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Enterros



Três enterros em três meses. Pensou em asas negras pairando sobre a família. Dois tios morreram num período muito curto, não se conformava que isso acontecia. Mas o baque maior foi no último. Ele recebeu por celular a mensagem. "Seu avô morreu". A ordem da vida se faz exata, mas mesmo o velho já havia visto isto, seu sangue baixara na terra duas vezes antes dele. Sabia que o avô entendia a dor da perda, e como por isso foi fechando-se em uma carcaça endurecida. Falava pouco, gostava de sua pinga, mas gostava tanto que a medicina separou este casamento de anos. Era um tanto embrutecido, pelo sol, pelo trabalho pesado e pelas derrotas da vida. Sub-alfabetizado trabalhara como chapa, de músculos poderosos erguendo como estivador a carga de caminhões e também descarregando deles a riqueza dos outros. O corpo na juventude fazia a pele negra brilhar intensa sob o sol. E as mulheres adoravam isso. Era bom com os nervos rijos do corpo e de braço. Nos botecos da vida, não levava desaforo para casa. Anos mais tarde aprendeu a dirigir. Sentado atrás do volante, era a pura segurança, sentia domando um elefante, dedos firmes enfiados no plástico redondo, mandando a fera voar pelas estradas. Viu muito mais regiões que os próprios filhos e netos.

O avô era ainda Seu padrinho de batismo. Um batismo que antecedeu seu conhecimento e questionamentos sobre Deus. O velho inúmeras vezes cobrou dele que fosse "sujeito homem", nas poucas palavras que soltava. Mas também era divertido, aos 12 anos, ouviu a pergunta "e as namoradas?". O avô sabia se divertir, e adorava um rabo de saia. É notória a história de família que tinha uma amante por vários anos. Amante essa, sogra de uma de suas filhas. Sua esposa, a avó, era uma mulher simples e amorosa, mas ao mesmo tempo, um vulcão enfurecido. Eram crias de outro mundo e outro tempo. E quando sabia dessas escapadas não se entregava em submissão, quebrava as coisas de casa, rasgava e queimava roupas no quintal. O velho odiava isso, era vaidoso, sempre de camisas passadas e o bom e vistoso chapéu sobre a cabeça escondendo a careca.Nunca se separaram. Em décadas de brigas viajaram, criaram filhos, choraram a perda juntos. Quando o câncer a roubou deste mundo ele estava a seu lado. Segurou sua mão, com os olhos rachados em veias vermelhas, sem derramar uma lágrima e levou de encontro no jazigo da família com os filhos que foram antes.

O velho fechou-se depois disso. Afastando-se aos poucos das filhas, suas únicas parentes. Durante a vida toda foi presente em tudo. Casamentos, nascimentos, batizados, separações, doenças, formaturas de netos, compra de casa das filhas. Ele pensa. Lembra da amante e tem certeza que o avô esteve do lado dela. Ele começa a matutar sobre si mesmo, nos anos que ficou sem falar com o avô pois a mãe e as outras irmãs o acusavam de manter "a vagabunda" por anos. Mas o amadurecimento chega a todos, e um dia de Natal foram almoçar juntos, no parapeito do quintal alto que dava para a rua o velho homem negro, postou sua mão ainda firme o ombro Dele e falou do orgulho que o neto podia trazer a um homem que ja tinha visto tantas coisas. Ele sorriu. Nesse lampejo de memórias entendeu como poderia falhar com as mulheres que amou, da mesma maneira que o avô. Começou a entender de seu perfil pessoal de onde vinha toda a gana de animal de querer entender o rebolado das mulheres, e de soltar fala macia aos ouvidos das fêmeas que gostam disso. Que seja biológico,e se não for pelo menos é uma ótima desculpa.

Mas o cigarro e o alcool cobraram seu preço. Caiu doente. Um derrame. Dois derrames enfileirados um atrás do outro. Suas filhas se mobilizam para ajudar. Pagam uma enfermeira. Revezam-se para sempre estar por perto. Ele delira, briga. É bicho solto demais no mundo para ficar em casa preso em uma cama. Insuficiências vão cobrando resposta de um corpo que não tem mais tanta agilidade. Os dias ficam longos e tediosos. Um dia ela aparece. A amante. Num momento de maturidade e abrandamento dos rancores, uma das filhas permite uma visitação. O homem esta ligado a um tubo de soro, deitado na cama, abatido e fragilizado, nem uma sombra da potência física que foi um dia. Ela se prostra do lado da cama. Fria, empassível como uma estátua de praça. A filha que permitiu a visita pergunta: "Vai nos ajudar? Ele precisa de você.". Ela pega a bolsa, joga sobre o ombro, diz apenas uma frase. "Desse jeito não o quero". A filha a puxa para fora com violência, chamando a de vadia, fria e uma lista enorme de impropérios. Vê as costas e os passos dela se afastando como resposta. Nem filha, nem amante viram, mas dentro do quarto uma lágrima rolou fugidia do canto do olho, e escondendo-se na brancura do travesseiro.

Entre esse evento e a mensagem de celular que Ele recebe, correram menos de 30 dias. No dia seguinte ele escolhe uma camisa pólo preta. Não é dado a cerimoniais, mas acha que pelo menos uma vez na vida, deve seguir o protocolo. Era um dia de outono, sol com uma brisa fria. Parentes de anos, vão aparecendo. Fazem alegre um momento triste, por cada um contar suas conquistas e reviravoltas do destino. Os velhos homens, ficam pelos cantos, sérios como sábios anciãos. Ele olha e vê seu pai papeando da mesma forma com outros velhos. Vê as irmãs, suas tias, e mãe abraçando-se e chorando. A dor é sempre maior do que se pode aferir. Na sala de velório, o corpo jaz na madeira ladeado de flores amarelas. Uma ladainha de orações domina o ar do ambiente, parecendo um blues rural. Triste e melancólico, as vozes eminentemente femininas reverenciam aos santos e santas que guiem o caminho do pecador ao descanso final. Ele fica tocado, mantem as mãos nos bolsos. Se Deus existe ele falhou mais uma vez. Ele é convocado. O choro, as lamentações e perguntas ao criador cessam. Pela primeira vez na vida ele segura a aste de um caixão fechado sendo a primeira cabeça do cortejo. A tampa já esta fechada. Acima dela, desafiando a brisa o chapéu que anos ficou sobre a cabeça do velho. Ele carrega de peito erguido, vendo na distância a cova aberta. Fosse anos atrás, Ele veria seu pai fazendo isso. É seu atestado de maturidade na família. É um dos homens agora, com o compromisso do nome e do zelo pelos demais. As árvores chacoalham. As orações param mais uma vez. Ele olha por sobre o ombro e vê uma pequena multidão de rostos negros e morenos que segue. Não tem nada de filme. Pessoas comuns com roupas de dia a dia. Nada de ternos. Apenas pessoas simples que enterram um dos seus. Ouve a as cordas rangerem e ajudarem na descida a cova. Uma das dias, gordinha, segura o chapéu aos prantos, com seus dedos roliços, dizendo "Xau pai vai com Deus". Em 30 minutos tudo está acabado. Os carros na avenida continuam correndo. Com motores quentes e sem sentimentos alheios a dor guardada no cemitério. São 13 horas e 15 minutos. A vida continua seguindo, e assim seguirá. Quanto a Ele, viu um pedaço de sua história terminar e ao mesmo tempo dar a resposta de quem é e por que é assim.

dedicado a Antônio Cândido da Silva, um homem comum, meu avô.

Comments

Andréa Laila said…
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