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sombras.

Esperava dentro do carro. Olhos fixos no outro lado da rua. Deixara o celular no modo silencioso, e agora o retirava do bolso para conferir as horas. Em alguns minutos quem aguardava ia aparecer. Deu uma rápida olhadela pelo retrovisor, ninguém ia ou vinha, como ele bem previra.As coordenadas que recebera estavam corretas. Elas sempre eram precisas. Estava tranqüilo. Tinha jantado horas antes. Quando saia a noite sempre jantava. Era um costume que a mãe lhe incutira desde de garoto. O carro todo estava imerso na escuridão da noite, a estação ajudava, escurecia cedo, mas a tranqüilidade do bairro se dá por ser afastado. Abrigo de classe abastada que não quer se ver cercada de miséria. Uma nova percepção de “exílio” na cidade com a proteção dos bolsões residenciais. O celular trabalhava como relógio. Um sutil toque, ainda que sentido por luvas, dava o tempo que se precisava saber. Por outro lado o pequeno aparelho não cumpria sua função primeira com tanta freqüência. Uma pessoa apenas sabia aquele número, ainda assim era acionado pouquíssimas vezes. Não se conheciam, nem quem liga, nem quem recebe a ligação. Em geral quem ligava, falava mais, e quem escutava encerrava a ligação depois de um aceno de cabeça para si próprio e um “Compreendi”. No decorrer desta noite tocará mais duas vezes, sempre nos horários combinados.

No devido tempo, quem era aguardado apareceu. Ou melhor, o carro deste. Um utilitário, do tipo cupê, quatro portas. Carro simples para o padrão do proprietário. Tinha outro, um blindado importado, como bem sabia aquele que o esperava. Mas revesava o uso dos carros, deixando a “segurança” eventualmente em casa, fosse por descuido, fosse vontade de variar, pouco importava ao homem que o aguarda. Este nada sabe sobre o rico do outro lado da rua, nada além do motivo que o faz estar ali. O carro do observador está estacionado num ponto onde há visão total do portão de entrada da casa do homem que chega. E com essa visão enchendo sua retina, sente o estômago apertar, e uma pequena gota de suor descer-lhe a testa.Uma frase “sempre acontece”, é o pensamento numa fração de segundo em sua mente. De dentro da jaqueta de couro, ele tira uma pistola de alta precisão com silenciador na ponta. Está a uma distância considerável do alvo, o vidro com película negra do carro desce, macio, silencioso na comodidade dos modernos apetrechos eletrônicos.

No lampejo de tempo seguinte, pouco antes de adentrar o portão, o homem que chega ao lar, recebe um projétil no crânio. E tomba como se seu espírito tivesse sido arrancado, pelo destino passante á suas costas. “Não sofreu” pensa o observador, que já tem a pistola desmontada e devidamente guardada numa caixa de papelão embaixo do banco. Ninguém vê o corpo, um cachorro aparece e começa a latir, uma luz acende na parte da frente da casa. O carro do atirador segue seu caminho, sem dores de consciência ou preocupação em ser visto. Contorna algumas ruas, seguindo especificações prévias, indo por desvios, ruas menores e desabitadas, passando por luxuosos condomínios em construção até pegar uma avenida principal. Pouco depois liga o som do carro. Música clássica. Chegando próximo a ponte do grande rio que rasga a cidade cinzenta, apanha a caixa embaixo do banco, passa uma fita adesiva em seu entorno e arremessa. Ele assiste calmo o negrume fluido tragar o objeto, rápido no silencio de águas que quase não se movem.

Pouco depois de cruzar a ponte, deslizando no asfalto entre outros carros, vê no sentido oposto, algumas viaturas e uma ambulância com suas sirenes escandalosas. É como se não soubesse, ou fizesse para si mesmo que não soubesse. Acompanha com os olhos no retrovisor sumirem depois da ponte. O celular toca. A voz de quem ele sabe mas não conhece o pergunta. “Feito?”. Ouve um simples e sintético “Sim” como resposta. O interlocutor, responde com uma frase mais articulada. “Ótimo, sempre bom contar contigo. Só para constar, 50 a 50 como sempre combinamos. Metade numa conta em separado, depositado em dinheiro amanhã ás 10 horas, outra no envelope como gosta de receber”. Ligação encerrada. Não existia nenhum tom de amizade, ou cumplicidade nessas palavras. Era a tradução pura das relações de negócios, beirando ambas vozes tomarem tons monolíticos a cada conversa. O balanço dos jogos de poder entre ambos tem sua estabilidade no silêncio que é quebrado quando necessário, ou na conversa de hora marcada.

Roda por minutos que poderiam ser muitos ou poucos, pois sua mente não se preocupa com o tempo. Ele vê os prédios, as largas avenidas, pensa na organização louca da cidade. Ao parar num farol um motoboy passa, olhando-o na escuridão. Parecem ser olhos que o conhecem, e se vão sobe o facho amarelado dos faróis. Segue seu caminho, desliga a música, prefere o som da cidade quase dormente. Ao passar por uma dúzia de apartamentos pensa no que as pessoas estariam fazendo naquele momento. Comendo? Vendo novelas? Fodendo umas as outras em amor e traição?Adentrando o centro, estaciona o carro numa rua deserta, próximo de mendigos que se esquentam ao lado do fogo de uma lata amassada e negra. A evolução humana, das grutas para marquises e calçadas. Desce deixando a chave no contato. “Melhor estar com chave quando o dono o encontrar”. Caminha com andar tranqüilo, sente o ar viciado do centro. Fecha os olhos tentando identificar odores. Churrasquinho, cigarro, milho verde, esgoto, bebidas baratas, suor humano de quem trabalhou o dia todo. Ele entra na estação de metrô, tira as luvas que protegeram até agora suas digitais, e as joga no lixo. O bilhete desliza, e a catraca é girada. Algumas pessoas estão no vagão. Uns meio sonolentos, outros conversando, a maioria fechada no próprio mundo seguindo o rumo de suas vidas. Passam-se algumas estações. No metrô ele é mais um na multidão. Anônimo. Senta-se tirando do bolso interno da jaqueta, um livro pequeno. Willian Blake. O inglês deixou escrito: “... Nas florestas da noite, que olho ou mão imortal ousaria, criar sua simetria?... Em que céus ou abismos flamejou o fogo de teus olhos? Que mão ousou esse fogo tomar? Que forno forjou sua mente? Que punho magistral captou seu terror mortal?... Quando os astros arrojam seus astros, cobrindo de lágrimas os céus....”. As palavras dançam na mente do leitor. Ganham uma interpretação única, com significados difusos ao que o poeta gostaria de dizer. De repente a imagem do homem baleado minguando sobre as próprias pernas invade sua mente. Ele pensa nos desígnios de Deus, pensa na deformidade de Sua Criação. Na miséria. Seus pensamentos sempre vão e voltam, sobretudo após os “trabalhos”. O metrô corre, com o aço dos trilhos guinchando como uma besta no atrito de locomoção. Põe-se a pensar noutras leituras, na interpretação. Lembra-se que Lúcifer é a estrela da manhã, e outrora foi anjo. Anjos são as mãos sujas de Deus, que dilaceram homens e queimam cidades. Soldados, assassinos. Mercenários pagos no Grande Amor Eterno. O telefone toca. “Mais um trabalho, o envelope chegará com o do pagamento”. Finda a ligação.

Descendo do metrô pega um táxi. Explica um trajeto ao motorista. Desce ruas, sobe outras, pega trechos, enquanto do banco de trás o passageiro vislumbra a cidade. É na noite, deduz ele, que a cidade é mais iluminada, solitária e triste. E é apenas assim que se pode percebê-la de fato, que se pode sentir ser mais uma peça da trama, ou uma presa em uma enorme teia de desconhecidos. Talvez ela, cidade monstro e cinzenta, opaca e opressiva, desproporcional e deformada, seja um reflexo de todos que correm suas entranhas. Aí o grotesco se torna expressão da humanidade, ou de uma beleza, doentia, caótica com espaço a arrastar a reboque inúmeros adjetivos. Ele vê que as edificações traduzem isso. Tudo está escrito na arquitetura. A solitude, o medo, o desejo, a paranóia. Só se pode traduzir por isso. A loucura de nossos dias. Arremata o pensamento. “Quem de fato não o é?”. Viver é danação, pensa. Desce a algumas quadras de casa, tira um maço de cigarros do bolso, a fumaça enche-lhe o pulmão, trazendo a sensação boa de sempre. Em frente a uma fonte ele para, tira uma moeda de metal avermelhado do bolso, o menor centavo, e joga. Ela some enquanto ele mentaliza “mais um dia, para um dia”. Ele próprio desenvolveu a superstição, ninguém o ensinou, ou falou, apenas ele sente. É como se comprasse um passe de sobrevivência diário. A cada dia de missão, a cada volta para casa. O monumento continua estático e firme em metal e concreto, não se moveu um milímetro esses anos todos, até a água que desce por seus pés parece ser a mesma. Uma vez um bêbado perguntou-lhe por que fazia isso. Ele ainda tem a resposta em mente. “Não sei, só me sinto bem”.
Entra num prédio baixo, 4 andares, mora no ultimo apartamento, privilegiado com uma ampla sacada. Deixa chaves num móvel, acende a luz. Tudo organizado como gosta. Apanha um controle remoto, direciona ao aparelho de som que responde com sorridentes luzes coloridas. O ar se enche de jazz. Apanha uma caixa num móvel, tira do bolso a foto que lhe foi enviada identificando o homem que recebeu uma bala no crânio. Lá, ela é depositada junto de uma porção de outras. Fecha a caixa. Lacra as memórias, sela os pesadelos para que de lá não saiam. Deita-se no sofá e dorme. Sonha. Vê a si próprio sentado num parque, conversando com o demônio. Só que o demônio tinha uma feição amigável, e ambos travavam um diálogo tranquilo. O diabo vestia um terno bem cortado, barba por fazer, segurava um cigarro numa mão. Seus olhos eram muito vivos e incandescentes. Falava que gostava de observar, e de medir a resistência da Criação. Assumia-se de fato ciumento, pois afinal sua queda, seguido do desencaminhar de outros anjos e homens se deu pela rejeição, afinal todos esquecem que Deus é Pai também do diabo. “Escuta, os professores sempre lembram dos alunos problema, nunca dos bons moços. Me entenda, sou filho de um Pai sem mãe, nem a psicanálise dá conta de explicar meu complexo. No mais prefiro reinar no meu canto a ser servo de outro, mas admito minha saudade. Você já parou para pensar que Pai é esse que não corrige o filho rebelde, e ainda lhe dá um reino? Afinal, tenho passe para fazer o que quiser, onde e como, e com assinatura divina...”. O restante da conversa provavelmente ele não vai se lembrar, e talvez também seja irrelevante. Segue ao profundo da inconsciência, passeando no onírico. Como quase todas as noites, seu dormir se dá no sofá que já tem o formato de seu corpo. Por que o sofá também nunca conheceu outro corpo, e ele nunca recebe visitas. Desde que entrou para a organização, depois de traumas do passado, sua vida tem sido de uma reserva sem precedentes. Não recebe telefonemas. Nem cartas, não tem também uma vida virtual ligada a internet. Só a organização lhe liga por intermédio daquele que só se reconhece a voz. Quando foi contatado, anos atrás, recebeu todas as coordenadas do que seria seu dia a dia. Auto-exclusão, renda fixa, passe livre em inúmeros meios, simplesmente por fazer o que poucos tem coragem, e ainda de maneira limpa. Não tinha identidade, seu passado ficou apenas nas lembranças. Talvez não se lembre de seu nome dado o tempo que não o usa. Até mesmo já usou outros, poderiam se enganar também entre eles. Assumiu de vez não ter identificação. É ninguém. Talvez por isso foi escolhido. Talvez existam outros como ele. Andando entre todos, deslizando nos dias. Quem sabe já esbarrou noutros no metrô, no cinema, no restaurante. Nunca soube quem eram seus “trabalhos”, só recebia a mensagem, as coordenadas, apertava o gatilho, sumia-se da memória e da cena. A organização tinha tentáculos em todo lugar, até mesmo para que o vigilante do condomínio onde o ultimo trabalho foi feito não estivesse lá para atrapalhar ou tornar-se uma vítima das circunstâncias. Não sabia de onde vinha o dinheiro que sustentava sua vida. Nem quem, nem por que, e isso de fato com o tempo perdeu toda importância.

Ao amanhecer, ele toma um banho revigorante, prepara um café, e vai até sua caixa de correspondência na portaria do prédio. Lá estava como combinado o pacote, volumoso, pelo dinheiro que sabia estar ali e um outro envelope. Dessa vez não trazia foto alguma, trazia uma mensagem: “Vá até a praça central, meia noite e meia. Sente-se num banco e espere”. Estranhou a mensagem. Mas não fez caso. Pensou a quantidade de mensagens estranhas que recebera todos estes anos, essa seria mais uma provavelmente. Decidiu sair, vestiu-se, foi ao estacionamento onde estava seu carro. Ligou e saiu. Não tinha muito o que fazer, tinha muito tempo livre. Rodou a mesmo pela cidade. Pensou em muitas coisas, e se permitiu pensar no tempo, no futuro, por até quando faria o que faz? Um pesar correu seu peito. Estacionou o carro, abriu a carteira e tirou um papel amassado a muito guardado. Depois de anos, quebrar protocolos era o de menos. Desceu, caminhou um pouco, chegando num telefone público. Depois de tempos, a ligação é atendida, uma voz feminina e envelhecida, atende. “Mãe?”. Do outro lado a ligação é encerrada. Vê uma agência bancária, caminha até ela, no caixa automático faz uma transação de transferência.

Sente fome. Num restaurante já conhecido dele, escolhe uma mesa no canto, o garçom vem sorridente, anos de atendimento e ambos trocam apenas formalidades, por mais que o atendente se empenhe em ser agradável. O som dos talheres e pratos, o burburinho do salão chamam sua atenção. Ele é um observador nato, percebe as fraquezas e forças de todos no entorno, na linguagem corporal. Chega seu bife, guarnição e vinho. Uma boa refeição anima o corpo, mas algo o deixa inquieto. Decide voltar para casa ao fim da refeição. Em casa, deixa se levar por pensamentos, tenta organizar episódios de sua vida que o conduziram até este momento ali. Nada parecida ter saído de seu controle, por outro lado não sabia até que ponto tinha cordões de marionete ligados a manipuladores desconhecidos. Poderia ser isso o que o inquietava. Liga a tv. Nada atrativo. Coloca um disco no dvd player. Cai no sono. Novamente sonha com a conversa com o demônio, só que dessa vez ele tinha feição, a do bêbado da fonte. Novamente a conversa parecia ser irrelevante. Ele acorda pensando na mãe e no tempo que tinha um nome, um endereço, uma rotina comum e ordinária. Sentiu saudade. Vontade de ver o sol numa terra distante. De ser chamado por um nome. Seu nome.

A noite vem, sorrateira e sem pressa. Ele tem um lugar para estar. Á meia noite ele escolhe um banco da praça e senta-se. É um local amplo, muito calmo e espaçoso. As noites tem sido cada vez mais frias. A garoa que cai faz com que ninguém saia de casa. Ele vê alguém se aproximar, reconhece pela feição. O mesmo bêbado. Cada dia mais sujo. Fedia a cachaça e falta de banho. Passa por ele dá um aceno de mãos. “Ainda com o costume das moedas?”. “Sempre” é a resposta dada. “Olha meu amigo, Deus e o Diabo têm a mesma face”.Isso falado se distancia procurando uma marquise para dormir. Ainda faltavam 30 minutos para o horário combinado. Ele olha o bêbado enrolando-se num cobertor fino, desses distribuídos em albergues. Percebe que esta num ponto que privilegia a visão de qualquer um. Como sempre seguindo ordens e não saindo da linha, pôs se como possível alvo. A deliberação de vir a praça foi perfeita nesse aspecto, pois todos os bancos estão dispostos de maneira a serem visíveis de qualquer lugar. Poderia escolher qualquer canto para uma tocaia, se aqui estivesse para isso. Ele olha onde escolheria montar sua arma. De sua preferência pessoal, seria onde estaria o carro que ele observa da praça. Essa onda de desconfiança, e de seu atual estado de “rebeldia”, começa a trazer calafrios. “não fiz nada que não fosse o solicitado durante esses anos, nunca me atrasei, sempre fui pontual...”. Olha o relógio da praça, faltam 20 minutos para o horário marcado. Pensa em ir-se embora, aguardando a ligação da voz que conhece e explicando a falha. Ele se levanta. Contorna a praça, tentando manter um andar calmo. Sabia como a organização operava, tudo era dentro do tempo, nada acontecia no momento que não fosse. Entra numa rua próxima. Começa a refletir, e a inundação de possibilidades assustadoras o perturba. Decide então, retornar. Entra por uma porção de travessas, cruza transversais. Esconde-se nas sombras, por baixo da camisa encontra o cabo de um revolver, escondido e sempre posto a tiracolo para proteção. Observa o carro estacionado. Vidro escuro. Amparado pelas sombras das marquises, vem se aproximando como um gato, pé sobre pé. Faltam 5 minutos, ele se aproxima do vidro e vê o vulto de uma arma ser apontada na direção dele. Por sorte sempre teve os reflexos treinados e atinge o motorista a tempo de se safar. Ambas armas tinham silenciadores. Só o vidro estilhaçado faz barulho. Sai sem deixar vestígios, muito antes de alguém der pelo corpo no carro em plena praça central.

Volta para casa. No caminho o celular toca insistentemente. Ele o arremessa pela janela quando passa pela fonte próxima. Uma decisão é tomada. Voltar a ser alguém ganhando um anonimato de luz e vida, ao contrário do que vivencia. Recomeçar noutro lugar, onde guie os próprios passos. Onde o destino se construa dia a dia. No apartamento, faz uma coleta de pequenas coisas, dinheiro e pertences. Antes de sair pelos fundos, faz uma ligação anônima aos bombeiros, de um incêndio no apartamento do quarto andar. Deixa o gás ligado, de fora atira contra a janela. De forma improvável a fagulha detona uma bola de fogo que o apartamento não pode conter. Entra no carro e traça um mapa mental do que fazer dos lugares onde seria menos arriscado passar. Por outro lado tanto plano o remete aos últimos anos. Quem sabe de agora em diante sua vida esteja salva pelo improvável. Rumou a principal estrada de saída. Olhando a cidade como se fosse a ultima vez e por este instante não viu deformidade ou tristeza, viu apenas a cidade, os prédios e ruas. Os bombeiros passam correndo ao seu lado. Sua mente é só duvidas. Sabe que tem os dias contados a partir de agora, mesmo assim põe se feliz estrada a fora, rumando ao real desconhecido e improvável, devorando a estrada, voraz e desesperado. A alegria inunda o coração dos condenados quando estes se vêem diante de um horizonte sem fim.

No dia seguinte uma voz conhecida liga noutro número de celular. O tom é o mesmo burocrático e frio de sempre. Um envelope é aberto e a foto do homem que incendiou o próprio mundo sai de dentro. A voz diz. “você tem todas as coordenadas”. Um carro ganha a estrada seguindo os caminhos de outro. Deixa para trás a cidade cinzenta, organizada e caótica, com a certeza de que nem deuses e nem anjos habitam essas paragens.

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Sapatos

Estranho como a mente processa a memória e assim nos ofereça respostas. Os tempos são de angústia e ansiedade. As notícias que chegam de todo lado, só fazem trazer desgosto. Houve um tempo, que eu passava incólume por um mundo que se despedaçava, mas não me sinto mais capaz para isso hoje. E talvez a música no ouvido, injete uma porção de nostalgia no coração para que as nuvens mais escuras da alma, abram espaço para a boa sensação. Assim, você se contesta. É como se o homem de hoje, olhasse frente a frente nos olhos do menino do passado.  As importâncias que se transformam. As prioridades que ficam para trás, solapadas por outras cada vez mais pesadas e estruturadas. Na rota intermitente e incessante da vida, que pode virar um enorme triturador de sonhos, se não for conduzida com mão firme. E as soluções nos jogos da mente, brotam, como respostas de pouca duração.  Penso no quanto a maneira de se vestir, e mais especificamente de se calçar tem uma certa importância ...

Contando.

Sentindo como se a jaula fosse romper. E como se eu pudesse correr sem saber a direção. Talvez o trabalho não seja ruim como se pretende. Ou seja demais para se acreditar. Fato é que o medo aperta seu estômago até quando se é pela felicidade. O medo derrete a certeza. Na confiança frouxa só o ditado do velho pai. "Cachorro mordido por cobra foge até de linguiça". o relógio corre. sem piedade. foto: rodrigo kristensen: http://rodrigokristensen.tumblr.com/post/8303194050/my-windows-view-of-sao-paulo-taken-with-instagram

De 1 a 2.

um brilho de olhos claros acende meu coração. toca em pele alva minha negra alma na noite do sono tranquilo sinto seu doce respiro mãos buscam abrigo no meu peito e um beijo suave carimba em silêncio as minhas costas. eu gostaria de entregar palavras que valem o mundo que afaga o coração ferido e estende a mão ao sofrido nos campos de batalha da vida eu planejaria mundos, arquitetaria idéias e artifícios mas me perco, e rodopio usando as palavras simples do dia a dia, só dizendo o que sinto. eu tenho uma vida cheia de passado e um futuro de possibilidades, vocalizações ferozes de meus demônios medos e muralhas que caem um após o outro pois eles não tem espaço, como não tem os abutres que nos veem de longe. pois ontem fui um, e com você sou dois, no caminhar infinito do que virá.