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Les Plaisirs et Les Jours

Colisões. Grãos infinitos e incontáveis na areia fugidia rumo ao tragar incontrolável no fundo da ampulheta. Uma gota de suor em Sua face, o salto quase caprino do ponteiro rumo ao instante seguinte. “Apropriar-se” pensa Ele. Tomar as ferramentas da sedução. O que são as relações neste mundo de superficialidade? Ser um pouco mais que a foto carregada, num server perdido em lugar qualquer deste mundo? Uma porção de pixels numa tela, um mar infinito de números alinhados em equações binárias, perdidas nas profundezas de alguma memória lógica magnética... Como oferecer vida, carne, osso e nervos de aço, num mundo onde as pessoas são descartáveis como absorvente e preservativo? Num mundo onde o tesão se tornou químico e azul. Ele não é o rei do asfalto e do concreto, mas se atém ao que está nas mãos. Ao dom que tem. O traquejo com as palavras, que não tem tanta confiança, mas faz uso, saltitantes por entre Seus dedos. Palavras têm força. Para derrubar reis e coroar mendigos. Para se ganhar e se perder. O indicador aperta o botão direito do mouse. “Clic”, um salto de janela. O punho faz um giro sutil, onde o cursor, como um cão fiel vai pulando de janela em janela. “Sites de relacionamento são para fracassados” resmunga. Nas madrugadas sem fim, o trabalho o põe como um. As mãos pesadas, de dedos longos geram a barulheira no teclado amarelo-amarronzado de Seu computador, é quase uma ladainha, um resmungo de velho á exigência de um corpo exaurido. Mas a curiosidade o atiça, nestas horas de se fugir do trabalho, o instiga. O deixar a mensagem certa, com as palavras metodicamente colocadas, que pedem uma resposta. Tendo que soar despretensioso e respeitoso. O contato é feito. Parece ser mais difícil do que parecia. Um punhado de fotos bem discretas, mensagens que não permitem traçar um perfil. Ele se atém as outras janelas. A dança. O tempo. Vem a noite e a manhã do outro dia...Algo o alerta, o inibe. Uma força maior o impulsiona. Uma mensagem digitada.Duas palavras e um ponto. Uma madrugada perdida como a de qualquer dia, de qualquer semana, de qualquer ano de uma vida tão ordinária, como de qualquer reles homem cosmopolita. Um corpo nu dorme só num quarto de solteiro.

Sol laranja no céu. Manhã fresca em brisa e nuvens cinzentas e correntes. Buzinas infernais em Seus ouvidos. Seu despertador diário. O sono esquartejado, por perfuratrizes e britadeiras. O complô semanal é revezado, este sim o verdadeiro sistema de perseguição. Segunda, a empresa do gás. Terça, a companhia telefônica, Quarta, a fiação elétrica começa a ganhar o subterrâneo. Quinta, após uma chuva, o semáforo do cruzamento embaixo de sua janela precisa ser trocado, e qual é o melhor horário? Na madrugada do intelecutal-peão, que labora solitário seu ganha pão em compor o resultado de Suas pesquisas, e busca no silêncio a paz dos compositores, dos escultores que endireitam suas peças mal acabadas. Uns procriam, outros criam. E o mundo gira. Se pega pensando se não são as estocadas de todo sexo, de toda madrugada que põem a Terra á girar. Sua cabeça dói. “Essa cidade deve ter mais buracos do que ruas , afinal moro num queijo?”. Pensa “...deveríamos dar lugar aos ratos, já que pagamos o IPTU, para esburacar as ruas a invés de arrumá-las”. "E de quem é a culpa? Do prefeito, do bispo, do exército, Minha? No final quem se fode sou eu! Vítima e culpado num corpo só. Foucalt adoraria essa teoria” ri Consigo próprio. Ao lado do computador, um último pedaço de pizza fria, tem um olhar tristonho. Com um pouco de refrigerante parece a coisa mais deliciosa do mundo. Com um começar destes de dia, o humor moribundo, melhor se entregar ás hiper-estradas do conhecimento, a nulidade do mar de cores caracteres da net. Se sua disciplina é elogiada na entrega de trabalho, ela também o presenteia com a benção da vadiagem. Tão logo abre o site Ele recebe uma resposta. Uma foto sorridente ao lado, o mesmo sorriso que o cativou numa noite passada, numa verificação do perfil. Agora esse lindo rosto parece convidá-lo. Estranho como tudo parece fácil. O conforto de um monitor. Falar e não ser ouvido. Ser sentido sem o exame infalível dos olhos. Segurança e insegurança, talvez. Ele pensa a resposta certa. Não consegue desviar o olhar do status. E o que esta ali o afugenta e o convida em fetiche, da quebra dos dogmas sociais. Os olhos sinceros o convidavam, o magnetizavam. O cabelo, a pele morena. E, sobretudo o sorriso. Sempre ele. Para a resposta, dentre tantas formulações prefere a mais honesta. Poderia mentir, mas não é de seu feitio. A confirmação da mensagem enviada precede um revirar estomacal, que desde o fim da adolescência Ele não sentia. Será que a pedra vai se partir em pó? Em sedimentos, em micro-partículas de desejo e vontade? Mais um dia de trabalho. O calor nas ruas, o monóxido de carbono entra por sua janela e o alimenta. Ele não se importa. O teclado continua lamentando o espancamento diário. Os gatos em sua posição de reis fazem o serviçal abandonar o posto e suprir os suseranos. Sente-se preso às engrenagens do tempo. Da rotina. Pensa. Pensa. Pensa. E vê o quão dolorido isso se torna quando feito na lógica do trabalho de construção. É como se cada leitura, cada análise de linha, conteúdo, cada raciocínio, fosse uma lata de concreto, de pedreiros maltrapilhos que carregam para montar sua torre de Babel, em busca de chegar ao céu em acerto de contas com Deus.

As semanas correm á Seu encontro. Ele trabalha agora com uma janela de resposta instantânea ligada. Telefonemas foram dados. Sotaques reconhecidos em uma massagem deliciosa ao pé do ouvido em voz feminina. Ele ri. Conta feliz de seu passado e a ouve, a lê. As histórias de uma vida de mulher, amores, entregas, derrotas. Os críticos da modernidade apontam a frieza das relações virtuais. Pensam que não existe relação sem contato, mas não percebem que a crítica se encaixa no objeto, e não nos usuários.O que se deve esperar? Os errados não são as máquinas, pode se condenar um míssil por matar? Um carro por atropelar? Ele ignora os donos da verdade. Ele aguarda o encontro, com um nó no estômago. O tremor feliz pelo corpo e uma revolução entre Suas pernas. O tempo continua perseguindo-o, lembrando em sua mente de historiador os prazos, e o que já apodreceu de sua vida. Mas agora o relógio esta preguiçoso, pois se Murphy instaurou sua lei não foi á toda. A foto em pixels continua sorridente. A fala adentra o campo dos anseios e planos. Vagando ainda no profundo das pulsões sexuais, onde dedos deixam de encontrar-se para serem cúmplices dos desejos próprios, na fluidez corporal.A foto tem um nome que é como doce, gostoso sobre a língua. Um mosaico de pequenas peças foi sendo construído deliciosamente. Um olho. Uma canção. Um riso. Uma história. Vidas. Humanidade e desejo. Agora faltam o cheiro e o abraço, a noite e uma Lua coroada. Para que a mão de uma mulher gire uma maçaneta e abra uma porta. Para que lábios se encontrem e corpos falem a linguagem atemporal do início da civilização.Sem posses, sem graduações, sem cobranças. Um homem e uma mulher em cumplicidade. A amizade que o mundo insiste em matar. Ele voltou a sonhar. Ele está preso nas engrenagens do tempo contando os grãos da ampulheta. O sentido e o sentimento estão dados como uma roleta de jogo de azar. O que fazer? A espera de lábios que corram o calor em suas veias. Mãos que toquem o seu corpo na ansiedade de fantasias trocadas e reveladas. Os dias vêm, os prazeres devem ser saciados. E serão. Sempre. Como o tempo á sempre de se renovar.
o título foi surrupiado de Proust. a inspiração veio Dela. Clic em Noala e Theo, eu mesmo.

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