A voz familiar no telefone havia feito o convite á dias. Diferente de como se dá o ritual normalmente não era um belo papel timbrado, com alto relevo e letras gravadas em tinta dourada. Foi com a voz grave, até meio italiana, como sabia Ele ser a origem do amigo, que se deu. “Venha á minha festa, venha á festa de meu casamento”. Não era o primeiro convite desse tipo que recebia.Alguns dos poucos verdadeiros amigos de sua vida, já passaram pelo ritual. Ele esteve presente ao enlace de alguns. Passando-se dos 30 anos, isso vira quase uma rotina para quem mantêm os amigos próximos. Assim ele percebe o amadurecer e o medo da solidão, e viu que muitos “amarravam-se” pela iminência de um futuro do lado de fora da porta, ou simplesmente por não conseguir sair de um modelo que perdura em repetição geração a geração. Ele ficou feliz pelo amigo, lisonjeado por si e empolgado por saber que festas de casamento, ainda mais em bairros periféricos são mais que a celebração do vínculo sagrado é o conjuro grupal, é a aliança das famílias e é também a festa pública.Onde se come, se bebe, sem preocupações com horas.
No dia acordou cedo. Era um domingo de uma semana extremamente calorenta, que mostrava que as nuvens do alívio chegaram preparando os dilúvios que todos os verões têm. Barbeou-se, sem camisa, de bermuda. Tomou um banho fresco e demorado, separou um traje despojado, aliás, a roupa de todas as horas. Camiseta e jeans, básico e inofensivo. Estava indo a festa não precisa de um traje de gala, a simplicidade na periferia exige apenas a presença, cobra a amizade e a audiência da aliança. Não é preciso agarrar-se a formalismos em trajes ou salamaleques inúteis. Pensou em levar um presente, mas suas posses o impediam de dar algo digno. A quem se carrega no coração, pensou, deve ser entregue um presente a altura. Mas sabia que a felicidade do amigo era vê-lo ali, e conformou-se com isso. Irônico o destino, que este mesmo foi um dos únicos a ir ajudá-lo na mudança de seu segundo casamento, este que já findara á três anos passados. Que esteve á presenciar tanto.No fim talvez essa seja a justificativa da presença, uma troca, tanto quanto um selo de amizade.
Foi combinado um ponto de encontro para que outros amigos em comum pudessem ir e chegar todos juntos, como uma matilha á festa. O local era uma estação de metrô, onde a interligação com os trens suburbanos também é feita. Foi o primeiro a chegar, deparou-se com uma multidão de pessoas indo e vindo. Cores, tipos, palavras, sotaques, universos atomizados, esbarrando-se em suor mormacento, pelo largo corredor da estação, gente roupas sem sofisticação, baratas de liquidações de lojas populares, gente simples e também gente complexa, do velho ao bebê, em todas as nuanças da aquarela de se colorir gente.Viu o andar afobado das modernetes entre o povão, que buscavam chegar aos museus acima da estação subterrânea.
Quem deveria chegar, atrasou, mas logo formado o agrupamento, sete pessoas no total, posicionaram-se na plataforma. O trem, moderno, com ar condicionado, listras azuis, e vermelhas na lateral, posicionou-se para ser invadido. Não haviam lugares, da estação anterior, a penúltima dessa linha , muitos passageiros não desembarcavam já posicionando-se nos acentos. Pois o destino não era esta estação e sim o sentido inverso do trem. Foram segundos para que a lotação já estivesse no limite. O grupo de amigos preferiu um canto. Ele já tinha noção da jornada, trouxera um livro na mochila. “O sol também se levanta”. Quando abriu-o para continuar a leitura, leu o título foi inevitável não olhar pelas janelas e imaginar o sol levantando-se qual um guerreiro oriental, amarelo, expondo-se em glória e força, mas coberto pelas nuvens pesadas da cidade cinzenta. Aos poucos a paisagem mudava, sentiu desconforto em ler em pé, e como outros passageiros elegeu uma parede do vagão e sentou-se sem remorsos ou grandes preocupações no piso. A leitura prosseguiu bem, mas falava de um mundo tão distante quanto parecia o bairro para onde se dirigia. Lia sobre cafés, festas, gim e belas mulheres. Mas o transporte público é verdadeiramente coletivo, sobretudo socializante. Forçava a mente para não ater-se ao sons á sua volta. Mesmo assim, registrou a fala de uma senhora ao lado, que afirmava receber a mãe falecida em sonho todas as noites. A visitadora noturna não só trazia afago por ter partido numa hora tão inesperada para a filha (afinal nunca se está preparado), como apontava os caminhos para que a família não se esfacelasse. Por uns instantes, numa das inúmeras paradas, observou uma mulher que entrara acompanhada de um homem. Não pôde parar de observar e notar os seios soltos, dentro da blusa dela. Percebeu o nítido enrijecer dos mamilos em contato com o ar condicionado do vagão. Tinha belas pernas, e do ângulo que estava, via como eram torneadas, dispostas em minúsculos shorts, equilibrados num par de tamancos.Via tudo protegido pelo corpo de outro passageiro, era encoberto assim dos olhos do acompanhante dela. Ela percebe, sorri, sem que seu par perceba. “Mulher é o diabo”, pensa. Ele nada faz, sorri apenas, abre seu livro e volta aos cafés de Paris.
A leitura é boa. Tanto que nem percebe quando a mulher de mamilos eriçados, e pernas bonitas vai-se embora em seu rumo. Quando se lê o tempo fica macio. É como uma longa passarela bem ladrilhada, onde se desliza, sem solavanco, chegando ao destino sem tocar-se do quanto já se andou. E assim foi. Desceram da estação. Ele e os outros 2 rapazes, mais as 4 garotas. Caminham, conversam. Ele nota um bairro onde já esteve uma boa quantidade de vezes. Caminham conversando de frivolidades, mas o que chama a atenção Dele é a normalidade, as ruas úmidas, que aproveitam uma breve pausa da chuva. Vê os botecos, a sucessão de prédios iguais e pessoas tão diferentes que ao olhar do desatento podem parecer idênticas entre si. As poças feitas nos buracos da rua, que ao longe parecem diversos espelhos dispostos no asfalto refletindo um céu cinza escuro, de nuvens mais pesadas que o chumbo. Seguem ao local da festa.
Ao chegarem a trégua com o céus esta prestes a terminar. Um garoa fina, fria e insistente caía, prenunciando que mais tarde tornaria-se mais pesada. A festa acontecia no pátio de frente do apartamento do térreo onde morariam os noivos. Sem cobertura, sem uma lona sequer, o que “poderia ser um problema” pensou. Ele olhou a movimentação, a fumaça das churrasqueiras que ficavam protegidas sob toldos na lateral do prédio, e que iam à contramão da chuva fina. Como o a festa se dava no andar térreo, o acesso ao apartamento era irrestrito, muita gente dentro, mas mesmo assim, outra parte das pessoas não se incomodava de estar ou ficar do lado de fora. Meia dúzia de garotas sem muito encanto já dançavam abraçadas em meio as poças d’água, de cabelos molhados e despenteados, maquiagem borrada sem importar-se com absolutamente nada disso. O aparelho de som parecia ser meio temperamental, tocando uma música e parando em seguida, exigindo que alguém sempre fosse acionar o play.
Os noivos receberam o grupo. Foi muito bom a Ele dedicar os votos á ambos. Via a felicidade. Serviram a comida a bebida. Tudo muito saboroso, feito com o carinho que a ocasião exige. Mas não deixou de notar á distância quem fizesse algum comentário maldoso, sobre a comida e a bebida. Ali como espectador é inevitável não lembrar que já esteve nessa situação e que também tivera sua festa cercada de amigos. Parecia distante, carregado do rancor, da tristeza dos votos não cumpridos como uma tragédia anunciada. Faziam anos, estranhou nunca ter parado para lembrar-se da festa.Sempre tinha em mente o fracasso, as falhas e o trauma. Mas dado o dia, dadas as circunstâncias, em sua memória vinham recortes de melhor forma, das sensações de alegria, da promessa e da esperança que aquele dia no passado queria profetizar e se fazer como primeiro de muitos. Ele não queria a festa. A justificativa era simples. “Virão muitos que não gosto, comerão á se fartarem e sairão dizendo que a festa foi ruim, que a bebida era quente”. Os ex-sogros insistiram. A noiva também queria. Ninguém dispunha de muito, e nessa hora o velho pai, dispôs do que não tinha e deu a festa. Pois quem queria de fato não pôs as mãos nos bolsos. Ele lembra que não quis e insistiu. Mas o pai sempre foi um velho orgulhoso. No fim das contas não foi ruim. Tinha tudo o que essas celebrações têm, os penetras, as crianças furando o bolo com o dedão, os parentes que bebem demais e falam mais ainda, o cachorro que aparece para roubar um pedaço de carne que foi deixado de lado. Por um pouco poderia dizer o sabor do bolo. “Nozes!” lembrou pouco depois.
Noutros dias de passado, onde as feridas ainda eram recentes Via as festas de casamento com muito pessimismo recusando-se a ir me muitas. Era á Ele que por anos acreditou nas instituições e na firmeza das mesmas, que era o “acionar do timer”, era o ligar o dispositivo contador do fim das relações. Algo a se lembrar e lamentar no futuro. Hoje com as cicatrizes fechadas pouco importa. Ele lembra de outro amigo que estava em vias de separar-se. Estava desempregado, ao contrário da mulher que ia tendo uma ascensão profissional rápida, a mesma que já arrumara um novo par enquanto o amigo ruma cada vez mais rápido á própria ruína. Viu isso como um paradoxo da própria história de seus divórcios, de como nunca se permitiu sofrer, de como nunca tombaria por ter amado, e de que o amor próprio Dele era maior do que qualquer um que pudesse entregar á uma mulher. Pensou por uns momentos em como as coisas tornam-se irreconciliáveis, em como o mundo desfaz-se como papel molhado, um convite de casamento espezinhado ao fim de uma festa.
Comendo, pensando e observando ele percebe o olhar. Por sorte uma morena muito mais bonita que a maioria. Eles trocam observações rápidas sem muita importância, apenas na retina, sem uma palavra sequer. Percebendo a repetição e sem entender os motivos, decide insistir. Ele ri. Ela não esboça reação alguma. No transcorrer da tarde, passa algumas vezes por Ela. Nota o agregar de outros homens ao seu redor, e o golpe derradeiro. Os péssimos assuntos, intriguinhas de bairro,fofocas, mexericos sobre novela, modelos de celular, põem abaixo o que poderia ser a gestação do tesão. Poderia simplesmente abstrair, mas no nível de exigência estava em alta, seu padrão hoje é elevado.Ele deixa o rapaz que estacionou o carro “tunado”, e que segurava uma garrafa de vinho numa mão, ser o centro das atenções dela. Afinal, a soberba e a ostentação, não são pecados dos ricos apenas. Pior quando se mora de aluguel, em um apartamento de dez metros quadrados, num conjunto habitacional longínquo, e se tem um carro do ano na garagem. A felicidade das pessoas muitas vezes é iludir-se na posse. Assim o rapaz do carro iludia-se com a morena, a morena iludia-se em possuir o dono do carro. E quem era Ele para fazer julgamentos acerca da felicidade.
A chuva ia e voltava. Numa dessas engrossou e caiu pesadamente. Riu com os amigos quando todos tomaram as escadarias do prédio uma vez que não podiam ficar todos dentro do apartamento. As horas já haviam avançado, chegara o momento do bolo, do discurso e das promessas. Comovente na simplicidade de como tudo se desenrolou. Ele quieto com um pedaço de bolo na mão desejou muita alegria aos noivos. Quando a chuva parou, voltou também a música, e os litros e litros de bebida nas veias dos convidados, cumpriram sua função desinibidora. O pátio virou então uma grande pista de dança. O samba ecoava pelas caixas. Engraçado ser um filho da terra e não se identificar com a “musica da terra”. Mas ao mesmo tempo assumir que esta é a melhor música para tais situações. Uma mulher, de cabelos cortados “ a la chanel” muito pretos e grande sorriso o convidou para dançar. Ele resistiu, ficou petrificado por instantes. Mas acabou indo. Talvez tenha sido uma das únicas vezes que tenha se desinibido tanto numa festa de amigos. Olhou ao redor ouvindo também as galhofas ao redor por ser um péssimo par de dança, e não sentiu-se mau com isso. Ela, mesmo já sabendo o nome Dele, insistia em chamá-lo de Elvis (uma semelhança que só o álcool pode trazer pensou). E falou do quanto era divertido á ela também dançar algo que não sabia, afinal o importante é divertir-se. A noite chega, Ele sente os pés molhados e deseja o chuveiro e sua cama. Procura a parceira de dança para agradecer e despedir. Ele notou o olhar do irmão da noiva ligeiramente incomodado pela empolgação da mulher de cabelo preto ao dançar com Ele instantes antes. Até aí não sabia por que. Uma das regras quando se vai em bairros distantes é saber com quem esta se metendo e não tentar nada até saber de fato quem é quem. Viu a distância ambos beijando-se, e automaticamente o olhar incomodo do irmão da noiva ficou explicado. Era bom para ambos, que eles então ficassem bem, pois era dia de festa e alegria. Ele abraça o amigo mais uma vez em seu dia de felicidade, junta-se ao seu grupo que ruma a estação de trem, sentindo o estômago cheio pelos excessos gastronômicos da festa. Cruza o portão rindo com os amigos de fatos engraçados e trapalhadas bêbadas que só esses momentos têm. Ouve num grupinho próximo que também se ia embora, que “ a cerveja estava quente, e a carne estava dura”.
No dia acordou cedo. Era um domingo de uma semana extremamente calorenta, que mostrava que as nuvens do alívio chegaram preparando os dilúvios que todos os verões têm. Barbeou-se, sem camisa, de bermuda. Tomou um banho fresco e demorado, separou um traje despojado, aliás, a roupa de todas as horas. Camiseta e jeans, básico e inofensivo. Estava indo a festa não precisa de um traje de gala, a simplicidade na periferia exige apenas a presença, cobra a amizade e a audiência da aliança. Não é preciso agarrar-se a formalismos em trajes ou salamaleques inúteis. Pensou em levar um presente, mas suas posses o impediam de dar algo digno. A quem se carrega no coração, pensou, deve ser entregue um presente a altura. Mas sabia que a felicidade do amigo era vê-lo ali, e conformou-se com isso. Irônico o destino, que este mesmo foi um dos únicos a ir ajudá-lo na mudança de seu segundo casamento, este que já findara á três anos passados. Que esteve á presenciar tanto.No fim talvez essa seja a justificativa da presença, uma troca, tanto quanto um selo de amizade.
Foi combinado um ponto de encontro para que outros amigos em comum pudessem ir e chegar todos juntos, como uma matilha á festa. O local era uma estação de metrô, onde a interligação com os trens suburbanos também é feita. Foi o primeiro a chegar, deparou-se com uma multidão de pessoas indo e vindo. Cores, tipos, palavras, sotaques, universos atomizados, esbarrando-se em suor mormacento, pelo largo corredor da estação, gente roupas sem sofisticação, baratas de liquidações de lojas populares, gente simples e também gente complexa, do velho ao bebê, em todas as nuanças da aquarela de se colorir gente.Viu o andar afobado das modernetes entre o povão, que buscavam chegar aos museus acima da estação subterrânea.
Quem deveria chegar, atrasou, mas logo formado o agrupamento, sete pessoas no total, posicionaram-se na plataforma. O trem, moderno, com ar condicionado, listras azuis, e vermelhas na lateral, posicionou-se para ser invadido. Não haviam lugares, da estação anterior, a penúltima dessa linha , muitos passageiros não desembarcavam já posicionando-se nos acentos. Pois o destino não era esta estação e sim o sentido inverso do trem. Foram segundos para que a lotação já estivesse no limite. O grupo de amigos preferiu um canto. Ele já tinha noção da jornada, trouxera um livro na mochila. “O sol também se levanta”. Quando abriu-o para continuar a leitura, leu o título foi inevitável não olhar pelas janelas e imaginar o sol levantando-se qual um guerreiro oriental, amarelo, expondo-se em glória e força, mas coberto pelas nuvens pesadas da cidade cinzenta. Aos poucos a paisagem mudava, sentiu desconforto em ler em pé, e como outros passageiros elegeu uma parede do vagão e sentou-se sem remorsos ou grandes preocupações no piso. A leitura prosseguiu bem, mas falava de um mundo tão distante quanto parecia o bairro para onde se dirigia. Lia sobre cafés, festas, gim e belas mulheres. Mas o transporte público é verdadeiramente coletivo, sobretudo socializante. Forçava a mente para não ater-se ao sons á sua volta. Mesmo assim, registrou a fala de uma senhora ao lado, que afirmava receber a mãe falecida em sonho todas as noites. A visitadora noturna não só trazia afago por ter partido numa hora tão inesperada para a filha (afinal nunca se está preparado), como apontava os caminhos para que a família não se esfacelasse. Por uns instantes, numa das inúmeras paradas, observou uma mulher que entrara acompanhada de um homem. Não pôde parar de observar e notar os seios soltos, dentro da blusa dela. Percebeu o nítido enrijecer dos mamilos em contato com o ar condicionado do vagão. Tinha belas pernas, e do ângulo que estava, via como eram torneadas, dispostas em minúsculos shorts, equilibrados num par de tamancos.Via tudo protegido pelo corpo de outro passageiro, era encoberto assim dos olhos do acompanhante dela. Ela percebe, sorri, sem que seu par perceba. “Mulher é o diabo”, pensa. Ele nada faz, sorri apenas, abre seu livro e volta aos cafés de Paris.
A leitura é boa. Tanto que nem percebe quando a mulher de mamilos eriçados, e pernas bonitas vai-se embora em seu rumo. Quando se lê o tempo fica macio. É como uma longa passarela bem ladrilhada, onde se desliza, sem solavanco, chegando ao destino sem tocar-se do quanto já se andou. E assim foi. Desceram da estação. Ele e os outros 2 rapazes, mais as 4 garotas. Caminham, conversam. Ele nota um bairro onde já esteve uma boa quantidade de vezes. Caminham conversando de frivolidades, mas o que chama a atenção Dele é a normalidade, as ruas úmidas, que aproveitam uma breve pausa da chuva. Vê os botecos, a sucessão de prédios iguais e pessoas tão diferentes que ao olhar do desatento podem parecer idênticas entre si. As poças feitas nos buracos da rua, que ao longe parecem diversos espelhos dispostos no asfalto refletindo um céu cinza escuro, de nuvens mais pesadas que o chumbo. Seguem ao local da festa.
Ao chegarem a trégua com o céus esta prestes a terminar. Um garoa fina, fria e insistente caía, prenunciando que mais tarde tornaria-se mais pesada. A festa acontecia no pátio de frente do apartamento do térreo onde morariam os noivos. Sem cobertura, sem uma lona sequer, o que “poderia ser um problema” pensou. Ele olhou a movimentação, a fumaça das churrasqueiras que ficavam protegidas sob toldos na lateral do prédio, e que iam à contramão da chuva fina. Como o a festa se dava no andar térreo, o acesso ao apartamento era irrestrito, muita gente dentro, mas mesmo assim, outra parte das pessoas não se incomodava de estar ou ficar do lado de fora. Meia dúzia de garotas sem muito encanto já dançavam abraçadas em meio as poças d’água, de cabelos molhados e despenteados, maquiagem borrada sem importar-se com absolutamente nada disso. O aparelho de som parecia ser meio temperamental, tocando uma música e parando em seguida, exigindo que alguém sempre fosse acionar o play.
Os noivos receberam o grupo. Foi muito bom a Ele dedicar os votos á ambos. Via a felicidade. Serviram a comida a bebida. Tudo muito saboroso, feito com o carinho que a ocasião exige. Mas não deixou de notar á distância quem fizesse algum comentário maldoso, sobre a comida e a bebida. Ali como espectador é inevitável não lembrar que já esteve nessa situação e que também tivera sua festa cercada de amigos. Parecia distante, carregado do rancor, da tristeza dos votos não cumpridos como uma tragédia anunciada. Faziam anos, estranhou nunca ter parado para lembrar-se da festa.Sempre tinha em mente o fracasso, as falhas e o trauma. Mas dado o dia, dadas as circunstâncias, em sua memória vinham recortes de melhor forma, das sensações de alegria, da promessa e da esperança que aquele dia no passado queria profetizar e se fazer como primeiro de muitos. Ele não queria a festa. A justificativa era simples. “Virão muitos que não gosto, comerão á se fartarem e sairão dizendo que a festa foi ruim, que a bebida era quente”. Os ex-sogros insistiram. A noiva também queria. Ninguém dispunha de muito, e nessa hora o velho pai, dispôs do que não tinha e deu a festa. Pois quem queria de fato não pôs as mãos nos bolsos. Ele lembra que não quis e insistiu. Mas o pai sempre foi um velho orgulhoso. No fim das contas não foi ruim. Tinha tudo o que essas celebrações têm, os penetras, as crianças furando o bolo com o dedão, os parentes que bebem demais e falam mais ainda, o cachorro que aparece para roubar um pedaço de carne que foi deixado de lado. Por um pouco poderia dizer o sabor do bolo. “Nozes!” lembrou pouco depois.
Noutros dias de passado, onde as feridas ainda eram recentes Via as festas de casamento com muito pessimismo recusando-se a ir me muitas. Era á Ele que por anos acreditou nas instituições e na firmeza das mesmas, que era o “acionar do timer”, era o ligar o dispositivo contador do fim das relações. Algo a se lembrar e lamentar no futuro. Hoje com as cicatrizes fechadas pouco importa. Ele lembra de outro amigo que estava em vias de separar-se. Estava desempregado, ao contrário da mulher que ia tendo uma ascensão profissional rápida, a mesma que já arrumara um novo par enquanto o amigo ruma cada vez mais rápido á própria ruína. Viu isso como um paradoxo da própria história de seus divórcios, de como nunca se permitiu sofrer, de como nunca tombaria por ter amado, e de que o amor próprio Dele era maior do que qualquer um que pudesse entregar á uma mulher. Pensou por uns momentos em como as coisas tornam-se irreconciliáveis, em como o mundo desfaz-se como papel molhado, um convite de casamento espezinhado ao fim de uma festa.
Comendo, pensando e observando ele percebe o olhar. Por sorte uma morena muito mais bonita que a maioria. Eles trocam observações rápidas sem muita importância, apenas na retina, sem uma palavra sequer. Percebendo a repetição e sem entender os motivos, decide insistir. Ele ri. Ela não esboça reação alguma. No transcorrer da tarde, passa algumas vezes por Ela. Nota o agregar de outros homens ao seu redor, e o golpe derradeiro. Os péssimos assuntos, intriguinhas de bairro,fofocas, mexericos sobre novela, modelos de celular, põem abaixo o que poderia ser a gestação do tesão. Poderia simplesmente abstrair, mas no nível de exigência estava em alta, seu padrão hoje é elevado.Ele deixa o rapaz que estacionou o carro “tunado”, e que segurava uma garrafa de vinho numa mão, ser o centro das atenções dela. Afinal, a soberba e a ostentação, não são pecados dos ricos apenas. Pior quando se mora de aluguel, em um apartamento de dez metros quadrados, num conjunto habitacional longínquo, e se tem um carro do ano na garagem. A felicidade das pessoas muitas vezes é iludir-se na posse. Assim o rapaz do carro iludia-se com a morena, a morena iludia-se em possuir o dono do carro. E quem era Ele para fazer julgamentos acerca da felicidade.
A chuva ia e voltava. Numa dessas engrossou e caiu pesadamente. Riu com os amigos quando todos tomaram as escadarias do prédio uma vez que não podiam ficar todos dentro do apartamento. As horas já haviam avançado, chegara o momento do bolo, do discurso e das promessas. Comovente na simplicidade de como tudo se desenrolou. Ele quieto com um pedaço de bolo na mão desejou muita alegria aos noivos. Quando a chuva parou, voltou também a música, e os litros e litros de bebida nas veias dos convidados, cumpriram sua função desinibidora. O pátio virou então uma grande pista de dança. O samba ecoava pelas caixas. Engraçado ser um filho da terra e não se identificar com a “musica da terra”. Mas ao mesmo tempo assumir que esta é a melhor música para tais situações. Uma mulher, de cabelos cortados “ a la chanel” muito pretos e grande sorriso o convidou para dançar. Ele resistiu, ficou petrificado por instantes. Mas acabou indo. Talvez tenha sido uma das únicas vezes que tenha se desinibido tanto numa festa de amigos. Olhou ao redor ouvindo também as galhofas ao redor por ser um péssimo par de dança, e não sentiu-se mau com isso. Ela, mesmo já sabendo o nome Dele, insistia em chamá-lo de Elvis (uma semelhança que só o álcool pode trazer pensou). E falou do quanto era divertido á ela também dançar algo que não sabia, afinal o importante é divertir-se. A noite chega, Ele sente os pés molhados e deseja o chuveiro e sua cama. Procura a parceira de dança para agradecer e despedir. Ele notou o olhar do irmão da noiva ligeiramente incomodado pela empolgação da mulher de cabelo preto ao dançar com Ele instantes antes. Até aí não sabia por que. Uma das regras quando se vai em bairros distantes é saber com quem esta se metendo e não tentar nada até saber de fato quem é quem. Viu a distância ambos beijando-se, e automaticamente o olhar incomodo do irmão da noiva ficou explicado. Era bom para ambos, que eles então ficassem bem, pois era dia de festa e alegria. Ele abraça o amigo mais uma vez em seu dia de felicidade, junta-se ao seu grupo que ruma a estação de trem, sentindo o estômago cheio pelos excessos gastronômicos da festa. Cruza o portão rindo com os amigos de fatos engraçados e trapalhadas bêbadas que só esses momentos têm. Ouve num grupinho próximo que também se ia embora, que “ a cerveja estava quente, e a carne estava dura”.
Comments
Mais uma vez, bom texto. Gostei muito da simplicidade.
Gostei muito do que já li. Textos longos e envolventes, que exigem tempo para a compreensão. E exatamente isso que dizem que nao deve ser um blog, nao é mesmo...hehe
Espero que seu ultimo texto nao seja de fato o ultimo, que é de janeiro. Enquanto isso vou lendo...
Gostei muito do que já li. Textos longos e envolventes, que exigem tempo para a compreensão. E exatamente isso que dizem que nao deve ser um blog, nao é mesmo...hehe
Espero que seu ultimo texto nao seja de fato o ultimo, que é de janeiro. Enquanto isso vou lendo...