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Pontes

Eu era um office-boy, muito antes do advento da motocicleta como veículo barato e meio rápido de entrega viciar os escritórios. Usava jeans, camiseta, o tênis da moda (que geralmente custava o valor de meu salário e mais um pouco) e um walkman. Desde o s 14 anos eu insistia em explicar para o Moreira, o barbeiro do bairro, como era para ele imitar o corte daquele ator americano, um tal de James Dean. O corte baixo escondia o encaracolar do crescimento capilar, e o topete era imprescindível...Mamãe sempre achou que eu tinha um gosto demodê e retrô, sempre falava, mas nunca achou ruim, talvez até gostasse.
Da janela dos ônibus eu via a cidade se esparramar por todos os lados, enquanto Ian Curtis, Morrissey, Robert Smith, Ian MacCulloch, ou a bela Siouixe Sioux, cantavam suas dores e desilusões aos meus ouvidos. Cidades de pó, garotos que não choram, oceano de chuva,“rádio e sua transmissão” e um menino com um espinho em seu flanco, penetravam meu cérebro, dando sentido ao monstro de concreto que eu desbravava dia a dia .Rolês por uma São Paulo garoenta e muito cinza. Tinha momento em que as fitinhas Basf 60 de chromo ou ferro eram substituídas por outras. O som mais agressivo me inspirava nas andanças á pé no centro,com o sol á pino do meio dia, esquentando meus miolos. Era hora perfeita para se ouvir Dead Kennedys, Suicidal Tendencies, MC5, Discharge, Minor Threat...tudo no ritmo da cidade, acelerado, caótico e um pouco apocalíptico.
Um dia conheça o Jaraguá ao pé do pico, noutro entregue o envelope na Imprensa Oficial e faça um lanche vendo o pessoal bater uma bola no campo do Juventus, na Mooca. Banco, secretarias, burocracias mil...Contas, vale transporte á ser substituído, passada em lojas de lingerie para troca (!) de meias calça. Muitas matadas de passe, descendo por trás do ônibus ou passando por baixo da catraca. Dinheiro muito bem gasto depois. Toneladas de vinis, histórias em quadrinhos, camisetas de rock. Correr o dia todo pelas veias asfaltadas do monstro. Garotas, elas em toda parte...com belos sorrisos, pernas torneadas, bustos desenvolvidos, uma paisagem que valia ser revista, mesmo que eu acaba-se por enfiar a cabeça num poste, por não olhar para frente. Eu não sabia ainda, mas muitas que me permitirão entrar em suas vidas, serão promovidas com a intensidade de minha paixão e a sinceridade de meu sentimento. Mesmo as que me foderão, mesmo as que vão me dar a amizade e o amor mais doce e puro.
Tantas possibilidades, tanto acontecendo, as ruas me apresentaram o cinema, as sessões de estudante á meia entrada nas quartas as 14 horas...O teatro, a Biblioteca Mário de Andrade, que me parecia ter sido arrancada de Gotham City. A vida fluindo num mundo diferente do meu. Local pobre, de onde eu saia as 5:30 da manha de segunda á sexta. Mas pelo menos eu não era balconista ou atendente do McDonalds, tinha meu fim de semana para voltar e ver as ruas do centro vazias...Cruzar o viaduto do chá e lembrar do cara que pirou e se jogou de lá numa tarde de 1983, quando eu passava com minha tia á caminho da casa dela em São Bernardo do Campo.
Cruzar as pontes, Cidade Jardim ou Euzébio Matoso, ou ainda nos dias de grave atraso a João Dias. Marcos divisórios de meu mundo, o lugar que eu sempre pensava em deixar, mas que estava cravado em meu coração, pele e modos. O gueto, a perifa, são mais presentes em nós do que qualquer roupa ou emprego possam esconder. Ninguém pode deletar o que é na realidade. Eu entendi cedo, minhas palavras e gírias me denunciavam. E quando eu comecei a entender os livros de história que meu pai insistia que eu lesse, eu vi o feudo e as pontes que separam os grandes senhores, em seu núcleos seguros, da massa de empregadas domésticas e pedreiros que meu bairro fornecia. Sim eu via os castelos e as pontes e eu não era nem o príncipe da história e muito menos o escudeiro...
O tempo passa, não cruzo mais aquelas pontes, estou do outro lado da esfera e lembro ainda muito bem quem sou e de onde vim, mais ainda tudo o que passei e enfrentei para me tornar novo,vivo a cada dia de entrega de pontos. A ponte medieva esta estática, eu a olho hoje por cima da plataforma serpenteante do metrô eu ainda vejo o cinturão de pobres amarrar o centro amedrontado das cameras voltadas á calçada. Gente nas calçadas vivas durante a manhã para morrer durante o dia, cabelos úmidos de banho, cheiro de sabonete. É bom ver as ruas, é bom ter lembraças e sentir quem sou. Ver que o único que pode me vencer ou me derrubar, sou eu mesmo Nos vemos por aí.

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