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à caminho do trabalho, expectativas e falta de paciência

uma manhã em agosto de 2005...

Após meu café da manhã me pus ao caminho do trabalho. Eu teria que enfrentar centenas de cabecinhas hiperativas do colégio onde dou aulas. Seria indagado, acusado, sacaneado, mal-visto, escarrado e crucificado, por todas aquelas alegres pestes, mas não entregaria os pontos com facilidade. È um embate um tanto bruto, uma guerra de nervos freqüente, que põe em xeque, minha forma de ver este mundo escroto ante minhas esperanças de mudança. Passo o primeiro semáforo, embaixo do minhocão. Coisa horrenda, um viaduto de concreto que serviu mais para dar um ar “Mad Max” á cidade, escurecendo-a, empobrecendo-a e servindo de abrigo á tantas almas desgraçadas... Sobre isso discorro outra hora. Chego ao enorme corredor chamado Avenida Duque de Caxias, lojas de acessórios automotivos as pencas, misturando-se á hotéis decadentes, calçadas apinhadas de viciados em crack, jornalistas modernosos com caras de assustados e muita gente, isso, gente servil, dedicada cheirando á sabonete que não quer perder a hora do trabalho. Eu olho o relógio de rua (que por um milagre hoje funciona), 6 horas e 45 minutos... Eu penso nos malditos 20% da população que devem ou estar dormindo ainda, fazendo digestão de um jantar rico em tudo o que o corpo precisa e tento não ser atropelado por um ônibus que segue rumo ao Terminal Princesa Isabel e que não deu a mínima para o semáforo. Vai saber o que se passa na cabeça do motorista, á uma hora destas, já deve estar lá pela sua segunda ou terceira viagem, vindo dos confins de alguma periferia extrema, lugar muito parecido com o que me forjou, lugar de onde sou mais um filho pródigo... Como eu, autêntico servidor de um extrato social abaixo dos 20% que falei a pouco (e que daqui á algumas horas estarão tirando seus Audi’s blindados da garagem rumo á uma academia ou escritório bosta de gente, bosta de vida.), não reclama, age, instintivamente, opera, sem emoção, dor, ou contestação.O Duque de Caxias continua lá, com o corpo de bronze sendo comido dia a dia pela benção que é a chuva acida da cidade, o que este puto pode ter feito além de exterminar milhões de paraguaios para ganhar uma estátua deste tamanho? Juro que apertaria a mão do primeiro maluco que se prontifica-se a explodir esse monumento ao mau-gosto....Caralho, alunos...Alguns já estão sorrindo...Os cabelos úmidos do banho matinal, olhos remelequentos...me esforço mas o máximo que me vem na cara é um sorriso que não posso nem chamar de amarelo...
O trajeto da Duque esta acabando para mim. Açougues, inferninhos, lojas de sapatos, eletro-eletrônicos contrabandeados... A Sala São Paulo aparece enorme com o estilão neoclássico no local que um dia foi sede da Estação Sorocabana... Tanto gasto numa reforma, que não só é irônica mais como também é trágica, pois quem esta no seu entorno só adentrou aquelas portas enormes á trabalho ou pedir informação, seus usuários definitivamente não são daqui, e é uma pena...Não dá para não pensar na pujança econômica que este bairro já teve com o café, e hoje é habitado por um mar de gente pobre, em situação irregular, colombianos, coreanos, japas, peruanos, judeus desvalidos, essa cidade é um zoológico mesmo...
Ouço o sinal, mais um dia de luta, adentro os portões, alguns me abraçam outros gritam de longe apelidos com os quais não dou a mínima, e sinto que estou fazendo parte de algo. Mesmo tendo uma cara de penitenciária o colégio transmite uma aura de segurança á minha alma. Talvez eu ainda esteja aprendendo. Talvez eu tenha que permanecer mais tempo dentro de salas de aula...Eu recebo um papel...É uma história em quadrinhos onde eu,como um super-herói espanco um brutamontes valentão...É, tem coisas que ainda valem a pena. Adentrar portões, salas de aula, adentrar corações, vidas, memórias, isso vale.

Comments

Viny Rodrigues said…
A cidade funcional, funciona. Nos engole aos poucos e depois cospe em forma de títeres mal cheirosos.
O ensino disciplinar nos transforma em cidadãos, mas afinal de contas o que diabos é ser um cidadão? É ser igual a esses moribundos que vc descreveu?
Então ser o anti-cidadão é o nosso objetivo e sabe porque? porque ainda estamos vivos. "Enterrados vivos, mas vivos"
...essa cidade que se cuide!!

Abraços malander

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Sapatos

Estranho como a mente processa a memória e assim nos ofereça respostas. Os tempos são de angústia e ansiedade. As notícias que chegam de todo lado, só fazem trazer desgosto. Houve um tempo, que eu passava incólume por um mundo que se despedaçava, mas não me sinto mais capaz para isso hoje. E talvez a música no ouvido, injete uma porção de nostalgia no coração para que as nuvens mais escuras da alma, abram espaço para a boa sensação. Assim, você se contesta. É como se o homem de hoje, olhasse frente a frente nos olhos do menino do passado.  As importâncias que se transformam. As prioridades que ficam para trás, solapadas por outras cada vez mais pesadas e estruturadas. Na rota intermitente e incessante da vida, que pode virar um enorme triturador de sonhos, se não for conduzida com mão firme. E as soluções nos jogos da mente, brotam, como respostas de pouca duração.  Penso no quanto a maneira de se vestir, e mais especificamente de se calçar tem uma certa importância ...

Contando.

Sentindo como se a jaula fosse romper. E como se eu pudesse correr sem saber a direção. Talvez o trabalho não seja ruim como se pretende. Ou seja demais para se acreditar. Fato é que o medo aperta seu estômago até quando se é pela felicidade. O medo derrete a certeza. Na confiança frouxa só o ditado do velho pai. "Cachorro mordido por cobra foge até de linguiça". o relógio corre. sem piedade. foto: rodrigo kristensen: http://rodrigokristensen.tumblr.com/post/8303194050/my-windows-view-of-sao-paulo-taken-with-instagram

De 1 a 2.

um brilho de olhos claros acende meu coração. toca em pele alva minha negra alma na noite do sono tranquilo sinto seu doce respiro mãos buscam abrigo no meu peito e um beijo suave carimba em silêncio as minhas costas. eu gostaria de entregar palavras que valem o mundo que afaga o coração ferido e estende a mão ao sofrido nos campos de batalha da vida eu planejaria mundos, arquitetaria idéias e artifícios mas me perco, e rodopio usando as palavras simples do dia a dia, só dizendo o que sinto. eu tenho uma vida cheia de passado e um futuro de possibilidades, vocalizações ferozes de meus demônios medos e muralhas que caem um após o outro pois eles não tem espaço, como não tem os abutres que nos veem de longe. pois ontem fui um, e com você sou dois, no caminhar infinito do que virá.