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asfalto

Sentia o vibrar da moto entre as pernas, as mãos gelavam ao vento sobre o guidão. Dentro do capacete rangia os dentes, o que parecia uma resposta natural para a temperança descontrolada de seu espírito, que arde furioso. Em seus dias stressantes, nada melhor que se entorpecer no próprio vício. Chefes, patrões, cobranças, todas depositadas no ouvido. A conta bancária que cresce um pouco quando ele se joga ao infinito, pondo mais do que seus próprios ossos a prêmio de platina. As ruas da cidade cinzenta se fossem pelo humor dele, estariam derretidas. Na metáfora de seus sentimentos, seria o inferno na terra. O relógio cobra, a secretária, o cliente. Vence um a um semáforos, até que para no último, mais rápido que ele. O motor rosna. Ele sente raiva, por tudo ao redor, por ser cobrado, requisitado, exigido, ele vê isso em todo lugar. Até nos olhos por trás do vidro escuro no carro ao lado no farol. Mas ninguém pensa que pode receber o troco. Cento e vinte e cinco cilindradas são muito pouco comparados com outras motocicletas, mas no momento a moto parece movida a rancor. Ficando para trás todos ligados a rotina e ao convencional. Ele já foi alertado que isso trará sua morte. Mas se ela vier mesmo, que pelo menos tente alcança-lo, coisa que ele duvida ser possível.

Homem de pouca instrução, foi criança que se fez jovem nas ruas. Nunca gostou de ler, ou de ficar enclausurado na sala de aula. Os pais até tentaram , antes de desistir de encaminhá-lo, tentaram muito formá-lo, mas se contentaram e ergueram as mãos aos céus por pelo menos ter feito o fundamental. Seu primeiro trabalho foi como entregador, depois “evoluiu” para office boy. Não imaginava, mas quando veio o degrau seguinte quase morreu de desgosto como um pássaro engaiolado. Ele precisava da poluição, para continuar vivendo, sentir a fuligem entupindo seus poros. Esbarrar nas pessoas. Tocá-las ao acaso, sentindo a hipocrisia dos sorrisos, o cheiro de suas carnes misturados ao mundo porco á volta. Sentia as retinas ressecarem na burocracia, no corredor de cafezinho e nas montanhas de papéis sobre a mesa. O que colore seu globo ocular, são os tipos e tipas que apinham as calçadas. O imenso corredor de pecadores desfilando pelas calçadas, entalados como sardinhas no transporte coletivo ou os que se acham protegidos dentro de seus carros. Sentia-se um camundongo, abestalhado, batendo cabeça em paredes de acrílico, rodando sem parar na roda de sua gaiola.

Isso foi lhe torrando a paciência a ponto de comprar sua “parceira” de trabalho. Sua carta de alforria. Desde de moleque ele gostava de máquinas. Tinha um tio mecânico, gostava do cheiro da gasolina, da graxa, não se importava de se lambuzar em peças cheias de óleo. Foi na rua também, nas motos de amigos, que aprendeu as manobras básicas, a conduzir, trocar marchas...Depois veio o R/L, o “zerinho”, com muito mais ousadia, premiado com doloridos tombos. A vida passa, as cicatrizes fecham. É testemunha ocular da guerra diária que é o transito. Pondo se como inimigo declarado dos “Forgados” de plantão, motoristas de ônibus, caminhoneiros, madames, domingueiros, cabaços em geral. Seu vício é a velocidade, cada vez mais agravado pelo susto, pelo medo, pelas adaptações de motor para ganhar mais rendimento. Esperava o inesperado, como quem aguarda a visita de um amigo.

Mas ao fim do dia, ao fim da última entrega, fazia as contas da féria, calculava quase que sempre os mesmos cálculos, para pegar uma moto maior, mais rápida e mais potente. Gostava de ao voltar a central, se olhar no espelho, jaqueta imunda de fuligem, jeans, invariavelmente rasgado, botas com biqueiras de aço, capacete lascado em mãos, rosto enegrecido pela poluição, cabelo desgrenhado pelo uso da proteção para a cabeça. O retrato de um trabalhador da pós modernidade, que surfa no tempo, desprendido do espaço, colidindo, arrastando, despedaçando-se como um cometa não identificado rumando adiante, sempre adiante.

Nesse tempo, não tem conseguido dormir. Tem fumado cada vez mais, bebendo proporcionalmente sempre que tem chance. Mesmo leis e bafômetros, não o intimidaam, é um auto denominado “cachorro louco”, conhecia cada beco, rua, saída, subia por calçadas se possível. Claro que a carne paga o erro, e peças de platina no esqueleto são lembretes disso. Uma vez uma madame xingou-o após a mesma ter lhe fechado, a guerra diária é dos espertos, reduziu, camuflou-se no fluxo, ficando atrás, para depois acelerar e arrancar o retrovisor no bico da bota. Perdeu as contas de quantas vezes fez isso. Noutra vez o magnata, bateu na sua traseira arremessando contra o meio fio. Gato escaldado, saiu aos contrapés, comendo cavaco, mas se levantou. A moto estava tombada perto. Ergueu, montou, estava dolorido mas em condições suficientes para perseguir o agressor, conseguindo fazer com que o mesmo parasse. O velho grisalho era grande, forte, gordo e bem nutrido, permaneceu acordado ainda por cerca de 5 minutos quando ouviu xingamentos e recebeu um golpe de capacete na cabeça (que lhe custaram 3 dentes e alguns implantes posteriores). Justiça das ruas. Que seria plena, caso o agredido não fosse parente de um delegado, que lhe proporcionou carinhosamente uma noite no xadrez, com uma longa sessão de espancamento por horas da madrugada.

Solto, parecia que cada cicatriz era mais fermento de seu ódio. Ficou meses dolorido, mas como o “cão mordido por cobra foge até de lingüiça”, sossegou por um período. Claro que o rendimento caiu, com o baixar do ponteiro do velocímetro. Sua cabeça parecia que ia explodir eventualmente. Cansaço. Imagens. Buzinas. Tendões doloridos, Dores em juntas, articulações e músculos. Mas existiam o aluguel, a doença dos velhos pais. Precisava de dinheiro, mais e mais, e de seus vícios. Começou a aceitar a necessidade do risco, como um certo fetiche. E no seu humilde compreender da vida, entorpecer-se seria talvez uma boa forma de reduzir as dores. Ou de sobrepor-se a ela. Veio o pó. Quase morreu, os efeitos aliados a sua própria personalidade não eram dos melhores, além de fazer com que quase enlouquecesse, tinha taquicardias, dobrou sua ansiedade, e ficava um lixo depois que passava o efeito. Com anfetaminas, quase o mesmo descrito com o agravante ficar com mais dores de cabeça. O que veio lhe acalmar, foram uns eventuais baseados ao fim do dia, coisa que quase todos no seu trabalho faziam uso.

Era dinamite esperando por um fósforo, mas também tinha coração. Por mais que fosse chucro e bestial, sem capacidades intelectuais mais elaboradas, zelava pelos pais, já velhos e como falado doentes. Tinha poucos amigos, mas os que o tinham por estima cuidava como os verdadeiros amigos fazem. E foi por amolecer um pouco mais a craca do coração que um pouco de alívio surgiu aos poucos em sua alma. Uma noite cruzava a área de baixo meretrício (que ele freqüentava assiduamente), estava bêbado, e dirigir assim não lhe era nenhum problema, ia para casa , caso o que visse não mudasse seu rumo naquela noite.

Alguém discutia e espancava uma mullher. Bonita, nas roupas justas e insinuantes, que podiam ser de qualquer profissional ou de qualquer uma que volta do trabalho numa loja de roupas. O homem xingava, e se aproveitava do porte para bater na mulher. Ele parou a moto e tentou apartá-los, a mulher também não se fazia de rogada e o arranhava apesar de já ter tomado uns bons murros. Ele tentou dissuadir pelo diálogo, não tendo escolha, pôs o homem que não era tão pequeno, mas sim de boa constituição física, a nocaute. Como muita mulher gosta de dinheiro ela correu até o carro de portas abertas, pegou a carteira, e alguns pertences, ele não entendeu se dela ou do homem. Parece que neste momento o efeito da bebida começou a dissipar-se, ninguém viu o ocorrido, montou sua moto e decidiu ir embora. Metros adiante, viu a mulher correndo, maquiagem borrada, lábio sangrando, sabia que provavelmente ela seria hostil. A vida para algums expõe aos piores tipos de pessoa, portanto a postura é sempre de estar na defensiva. Ele oferece uma carona, ela por ter noção do que ocorrera, e por querer se ver o mais longe dali aceita. Ela o abraça como se fosse uma tábua de salvação de um naufrágio iminente. O perfume revira o estômago a muito maltratado dele. Param já muito distante de onde se encontraram, ele oferece um café com leite, numa padaria 24 horas. Ela aceita, ele percebe os belos traços, o longo e bem cuidado cabelo. Conhecia muita gente assim, devia ser nova, não estava tão destruída, ou precocemente envelhecida podia ser puta, mas nem pensou em perguntar. Se viu um pouco nela, na sua ignorância não saberia dizer por que, mas a nós que lemos essas sensações usamos o termo afeição. Conversaram por horas, frivolidades, nada com grandes fundamentos. Novelas, de planos dela de estudar, e dar-se um rumo saindo dessa vida. Que ele não entendeu, se era a cidade ou de algum trabalho, mas olhava as coxas dela e isso o fazia esquecer as perguntas. Ela dizia que não queria saber de mais loucos lhe perseguindo, que era um para-raio de doidos e maníacos. “A velha história de sempre, são todas iguais”, pensou ele. O dia amanheceu, ele deveria ter descansado para trabalhar. Pouco importa se faltar, que descontem o dia. Mas a conversa mudou de rumo, ele tomou uns conhaques a mais, ela sentindo-se a vontade pediu vodka, Martini, caipirinha e mais uma conta bem longa e acabaram num hotel fuleiro. Não que eles fossem atraentes um ao outro, mas num mundo onde se vende o corpo para sobreviver, se paga com o corpo os favores. Ele tem quase certeza que depois de tudo, antes de ir embora, ela surrupiou uns trocados.

Pode se dizer com o devido equilíbrio de analise de quem vê de fora, que se estabeleceu uma amizade. Viram-se outras vezes, muito mais por conversa do que por que sexo. Ela falava sempre de “largar a vida, de se dar um novo rumo”.Talvez arrumar um granfino, se dependurar nele, ou ir para a Europa tentar outra coisa nova no velho mundo. E se divertia com ele, com seus disparates e mau humor. Ele gostava de falar, por que se contia tanto, se prendia no intramundo de seu capacete que só conseguia relaxar e ser alguém ao lado dela. Crucificava a todos, os ricos, os pobres, os padres, os burgueses, o centro-avante de seu time que não marcava gols, até os próprios pais por lhe amarem tanto e lhe empurrarem a responsabilidade de cuidar de ambos na doença. Importante não se confundir, o tema aqui é amizade, confiança, não amor ou romance. Certo que existia sexo, como existe sexo entre cães, gatos, hipopótamos e ornitorrincos. Nunca se beijaram por paixão, apenas por que uma hora acabava o assunto. E como uma coisa leva a outra...

Essa narração começou com ele enfurecido, rasgando o asfalto, é noite e ele ruma a um endereço que ela lhe forneceu ao celular. Pois bem, o que o enraiveceu, foi que a conversa pela primeira vez entre ambos previa um fim. Ele apesar de bronco e um tanto burro, sabia que ela era tanto ou mais miolo mole que ele. Sentia raiva dela agora, pois perderia seu pedaço a mais de humanidade recém adquirido nesses meses. Corria até a kitnet onde ela morava a fim de desestimulá-la de um de seus devaneios que agora, parecia se tornar realidade. Ela o convocou. Tomou a inciativa dizendo querer entregar um presente. A conversa se acalorou tanto que a ofendeu aos berros, sendo que ela não esboçou reação alguma.

Fato que ele não sabia onde ela morava até então. Ela resguardava seu mundo em muita privacidade, ele mesmo que amigo, fazia parte de toda sordidez que ela vez por outra queria se livrar. A moto cruzou a cidade e chegou ao seu destino. Prédio pequeno só kitnets, lar de estudantes e de quem não tem muito para pagar um lugar maior. O porteiro o recebeu, perguntou o nome e disse que tinha uma carta, e que a moradora deixou a chave para ele. Isso o enfureceu mais. Entrou no elevador, saiu no andar que lhe foi avisado. Era um local simples, com móveis nitidamente comprados de segunda mão que não combinavam entre si. Abriu o envelope, tirou um papel com letra de menina, redonda, bem desenhada mas com erros de português que ele também não identificaria, dizia assim:

“ fui embora, para um lugar que você vai saber só quando for a hora certa,
já conversamos muito de muita coisa, e você me conhece como eu um pouco
de você. Sei que tem coração, e é quem posso confiar. O último aluguel foi pago,
o zelador vai vender minhas coisas e deixar o apartamento vago,
depositando o dinheiro na minha conta que posso sacar de qualquer lugar.
Minha estada nesse lugar já foi.
Te deixo meu maior presente no quarto, você é o único a quem
posso confiar o que tenho de mais precioso, e que me separo agora. Adentre o
quarto...até um dia, darei notícias”

Um pouco da raiva passara ao fim da leitura. Ele demorou um pouco para processar as informações pois não era dado a ler, quisá compreender esses símbolos. Deixou o capacete e as chaves da moto de lado. Ficou sentado no sofá. Olhou todo o cômodo, que na verdade tinha uma divisória, um tipo de biombo que criava um “quarto” em separado. Levantou-se foi até a cozinha pegou um copo d´gua. Abriu a porta viu uma cama e um pequeno berço. Lá estava um bebê. Dormia entre cobertores e roupinhas azuis. Quase engasgou no ultimo gole do copo. Ficou trêmulo. Como pode o sujeito deslocar maxilares e se por fraco diante de um ser tão frágil? Voltou, leu a carta de novo e finalmente compreendeu. Ele sentiu as pernas bambearem, e ao invés do já acostumado estômago dolorido, quem pareceu descompassar foi o peito. Tomou a criança no colo com uma sensação indescritível de medo, sentou-se no sofá novamente, olhou para a janela e viu o vento passando, uma buzina tocava longe. Diante de tanta fragilidade, parece que o mundo tomou mais falta de prumo. A menino aos poucos acordou, se entreolharam e por fim ambos não entenderam nada.

Comments

Salve Marecelo,
Tudo bem?

Não li ainda suas crônicas, mas passando a vista os textos me pareceram bem interessantes. Foi um enorme prazer conhecê-lo, espero que possamos nos encontrar outras vezes. Segue o endereço de meu blog: www.milplatos.blogspot.com
Abraço

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