em seu ritual de “acordar”, acreditando numa metódica própria, um tanto paranóica, de que burlando alguma destas etapas, seu dia não será o mesmo, ou não transcorrerá como deve.

No quarto o casal já desperto, deduz o que Ele esta fazendo e começam a esboçar um roteiro para o dia. T. e Jú com experiência de suas viagens anteriores são muito organizados. Dois mapas da cidade estão abertos sobre a cama. Um trajeto é riscado á caneta, considerando possibilidades, locais interessantes á se conhecer. Andar é a tarefa dos dias. Andar muito. Afinal, como conhecer uma cidade, se não se embrenhar por suas ruas? Se não conseguir nem que por um mero instante portar-se como seus habitantes. Absorver uma ínfima parte de seus costumes e dias. Sentir seus cheiros, tumultos, burburinhos de esquina? Os três sabiam disso e compartilhavam dessa noção. A rejeição aos city-tours, com seus enormes e caros ônibus, engaiolando passageiros para que vissem a cidade e suas pessoas, como num safári.Para torrar dinheiro em quinquilharias que estão separadas da cultura como água do óleo. Onde se põe uma dicotomia torta, de quem vê ou é visto. De quem é o bicho? Os de fora ou os de dentro do vidro. Tinham isso em mente desde que a viagem foi planejada em um outubro já passado. O casal pensara, e com muita clareza sabia que dividir as despesas com mais uma pessoa seria mais econômico, além de divertido do ponto de visita da convivência. Por isso um dia na faculdade Ele foi convidado.

O agora era janeiro. O que Ele não sabia era a avalanche de acontecimentos que o atropelaria cerca de vinte dias antes do embarque. Um amigo morrera.O dia que era para ser de festa foi véspera de um velório.Ele por sorte tinha uma grande amiga, alguém que a providência ou o caso, colocou em meio á situação, para permanecer perto, foi ombro mais que seguro. As imagens da dor dos familiares ainda eram nítidas, os planos sobre tantas coisas a serem feitas em conjunto se foram. Mesmo os que dividem o lar estavam distantes, os olhos destes estavam perdidos, como que esgotados em suas lágrimas. Cada um lidando á seu modo com sua dor. Ele amparou á todos como pôde, viu a maturidade aflorar de si, mas precisava de descanso, “não se pode carregar o mundo nas costas” Ele pensou em dez longos dias que só teve seus gatos como companhia, e seu trabalho para não perder a sanidade. Pouco depois, na solidão de outra véspera de festa conheceu a recebedora dos recados digitais, em similaridade e diferenças que compõem personalidades e relações. Entregaram-se. E em tantos dias, respirando o mesmo ar, estava distante Dela. Sentia a distância, e um frio na barriga, de uma ansiedade que seria saciada em breve.No breve de quase 10 dias.Tinha o castanho de olhos e cabelos na mente, odores e toque de carnes impressos no corpo, pulsando em saudade e falta.

Ao abrir a porta do quarto mais uma vez. T. já havia feito todo o roteiro no mapa, um belo pontilhado em azul por ruas longas e planas. Conversaram rapidamente e se lembraram do café da manhã. Jú já estava no banheiro, e T. Foi fazer o mesmo. Decidiu então arrumar a cama, mesmo que houvesse alguém para fazer isso mantinha o velho hábito desde a casa dos pais. Não foi uma educação espartana, mas tentava manter um pouco da organização.Isso feito, olhou-se no espelho, passou a mão pelos cabelos. Arrumou a mochila num canto, guardou o discman, e como bom “turista” guardou a máquina digital no bolso.

Na sala maior, numa mesa de canto ficavam bules de café, jarras de suco, com xícaras e canecas. Ao lado estavam bolinhos, pequenos potes de doce de leite e manteiga, “media-lunas”, um tipo de croissant muito popular, por lá. Viram outros hospedes passando em volta. Acomodaram-se, comendo e conversando quanto ao dia. No decorrer da conversa um rapaz alto, branco de cabelos negros, pergunta com forte sotaque inglês se são brasileiros. Diz ter morado quatro meses no Brasil e que gostava de samba. Pessoas chatas não precisam de muita convivência pra mostrar sua real face. O recém conhecido da América do Norte, era daqueles que não consegue disfarçar o mínimo. Um sorriso amarelo é coletivizado pelo trio. Parecia ser boa gente, mas a nítida falta de assunto do canadense, limitou á conversa á pelo menos umas meia dúzia de frases. Terminado o café foram ao quarto pegaram o que precisavam, mochilas, câmeras, carteiras e seguiram para rua. Definitivamente o dia começara.

Comments

Vêu... said…
This comment has been removed by the author.
Vêu... said…
e eu que pensei que ninguém entrava naquele negocio chamado concordância verbal...éééé...
amor-fati said…
Sr. Marceleza. "favoritado" no baguio. é nóis.

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