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antíteses

Ela ficava irritada quando ouvia o sinal da secretária eletrônica ou da caixa postal do celular Dele. Tentara ligar do escritório, infinitas vezes o quanto pode, enquanto a mão direita rabiscava formas irregulares num bloco de rascunho. O movimento as vezes alternava, virava batidas descompassadas, ou perfurações psicóticas no papel no auge da irritação. A desordem dos desenhos, ia na contramão da firmeza como conduzia suas coisas. Era bela, esguia, tinha uma olhar felino e estreito, mais assinalado pela armação dos óculos. Séria. No local de trabalho não se faz amizades. Não sabia muito bem o que a movia em insistência a ficar discando á alguém que não á atendia. Que não mais tinha que se preocupar. Um incômodo estava instalado dentro dela, batia no peito de dentro para fora. Ela detestava ficar com pontas soltas, mau amarradas.Com conversas que terminam sem ponto final. Nunca deixava nada para depois, o que tivesse de ser resolvido era para hoje. No derradeiro e repetido sinal de caixa postal viu o horário no aparelho celular. O pingente pendurado ao lado do aparelho foi presente Dele, na época que a felicidade era o rio que os guiava ao mesmo lugar. Brilhava como o castanho dos olhos Dele no auge da felicidade. Aos poucos o incômodo intrauterino foi se contorcendo numa garganta apertada. Arrancou a pequena corrente do aparelho. Enrolou o pingente.Guardou dentro da bolsa. Passado. Lembrança. Memórias e com elas ficassem guardadas. As fotos de ambos juntos não mais ficavam na mesa. Aos poucos todos os sinais de pertencimento iam se esvaindo de sua vida. Era certo que não de forma fácil. Por dentro vivia a dualidade da porta que se fecha, com o horizonte possível que se abre. Algo estava indigesto. Ainda que afastasse o que era ruim com o de bom que se gestava no momento, tinha a bílis inquieta.

Tinha uma reunião em meia hora. Aproveitou a solidão da sala e recompos-se. Levou polegar, indicador e médio como pinças ao alto da testa. Uma massagem que nada resolvia, mas a acalmava e eliminava o risco de marcas de expressão. Olhos fechados. Respira. Inspira. A cabeça abaixada e os dedos circunrodando entre as sombrancelhas. Uma mecha solta-se do penteado, caindo por sobre os óculos, completando uma feição de cansaço que insiste em esconder-se na máscara das prioridades. E ela, era toda prioridade. Pontual. Profissional. Gabaritada. Capacitada. Exigente. Não podia ceder na frente dos outros, diante de seus subordinados. Nem diante de seus pares de chefia. Era mulher, tudo o que fazia devia ser o triplo do melhor, do que qualquer homem fizesse. E por último não podia esmorecer diante dos patrões, uma gota de suor, um traço de insegurança, é uma seta indicando a rua.Tinha consigo que nenhum deles sequer podiam, sentir um sinal de fraqueza, quer fosse sutil, quer fosse um “não estar bem momentâneo”.. A esfera de sua vida privada era motivo de chacota sem que Ela soubese entre os comandados,os comandantes e semelhantes. Mas suas reservas e postura de trabalho impunham os limites fossem hierárquicos ou pessoais. Olhou-se num pequeno espelho, a maquiagem não borrara, pois uma lágrima rebelde ousou fugir. Olhou o material da apresentação. Esboços, planilhas, equações, calculos, todos revisados á exaustão. Indices de produtividade, feitos por equipes sob sua supervisão, que Ela por não confiar passava noites em claro conferindo, um funcionário desatento podia por tudo a perder, só que sob a égide de seu nome isso jamais ocorreria. Retirou o pen-drive do notebook, juntou todo o material nos braços e saiu.

A reunião acabou com saldo positivo. Mostrou os ganhos que trouxe a empresa com a implementação de suas idéias e práticas diretas. Os lucros foram altos este ano. A produtividade estava no pico que nunca tinha estado. Com a receita em dia, não se eximiu em sugerir a diminuição de quadro de funcionários. Ela mesmo capitaneou o corte. Usando a chance para tirar do caminho, ex e potenciais desafetos, tudo num clima muito profissional. Comandou o plano de demissão voluntária. Aposentou velhos inúteis com seus vicios atravancantes ao trabalho. Verificou in loco os funcionários “não adaptáveis”, “rebeldes”, “problemáticos”, e por vias visíveis ou não, colocou-os na esteira inevitável da demissão. A compra de novas tecnologias, diminuiu a necessidade de tantas pessoas. Foi também uma grande justificativa.Por isso e não só, fez-se odiada e temida. Ainda que bela, a cada dia mais madura, notava os olhares de cobiça sexual, ainda que estes se apagassem com suas interrogativas sobre o trabalho. Era firme, como uma enorme estátua de bronze que direciona todos os raios que saem da circunferecnia de uma praça. Com os comandados aos poucos “assexuou” seu appeal. Ouvia cochichos, insultos, pragas, injúrias, mentiras ao passar pelos corredores, por tras do biombo de sua sala, em linhas cruzadas, ou no banheiro. Ainda que a temessem riam dela. Isso era um dos ingrediente do incômodo, mas também era o estopim de suas vinganças diárias. A isso se resumia sua postura profissional, doutrinar, fazer funcionar o mecanismo a qualquer custo e eliminar o que não era necessário. Sua mente de economista não ouvia o coração, e mesmo este não andou em seus melhores dias. A diretoria executiva reconheceu o mérito com polpudos aumentos. Comprara seu apartamento. Saldara o carro que vinha pagando ás apertadas prestações anuais. A realização profissional aos 30. “Nada mau”. Mesmo com essas vitórias, toda reunião era uma batalha, com uma parte da ala administrativa sempre opondo-se, criticando, contestando, buscando uma forma (ainda que pela via do trabalho) de ridiculariza-la.Era o ninho de cobras, das serpentes graúdas. E como as cortes fatricidas de Roma, Ela media todos os passos, pois se alguem caiu para que Ela ocupasse uma cadeira, uma porção de outros deveria sondar seus erros prontos a decaptá-la. Era numa grande batalha de forças que até o momento só Ela tinha vencido.

Ao voltar a sua sala, intimia estagiária e secretária a entregarem os trabalhos que pedira ao fim da tarde. Ao fechar a porta e sentar-se em sua mesa vê que o celular não teve nenhuma ligação retornada. A secretária também não colheu recados. Deu de ombros. Achou outro nome na lista. Um que ja esta em sua vida á um tempo rasoável, um nome masculino atende com voz grave e seca. Ela faz um gracejo. Ele ri. Ela diz “Senhor, saio as 14 horas para almoçar”. Ele com um volume mais baixo diz apenas. “Você já sabe qual nossa mesa, é só estar lá.”. Desliga. Se fosse adolescente diria-se apaixonada. Mas não mais sabe definir, corpo e coração estão nas mãos de um. Já estavam na verdade antes que Ela tomasse a ação de findar a primeira.De virar as costas e ir embora. Mas estava inquieta, pois não ouvia a voz de quem queria. E sabia por que. Rancor. Raiva. Talvez inveja pelo sucesso dela. E era Ele, este que foi o par anterior que lhe trazia mau estar. Não se falavam a meses. Ela sabia que não estava trabalhando, que devia estar em apuros. E mesmo tendo passado meses, mesmo com corpo e paixão nas mãos e pênis de outro, mesmo estando distantes, queria “findar”, dizer “adeus seja feliz”.Sentia-se quase que obrigada á fazer isso. Mas a cada momento que lembrava dos momentos de felicidade, punha-se a chorar, não saberia dizer por que, não saberia dar uma boa razão á toda a esta necessidade desse vindouro diálogo final.
Respondeu emails. Atendeu telefonemas. Verificou as próprias contas. Depois reuniu sua equipe dando o saldo positivo da reunião, em pé diante a grande sala com seus subordinados, agradeceu os esforços e frisou que mesmo assim, falhas ocorreram, os responsáveis saberiam ao fim do dia as medidas tomadas por ela. Era claro, alguém seria demitido.Ela sabia. Tanto sabia como o R.H. já movimentava os papéis. Alguém pediu a palavra, “se vai ser tomada uma ação por que não nos dizer agora?”. Ela impassivel como sempre responde, “as decisões cabem a mim, á vocês chegarão no momento que devem chegar, no mais serão medidas preventivas e disciplinares, cabendo só aos que as receberão”. Fazer suspense era do feitio dela, o medo doutrina, sabia bem. Um clima de pesar pousou sobre o grupo. Pouco a importava.
Voltando a sala sentiu fome. Olhou ao relógio e sentiu a excitação de menina que tinha se apoderado dela todos os dias nesse horário, desde que conhecera seu novo interesse. Já faziam uns bons meses, que o almoço se tornara um celebração sagrada. Em casa com o ex, pouco antes do fim que se consolidou depois, as coisas já não iam bem, existia o sexo, mas as brigas, a rotina, e a diferença de ritmos e carreiras, os colocaram em sendas diferentes. Ambos tanto Ela quanto o primeiro, tentavam fazer a relação ser como nos anos mágicos do namoro, onde sentia as mesmas sensações, que estas ao lembrar se do restaurante. Viveu os últimos tempos de uma relação morta. Todos sabem que as relações acabam antes de ter um fim decretado, poucos tem coragem de assumir. Por outro lado, ainda era indigesto para Ela lembrar que numa mesma noite fora possuida por ambos, sem que nenhum soubesse. Que o semem de um ainda estava em sabor na lingua que beijava o outro.
Quando chegou a mesa estava vazia, a mesma de sempre. A mesma onde selaram o pacto que detinham. Logo depois Ele chega, á abraça, beija e senta-se. Ele, o atual, não era bonito, mas sua frieza e falta de interesse a atrairam.Ele exalava autocontrole e dominio sobre as situações.Poderia ser um pólo idêntico a Ela e, como no magnetismo distanciarem-se, mas descobriram que não mostrando-se as diferenças e as complementaridades. Os olhos dela brilhavam. A primeira vez que o viu ali, almoçava quieto, lia um jornal e degustava um grande bife. Quando notou-se observado, não fez caso, ignorou-a. Ali naquele primeiro momento sentiu-se ofendida, era uma mulher bonita e sabia bem de seus encantos, como Ele recusaria um flerte dela? Logo uma jovem sentou-se com ele, nossa econonista sentiu-se desconcertada.A garota era muito mais jovem e bonita. Durante o almoço Ele sorriu para Ela, mesmo diante dos olhares da garota que o observava, e deve ter percebido o que transcorreu na fração dos instantes. Nada fez e continuou sua refeição. Terminaram e foram embora juntos. Nos dias que se seguiram Ela continuou almoçando no mesmo horário só que desta vez Ele estava sozinho. Num desses dias, estava profundamente irritada com o ex, discutiam ao celular. O atual viu ali sua oportunidade, á distancia das mesas era pequena, fez um gesto apontando a cadeira vazia de sua mesa. Ela movida pela raiva de um e o desejo pelo outro foi. E desde então estão repetindo esse rito diário. Depois dos cumprimentos e de acomodar-se, começou a falar. Contou de suas vitórias. Como de costume Ele fez os pedidos ao garçon, e ouvia-a.
Sempre achava que não dava a mínima, que talvez não estivesse sequer prestando atenção, mas gostava de olhar nos olhos dele enquanto falava sem parar. Eram penetrantes, firmes, nunca desviava de ninguem quando conversava. Parece que todo seu jeito sucinto no trabalho era posto de lado no almoço. Em contrapartida no casamento era uma guerra de diálogo, onde era julgada por suas posturas, e tinha de ceder seu espaço de falar do seu do dia, para ouvir lamúrias, fracassos, ou alegrias bestas que Ela nao compreendia. Raramente ouvia a voz do atual. Falava quando solicitado, mas sempre de forma impositiva e firme. Quando Ela falou que era separada,mesmo ainda nã sendo, ouviu como resposta “Pouco me importa”. Todas as iniciativas, fora o primeiro convite para vir a mesa, foram dela. De se apresentarem. Trocar telefone. Até marcar os almoços subsequentes foram iniciativas dela. Rapidamente estava envolvida. Não aguentava quando não a atendia ou dizia que não queria almoçar com Ela. Começou a ter devaneios. Quando tinha trégua em casa dos conflitos e trepava com o marido, fechava os olhos e lembrava dos almoços, das mãos firmes que seguravam a sua, lembrava dos 2 anéis que via nos dedos grossos e com poucos pêlos. Imaginava-se sendo domada forçosamente.
Não se conformou nas semanas que passavam, com a situação que vivia. Preparava-se para mudar sem avisar o marido. A relação estava negrosada e Ela sabia o que fazer. Do outro lado, o pretendente sempre mostrava-se seguro e ao mesmo tempo pouco se importando com as posturas dela. Cada vez mais excitava-a. Voltou um dia do almoço e tocou-se no sanitário feminino.Nesse dia, estava decidida a entrega-se. Ligou e convidou-o para jantar. Ele disse “não” apenas. Ela não teve coragem de reclamar, e já tinha esse espaço, porém calou-se. Desligou. No dia seguinte no almoço, comentou disso e ouviu o “sim” que desejara. A essa altura, por mais não porporcional que fossem as trocas de palavras entre ambos, algumas coisas foram ditas. Já sabiam nomes. O que faziam, a formação de cada um. Ele era adestrador de cães. Morava no mesmo local onde treinava alguns animais, e mantinha também um canil. O status social não a afligia, morava com um homem que ganhava menos que Ela por que se incomodaria? Era separado também.Quando perguntado sobre se namorava, respondeu, “tenho meus casos, não sou preso, eu costumo prender quem quero” e riu, seco como um ranger de porta.
Combinaram um local onde se encontrar e jantar. Comeram, Ela estava lindíssima, trocara-se no trabalho, dizendo ao marido que tinha reunião fora do expediente e que chegaria tarde, que não a esperasse. Após o jantar, o que seria seu atual, pergunta “ o que quer de mim?”. Ela mesmo ja habituada com o jeito e abordagem, ficou sem ação. Antes que Ela falasse disse “tenho minha vida, meus ritmos, gostos, se quiser me acompanhar tem que me seguir. Será um mundo novo para você que esta se separando depois de anos de convivência. Sei de meu espaço e conservo esses limites. Até aqui te dei o espaço do me pedir o que quer, por isso agora estou deixando claro, que comando com firmeza os meus domínios, e se quiser entrar nele vai seguir minhas regras.” Ela achou o extremo da petulância e nada falou. Ele continuou, “ Eu sinto o seu corpo me pedindo, sinto o seu cheiro e me excito, mas só entrarei nele se me permitir e se for no comum acordo de nossos desejos. Se me permitir mostrar meu mundo, e entrar fiel ao pacto que te proponho, nunca sentirá tamanha sensação de liberdade em sua vida”. Ela ficou desconcertada, nunca Ele tinha falado tanto. Falou apenas “aceito”.

Sairam de lá, e rumaram para a casa onde Ele morava junto ao canil. Era um lugar simples, espartano, sem muita decoração.Muito limpo e ordenado. Tudo parecia existir apenas por razão funcional. Chegaram se beijando, todo o tesão aculado dela deu vasão de uma vez só, sentia a barba por fazer dele roçando e arranhando sua pele mas nao se importava. O beijo era quente, ardoroso, e as mãos grandes dele pareciam estar em todo o corpo dela. Ali onde era apenas mulher viu que por mais que tentasse seguir o ritmo, não conseguiria. Não poderia reproduzir a postura ativa de comando ali, sentia que as cartas não seriam dadas, como a um subordinado. Tinham numa fração de segudos tornado-se animais, ela sentiu as mãos serem presas, puxadas para trás, as pernas afastadas, e o corpo ser encostado com na parede do quarto enquanto Ele atrás, roçava ja ereto e ainda vestido em suas nádegas. Ouvia a respiração. A lingua passando proximos ao ouvido. A cada apertão, o quanto mais sentia a imobilização tomar conta, mais ansiava ser possuída. Ele pos-se diante dela, os olhos firmes de sempre, uma de suas mãos prendendo as dela, arrancou a blusa dela, expondo os seios e começou a chupa-los morde-los.Ela sente dor, mas nao como incomodo. Mordiscava o pescoço, mamilos, vendo os cada vez mais rijos. Ela geme. “Mais”. Recebe um forte tapa nas nádegas.Ele a conduz á um extremo do quarto, abre uma gaveta no criado junto a cama, e de lá tira uma algema e uma coleira, de onde pendia a inicial de seu nome. “A partir de hoje é minha”, pondo a coleira ao redor do pescoço dela, com as algemas fechou prendeu definitivamente os braços dela.Com brutalidade e ríspidez arranca o resto das roupas, deixando a nua, apenas com a coleira e os sapatos de salto alto. Empurra-a na cama, a truculência estava surtindo um efeito diferenciado nela. Tão acostumada a comdandar, guiar, estava presa e submissa aos caprichos dele. Ardia de desejo, sentia a umidade quente inundar seu delta. Esta com o traseiro para cima posição que seria de quatro, se não estivesse de braços algemados para trás. O torax esta estendido sobre os seios que tocam a cama, Ela move a cabeça, vê por sobre ombros o vulto observando suas carnes mais baixas. Não sabe distinguir os ruidos do que se passa, com o latir e uivar dos cães ao lado de fora. Um tapa ardido, carimba deixando em relevo a impressão de cinco dedos, sente lingua, nariz, e dentes roçando e repuxando os lábios que passam os dias escondidos. Uma lingua, molenga e umida, passeia por seu corpo, nadegas, cintura, anus, deixando um rastro de arrepios e saliva.Ela pede “mais”. Ele tira a camisa, as calças, e toda roupa, senta-se ao lado do rosto dela e diz. “Peça”. “Me possua” ouve como resposta. “Ainda não” com um sorriso diabólico. Com nervos e veias em irrigação total, expõe o membro. “Chupe”. Ela obedece. Cordena a ação com a mão atrás da nuca dela. Minutos depois ouve “Por favor, me possua”, quase em choro. Ele diz ao ouvido dela, “Sou teu senhor, e a partir de agora é assim que irá me tratar”. “Me possua, senhor...”. E assim foi. A apresentação e a convergência de mundos que explodem em arranhões de unhas de faca, nas escoriação das peles, onde a mão forte aperta a nuca, e enrola os cabelos.Simples como as equações primárias do mundo dela, e os truques de bastão que Ele ensinava a seus cães.. Ela gozou, muitas vezes seguidas e adormeceu nos braços do Senhor, e assim o trata para estas ocasiões. Como perder a virgindade descobriu-se como mulher e detentora de seus desejos, mais intensos e incofessáveis, como cúmplice de sua contraparte. Via-se evoluida, como descobridora de uma vontade que não sabia estar nas entranhas de sua vontade. Estava completa agora. Naquele dia, como já falado, voltou para casa e amou pela ultima vez o ex marido. Talvez fosse um teste para consigo própria, de ver o que realmente queria. Ou talvez fosse uma despedida. No dia seguinte fez as malas, pegou algumas coisas que gostaria de levar e mudou-se para um flat. O marido observou, pedindo respostas. Pela primeira vez em anos ela não tinha nada a lhe dizer.

A refeição esta deliciosa. O encontro transcorre como sempre. Ela exaure suas falas enquanto seu Senhor apenas á ouve. Trocam informações para mais á noite, do encontro e dos procedimentos que deve tomar para agradar “seu” homem. Sente-se servil, mas o mesmo tempo é como uma corrente elétrica percorra suas zonas erógenas, á cada frase seca e deliberativa dele. Acabado almoço ela volta ao escritório. Veste a personalidade corporativa. Estagiária e secretária entregam os trabalhos, ela passa algumas ordens, tarefas aos comandados. O R.H., liga avisando que os papéis dos demitidos estão prontos. Ela mesmo comunica e encaminha. Decide ir embora. Arruma bolsas, fecha a sala, e sai (como de costume) sem despedir-se de ninguém. Pega o carro, ele ainda exala o cheiro de novo, e clica num botão do painel para que Puccini invada seus ouvidos e dance dentro da bolha de vidro e aço, por sobre camadas de ar refrigerado. Cantarola melodias, abre o colarinho, tocando por baixo a coleira com as iniciais, no pescoço. Ao entrar em casa, ao procurar o carregador de celular, vê o pingente. Mesmo achando inutil, tenta mais uma vez. Ela liga. Volta-se para a janela olhando o horizonte. Atende. “Oi, sei que não quer falar comigo, mas queria saber como está e poder convesar um pouco..”. A ligação é interrompida. Essa simples ação. Ouvir o silêncio ou unicamente sua voz reverberando sem destino, baixa seu astral. Quando fica assim, é que surgem as dúvidas.Não ousa se permitir isso. O desespero sob sua tráqueia, qual uma corda de enforcamento buscando uma goela. Ela afasta as perguntas.Tem que se entreter. Ocupar a mente. Liga a tv. Despe-se. Purificar-se. Vai ao banheiro, defronta-se consigo própria no espelho. Não é mais uma garota. Vê a gravidade dando o rumo dos seios, e tb as escoriações vermelhas, recentes, de seu novo destino. Sentiu-se terrivelmente só. Ela podia ter tido um grande amor que se esfacelou, como podia estar descobrindo o ápice de sua sexualidade. O ruído do aprelho nao escondeu soluços que teimaram em escapar. Suas mãos cobrem os olhos e junto do jato borram mais a maquiagem. No abrigo do chuveiro, o vapor que sobe a afagou, e quando a água tocou o ralo, estava levando junto suas lágrimas.
Para Serva Luciana e seu Mestre, com meu respeito e incompreensão.Nem tudo nessa vida tem uma resposta, mas inspira...

Comments

Gustavo said…
valeu, chapa. fiquei feliz ao ler o comentário. até mudou meu humor.
depois leio esse romance do tolstoi que você postou aqui. abraço
Anonymous said…
This comment has been removed by a blog administrator.
Lucas Lutero said…
Um dos melhores contos que li nesse buraco aqui onde você se esconde. Parabéns!
Gostei da forma como você apresentou os personagens e suas relações, intercalando presente e futuro, e a descrição da cena de sexo com requintes de fetiche foi sensacional.
abraço!
maoslivres said…
Muito bom, cara! Os textos daqui sempre conseguem me colocar nas cenas, observando tudo bem de perto. Como citado em um dos comentários aqui, gostei muito da apresentação dos personagens.
Muito bom mesmo!
Abraços!
Anonymous said…
Grande texto meu caro, de fato é incrivel e um tanto quanto assustador o modo como muitas vezes criamos aquela docê esperança de alg que nunca vem...
Abraço.
Luísa B. said…
Muito bom, mais uma vez!
Relacionamentos humanos serão sempre o x da questão da própria humanidade...
Anonymous said…
Nao seria a imagem da mulher profissional desumana que nao consegue se submeter aos desejos de um homem, o que faz parte da relacao homem mulher um pouco estereotipada

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Sapatos

Estranho como a mente processa a memória e assim nos ofereça respostas. Os tempos são de angústia e ansiedade. As notícias que chegam de todo lado, só fazem trazer desgosto. Houve um tempo, que eu passava incólume por um mundo que se despedaçava, mas não me sinto mais capaz para isso hoje. E talvez a música no ouvido, injete uma porção de nostalgia no coração para que as nuvens mais escuras da alma, abram espaço para a boa sensação. Assim, você se contesta. É como se o homem de hoje, olhasse frente a frente nos olhos do menino do passado.  As importâncias que se transformam. As prioridades que ficam para trás, solapadas por outras cada vez mais pesadas e estruturadas. Na rota intermitente e incessante da vida, que pode virar um enorme triturador de sonhos, se não for conduzida com mão firme. E as soluções nos jogos da mente, brotam, como respostas de pouca duração.  Penso no quanto a maneira de se vestir, e mais especificamente de se calçar tem uma certa importância ...

Contando.

Sentindo como se a jaula fosse romper. E como se eu pudesse correr sem saber a direção. Talvez o trabalho não seja ruim como se pretende. Ou seja demais para se acreditar. Fato é que o medo aperta seu estômago até quando se é pela felicidade. O medo derrete a certeza. Na confiança frouxa só o ditado do velho pai. "Cachorro mordido por cobra foge até de linguiça". o relógio corre. sem piedade. foto: rodrigo kristensen: http://rodrigokristensen.tumblr.com/post/8303194050/my-windows-view-of-sao-paulo-taken-with-instagram

De 1 a 2.

um brilho de olhos claros acende meu coração. toca em pele alva minha negra alma na noite do sono tranquilo sinto seu doce respiro mãos buscam abrigo no meu peito e um beijo suave carimba em silêncio as minhas costas. eu gostaria de entregar palavras que valem o mundo que afaga o coração ferido e estende a mão ao sofrido nos campos de batalha da vida eu planejaria mundos, arquitetaria idéias e artifícios mas me perco, e rodopio usando as palavras simples do dia a dia, só dizendo o que sinto. eu tenho uma vida cheia de passado e um futuro de possibilidades, vocalizações ferozes de meus demônios medos e muralhas que caem um após o outro pois eles não tem espaço, como não tem os abutres que nos veem de longe. pois ontem fui um, e com você sou dois, no caminhar infinito do que virá.