O avião correu a pista já em Buenos Aires ás 23 e 30. Os pneus guinchavam contra o asfalto, as turbinas rugiam, foi parando, parando. Num primeiro minuto, logomarcas, luzes, e o barulho dos sapatos no corredor de desembarque somados ao burburinho em outra língua apresentaram á seus sentidos a impressão da novidade. Até que Ele se desenrolasse do trâmite todo, e isso consistia no próprio desembarque, em passar pela imigração, o mesmo que tinha feito antes só que em sentido inverso. Sair da área de transição, o check out. Casa de câmbio. Agora estava com três moedas diferentes no bolso. Real, Dólar e Peso. Foi até o ponto de ônibus onde lhe recomendaram e o mesmo havia saído. Tornou a jogar a mochila nos ombros. Detestava malas. Grandes. Sempre incômodas. Tudo o que ia precisar naqueles dias coubera numa única mochila. E assim estava mais cômodo para locomover-se mesmo que ainda fosse pesada, muito pesada.
Pôs Bukowski no bolso traseiro da calça. A capa preta e amarela estava surrada. Ele gostava disso, “livros tem que ter o aspecto de que são lidos”, pensa Ele. Os velhos (tanto livro quanto escritor), foram boa companhia no vôo, quando os ouvidos já estavam cansados das poesias de Justin Sullivan. “The Leveller” sempre esteve em Suas viagens, cantando o cinza e o verde, através dos montes sul-mineiros, ou entre os velhos pinheiros do Paraná, sempre estava cantarolando, dando melodia por fones de ouvido, as imagens impressas na memória. As estradas que contornam o território brasileiro, sua terra que estava agora á duas horas de vôo, mas parecia infinitamente longe, são extremamente visuais. Ele julga o dilema de “passagem” da “paisagem” algo que afeta o “homem” não só pelo trâmite de um lugar ao outro, mas soberbamente nas incríveis viagens mentais despertadas por estas relações. Incrível como a última lembrança de leitura durante o vôo, é de um conto que tem uma passagem no aeroporto onde o “autor-personagem” se pega pensando em sua trajetória, e em quem o aguarda. Reversões da vida, Ele pensa em quem ficou para trás e aguarda sua volta.
O aeroporto parecia um grande galpão, muito “clean”, muito claro, e ali pelas tantas da noite estava lotado, franceses, alemães, americanos e os próprios nativos indo de um lado para outro. Parou numa banca, olhou os jornais, viu umas manchetes, tentou se entreter. Perdera o ônibus e a última coisa que se tem em férias é pressa. Já haviam avisado, os amigos que chegaram algumas horas antes, que o aeroporto era longe do centro, e o ônibus por sua vez muito demorado. Entrou numa pequena loja e comprou um cartão telefônico, ele tinha 2 pessoas para avisar, Ela e sua mãe. Engraçado como parecia ter corrido sua vida toda para estar ali. Como tudo parece um mix de delírio, sonho naquele sentido de se despertar de uma noite mal dormida e estar desnorteado, meio ciente, meio abobalhado. Ao se deparar com o aparelho se deu conta que não fazia a mínima idéia de como telefonar, no Brasil os telefones públicos têm explicações em 3 línguas, os argentinos parecem não ter se dado conta desse detalhe.Viu botões estranhos, locais onde seu cartão não se encaixava. Desistiu. Não era o fim do mundo, ligaria na manhã seguinte. Encaminhou-se então ao balcão, negociou um táxi á preço camarada e dirigiu-se até a saída do aeroporto ao lado do motorista. O ar era fresco, com uma brisa muito agradável. Por mais que se pusesse a pensar, nos últimos problemas que deixara para trás no trabalho, seu corpo pedia o descanso, o desligamento das tarefas, afinal completam-se praticamente 6 anos sem férias.
O motorista tem um perfil meio comum aos italianos do Bexiga, falava meio alto, apesar de falar pouco,era baixinho, carrancudo e gordo, com dedos grossos que refletiam a luz de fora através dos anéis. Em menos de alguns minutos o pequeno Lada (sim, lá ainda existe este carro), adentrou uma estrada impressionantemente larga, praticamente uma reprodução das “autobans” européias. Deteve-se então a ver a transformação da paisagem, os outdoors com jogadores de futebol, indicações de vicinais. Tudo muito plano, amplo. O rádio estava sintonizado numa rádio com programação noturna mais tranqüila, quase uma “Alpha FM” paulista com a diferença dos cantores latino-americanos, sumariamente ignorados nas rádios paulistanas. Indiferença essa que do lado de lá da fronteira não ocorre. Aos poucos no trajeto, alguns de nossos “representantes máximos” vão desfilando entre uma canção e outra. Chico, Caetano, João Gilberto...O motorista dá um sorriso e fala em “portunhol” o quanto é bela a música “brasilenã”. Ele não diz nada. Estes ícones não dizem nada a sua pessoa. São como estátuas mortas, na praça de qualquer cidadezinha, intocáveis, em local alto, símbolos cheios de significâncias, que murcham lentamente com o tempo sob a merda dos pombos. Ele não se identifica com essa pretensa elite intelectual, com sua aura de militância e inteligência. De onde ELE vêm, as frases do Cólera tem muito mais beleza e emotividade. Ele sorri ao motorista se debruça por sobre o banco dianteiro e pede para mudar de estação, no instante seguinte a palavra é Breakin’ the Law. Bom e velho Judas...Mesmo com olhar de assombro o taxista segue seu caminho garantindo seus 40 pesos de corrida noturna.
Pôs Bukowski no bolso traseiro da calça. A capa preta e amarela estava surrada. Ele gostava disso, “livros tem que ter o aspecto de que são lidos”, pensa Ele. Os velhos (tanto livro quanto escritor), foram boa companhia no vôo, quando os ouvidos já estavam cansados das poesias de Justin Sullivan. “The Leveller” sempre esteve em Suas viagens, cantando o cinza e o verde, através dos montes sul-mineiros, ou entre os velhos pinheiros do Paraná, sempre estava cantarolando, dando melodia por fones de ouvido, as imagens impressas na memória. As estradas que contornam o território brasileiro, sua terra que estava agora á duas horas de vôo, mas parecia infinitamente longe, são extremamente visuais. Ele julga o dilema de “passagem” da “paisagem” algo que afeta o “homem” não só pelo trâmite de um lugar ao outro, mas soberbamente nas incríveis viagens mentais despertadas por estas relações. Incrível como a última lembrança de leitura durante o vôo, é de um conto que tem uma passagem no aeroporto onde o “autor-personagem” se pega pensando em sua trajetória, e em quem o aguarda. Reversões da vida, Ele pensa em quem ficou para trás e aguarda sua volta.
O aeroporto parecia um grande galpão, muito “clean”, muito claro, e ali pelas tantas da noite estava lotado, franceses, alemães, americanos e os próprios nativos indo de um lado para outro. Parou numa banca, olhou os jornais, viu umas manchetes, tentou se entreter. Perdera o ônibus e a última coisa que se tem em férias é pressa. Já haviam avisado, os amigos que chegaram algumas horas antes, que o aeroporto era longe do centro, e o ônibus por sua vez muito demorado. Entrou numa pequena loja e comprou um cartão telefônico, ele tinha 2 pessoas para avisar, Ela e sua mãe. Engraçado como parecia ter corrido sua vida toda para estar ali. Como tudo parece um mix de delírio, sonho naquele sentido de se despertar de uma noite mal dormida e estar desnorteado, meio ciente, meio abobalhado. Ao se deparar com o aparelho se deu conta que não fazia a mínima idéia de como telefonar, no Brasil os telefones públicos têm explicações em 3 línguas, os argentinos parecem não ter se dado conta desse detalhe.Viu botões estranhos, locais onde seu cartão não se encaixava. Desistiu. Não era o fim do mundo, ligaria na manhã seguinte. Encaminhou-se então ao balcão, negociou um táxi á preço camarada e dirigiu-se até a saída do aeroporto ao lado do motorista. O ar era fresco, com uma brisa muito agradável. Por mais que se pusesse a pensar, nos últimos problemas que deixara para trás no trabalho, seu corpo pedia o descanso, o desligamento das tarefas, afinal completam-se praticamente 6 anos sem férias.
O motorista tem um perfil meio comum aos italianos do Bexiga, falava meio alto, apesar de falar pouco,era baixinho, carrancudo e gordo, com dedos grossos que refletiam a luz de fora através dos anéis. Em menos de alguns minutos o pequeno Lada (sim, lá ainda existe este carro), adentrou uma estrada impressionantemente larga, praticamente uma reprodução das “autobans” européias. Deteve-se então a ver a transformação da paisagem, os outdoors com jogadores de futebol, indicações de vicinais. Tudo muito plano, amplo. O rádio estava sintonizado numa rádio com programação noturna mais tranqüila, quase uma “Alpha FM” paulista com a diferença dos cantores latino-americanos, sumariamente ignorados nas rádios paulistanas. Indiferença essa que do lado de lá da fronteira não ocorre. Aos poucos no trajeto, alguns de nossos “representantes máximos” vão desfilando entre uma canção e outra. Chico, Caetano, João Gilberto...O motorista dá um sorriso e fala em “portunhol” o quanto é bela a música “brasilenã”. Ele não diz nada. Estes ícones não dizem nada a sua pessoa. São como estátuas mortas, na praça de qualquer cidadezinha, intocáveis, em local alto, símbolos cheios de significâncias, que murcham lentamente com o tempo sob a merda dos pombos. Ele não se identifica com essa pretensa elite intelectual, com sua aura de militância e inteligência. De onde ELE vêm, as frases do Cólera tem muito mais beleza e emotividade. Ele sorri ao motorista se debruça por sobre o banco dianteiro e pede para mudar de estação, no instante seguinte a palavra é Breakin’ the Law. Bom e velho Judas...Mesmo com olhar de assombro o taxista segue seu caminho garantindo seus 40 pesos de corrida noturna.
Minutos depois o carro adentra a avenida “9 de Julho”. Ele cola os olhos na janela, dado o porte da mesma. Descomunal, larga, não á toda a maior do mundo em largura...O táxi roda e adentra algumas quadras fora da avenida principal, avenida Rivadavia. Desce em frente ao B´s A´s Hostel. Uma rua feia, mas muito tranqüila, prédios abandonados, carros muito velhos (outra marca local) estacionados próximos. Um toque no interfone. Uma identificação. A porta se abre.
Continua.
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nos falamos em breve e não esquece o coquetel
até mais
Caio