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verões perdidos e heróis japoneses

Nestes dias de verão abrasador, meio egípcio, meio grego, eu me lembro de coisas que talvez a memória sempre resguarde. Eram dias quentes como este. Fevereiro, fim de janeiro de um ano qualquer perdido á pelo menos umas duas décadas atrás. Eu ia para a escola com minha troupe de amigos. Zoneava pelo caminho, tocando campainhas, roubando frutas dos pés dos quintais, fugia dos cachorros. E esperava a chuva, para fazer corrida com palitos fósforo, no meio fio, ladeira abaixo. Para ver o asfalto (a maior novidade do bairro) quente soltar vapor...e ficar feliz por conseguir derrubar algum dos colegas nas poças d’água. E do nada a chuva ia embora, deixando uma brisa leve e fresca. Trazendo o cheiro de mato, de capim, de árvores, dos loteamentos que ainda não tinham casa. Nossos cabelos encharcados e roupas enlameadas...Eu corria para casa a tempo de jogar a roupa suja no cesto, e chegar antes de minha mãe voltar do emprego. Eu devia estar em casa antes, pois era o mais velho e tinha de cuidar de meus irmãos mais novos.

A rua que morei , ficava intransitável estes dias e era muito certo descer quase de bunda escorregando até chegar em casa. Eu tomava uma banho quente, escovava o cabelo, tomava café com biscoitos, o mesmo hábito que mantenho até hoje. Me sentava na sala com a porta aberta para sentir o ar fresco, e com meus irmãos Léo e o Rodrigo assistir Ultraman, e depois Ultraseven. Depois nos estapeávamos feito loucos imitando golpes, sonorizando raios imaginários com a boca, e esmurrando com golpes de “karatê” as almofadas que minha mãe adorava. Quando cansava eu pegava meu bloco de desenho e de memória ia reconstituindo cenas, combates de uma Tóquio que nunca conheci, e sempre estava de pé para ser destruída no episódio do dia seguinte. E assim como a chuva, a vontade de ser o super-herói japonês passava, e improvisávamos um futebol na sala...Até quebrarmos um vaso, que na nossa ingenuidade montamos caco a caco com cola tenaz. Incrível como a gente pensa que virando uma peça quebrada, que ela fugirá aos olhos atentos de uma mãe que conhece seu lar e filhos... Ficarmos de castigo...Dias vendo a chuva cair , a enxurrada na rua, as gotas, a brisa, o cheiro de mato, dá janela de casa. Do mesmo jeito que hoje pois nem tudo muda, nem tudo tem que mudar.

(19/01/2006)

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Sapatos

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Contando.

Sentindo como se a jaula fosse romper. E como se eu pudesse correr sem saber a direção. Talvez o trabalho não seja ruim como se pretende. Ou seja demais para se acreditar. Fato é que o medo aperta seu estômago até quando se é pela felicidade. O medo derrete a certeza. Na confiança frouxa só o ditado do velho pai. "Cachorro mordido por cobra foge até de linguiça". o relógio corre. sem piedade. foto: rodrigo kristensen: http://rodrigokristensen.tumblr.com/post/8303194050/my-windows-view-of-sao-paulo-taken-with-instagram

De 1 a 2.

um brilho de olhos claros acende meu coração. toca em pele alva minha negra alma na noite do sono tranquilo sinto seu doce respiro mãos buscam abrigo no meu peito e um beijo suave carimba em silêncio as minhas costas. eu gostaria de entregar palavras que valem o mundo que afaga o coração ferido e estende a mão ao sofrido nos campos de batalha da vida eu planejaria mundos, arquitetaria idéias e artifícios mas me perco, e rodopio usando as palavras simples do dia a dia, só dizendo o que sinto. eu tenho uma vida cheia de passado e um futuro de possibilidades, vocalizações ferozes de meus demônios medos e muralhas que caem um após o outro pois eles não tem espaço, como não tem os abutres que nos veem de longe. pois ontem fui um, e com você sou dois, no caminhar infinito do que virá.