Tossiu. Ouviu como resposta a reverberação de um quarto semivazio . Encolheu-se febril no cobertor, puxando junto lençol e afundando o colchão desnivelado. Suava. Virou-se para o outro lado. A garganta doía, sua mente vagueava num fluxo descontínuo de memórias e delírios de um corpo doente. Entre abriu os olhos, os números fluorescentes do despertador indicavam muito pouco de alteração da ultima olhadela. Não saberá dizer se muito, o tempo pode ter andado, ou a mente só vagueou em refluxo, girando como o quarto. Os dentes batiam, tateou o chão, o copo de água estava vazio. Não tinha cama, o colchão previamente forrado por papelão isolava um pouco o frio que emanava do piso. Levantou-se, saiu para o corredor, envolvendo o cobertor no corpo como um poncho chileno, os chinelos estavam frios, os pêlos de braços e pernas eriçavam-se. Chegou na cozinha bebeu água, no fogão apanhou uma xícara de chá. Não era um chá comum. Era uma velha receita do pai, do lado índio da família. Era uma estranha mistura de camomila, limão, alho, mel, açúcar e um pouco de sal. Péssimo de ser engolido. Do bolso sacou alguns comprimidos coloridos. Antigripais.Ao voltar ao quarto acendeu a luz. Tudo no mesmo lugar. A dor se espalhara, sentou numa velha cadeira, apoiou a mão sobre uma pequena mesa e apoiou a fronte. Lembrou-se Dela. Pensou em como estaria, no lar onde viveram. Lembrou-se das cores da ex-casa. Da junção de elementos de ambos que transformava a reles kitnet em um lar.No lar que foi deles um dia. Nos cheiros que estavam nos lençóis que trouxera consigo. Nos pêlos brancos e pretos dos gatos e que ainda estavam em suas roupas. Gatos que agora só respondiam á uma dona. Sentia frio mais que da febre, sentia frio no espírito por não ser. Ele olhou no calendário, era um domingo de outubro, fora um dia fresco, mas que em sua pele tinha baixas temperaturas. A sua volta meia dúzia de caixas, uma televisão velha, outra caixa com lp´s e seu inseparável toca discos. Trêmulo saiu da cadeira, arrastou duas caixas de som de uma parede ao lado, posicionando-as paralelamente, puxou os pequenos fios desencapados e sem plugs e conectou ao toca discos. Foi até a tomada, ligou-o, zerou o volume do aparelho e viu o pequeno prato prateado e negro girar elegantemente. Sentado de frente para o aparelho esticou o braço apanhando um disco.O cheiro de papelão velho da capa, preservada, mas com um plástico protetor em frangalhos, quase o excitava. Era a prova real da sinestesia, elementos físicos e matérias de sua persona, carregados de valor e memória. O círculo negro desceu de suas mãos, recebeu a agulha em seus sulcos, os finíssimos riscos deixavam a agulha correr levemente e brilhavam em reflexo da lâmpada, num dançar giratório continuado, um minueto mecânico.

Pensou em sua morte, no como se dera. No estado em como se encontrara. Em como seria a nova manhã. Limpara com as costas da mão o nariz que escorria.O novo dia do desafio, do renascimento. Não há túneis brancos, nem arcanjos á sua porta. Nenhum Pedro com uma porção de chaves do céu, ou um Lúcifer em seu trono de ossos e tormentos. Folheou o encarte do disco, ali estavam palavras imortalizadas pelo eletromagnetismo. Em seu coração e memória as mesmas eram crivadas de momentos. Em cada estrofe, ainda com o volume baixo, ia estabelecendo uma relação mais íntima com seus pertences. Lembrou-se de contar uma história a pedido Dela. E recorreu á dias de estrada, punk rock e aventuras á preço baixo. Ela riu curiosa, interessada. Ele ficou feliz por encontrar algo perdido no tempo. Falou das paisagens de um frio Paraná, de músicas em um carro irregular rodando em estradas sem fim. Sentiu pela primeira vez os doces lábios tocando os seus. Estavam num sofá velho. Ela deitara-se ao lado Dele, e a cabeça Dela repousava tranqüila sobre seu peito. Foi o sono mais tranqüilo de sua vida. E a canção que ouviram ali era a mesma dessa madrugada de dor...
“Sing me to sleep Sing me to sleep I'm tired and I I want to go to bed Sing me to sleep Sing me to sleep And then leave me alone Don't try to wake me in the morning 'Cause I will be gone Don't feel bad for me I want you to know Deep in the cell of my heart I will feel so glad to go...”
Ele não iria embora pela manhã. Permaneceram por anos juntos. Sentia dor e cansaço. De seus olhos algumas lágrimas desceram. O disco permaneceu girando, até o estalo de um mecanismo denunciar o fim das canções, e a remoção do braço de cima do vinil. Já estava de volta ao colchão. Esticou mais uma vez o braço quase tocando o chão e puxou o fio do aparelho da tomada. Estava morto novamente nas trevas psicóticas da mente e de seu quarto. Mas como tudo que responde um ciclo, os ponteiros do relógio cumpriram sua responsabilidade. Adormeceu. O despertador bem que tentou acordá-lo, mas sua programação encerrou-se no meio do dia que adentravam. Uma buzina, um ônibus embaixo de sua janela denunciava algum sonolento com o farol do cruzamento, se foi isso mesmo ambos despertaram. A camisa estava úmida. Foi ao banheiro, olhou sua própria feição como de um homem abatido pela doença. Olheiras, a profundidade em sonos perdidos. Sentia-se bem. Tomou um banho. Da janela viu as ruas. Ao voltar ao quarto, sentou-se à mesa do computador, não sentia mais a dor. Parecia que mais anos se passaram da noite anterior até o momento presente.Tudo em sua ordenação caótica da urbe, mas dentro de um contexto, sem lógica. Ao vestir-se parou diante do armário do banheiro, pegou mais um punhado de comprimidos e enfiou goela abaixo. Era hora de acordar, o renascimento é cobrado pelo tempo, e este ninguém doma. Seu coração não resmungou. Seu ego ainda doía, mas a percepção o jogou na dança do tempo. Um pouco guardado como uma urna funerária, o restante soprando como brisas de uma cidade beira mar, desarrumando cabelos de quem cruza seu caminho. Ele optou. Viver. Com química, com chás índios, ou nada disso, a doença instalada pede que se combata com a vida. Com dor ou não, o mundo não pode ouvi-los como nas noites de um belo passado.
a ilustração é de autoria de meu amigo Thiago Cutovoi, em uma interpretação livre á respeito desse texto, o que me deixa muitíssimo lisongeado.
Comments
Obrigado
T.
Ao balanço do barco.
E sem saber pra onde se ruma.
valeu!
abraço