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augusta, charm, dejetos da humanidade

Cruzar o bairro em suas mais variadas direções é um exercício não só físico, mas que privilegia a apreciação do zoológico á céu aberto que é o perímetro central de São Paulo. Subir a Rua Augusta, entre néons dos puteiros, com o forte cheiro de amoníaco nas portas e calçadas, cheiro de sexo que impregna a pele. Um sexo pago, o sexo sujo, que é unilateralmente prazeroso sem dores de consciência. Um prazer que fugiu á tranca afrouxada de uma moral doentia e entrou na roda dos bens de consumo e prazer imediato. Subir, ascender ao “paraíso” (que na realidade fica na outra extremidade do cume da Avenida Paulista), torres de vidro do poder, antenas gigantescas da ostentação, o tecnológico e o analógico juntos, formando uma alegoria anacrônica de um corredor de pujança econômica.Essas caminhadas me excitam a observação. Ao fim do dia é bom tentar reorganizar as idéias e escrever sobre. Terapia leitor, não mais que isso.

Eu me detenho á alguns metros antes de chegar ao topo, suor numa noite fresca de inverno. Estamos no hemisfério sul e não se esqueça, estamos do lado pobre da Augusta. Pergunto-me de onde saiu tanta gente, ás 2 da madrugada. Como um polvo que só me veio a mente recordando “20.000 Léguas Submarinas” de Julio Verne, eu vejo uma porção de braços desconexos, acotovelando-se nos balcões do Charm. Nome péssimo, para um lugar proporcionalmente execrável por sentença. Sujo, gorduroso com sua sempre presente névoa de nicotina.

Tudo bem, você deve estar se perguntando agora por que todo meu rancor. Com certeza é por que você é um bêbado frustrado que gosta de ficar sozinho? Não. Então é o contrário é um que não bebe, e não suporta ver o prazer alheio? Talvez. Admitir que gosta de ver os outros divertindo-se é louvável, mas aceitar que no fundo você gostaria que determinado lugar pega-se fogo, ninguém consegue aceitar. As travas morais bloqueiam as pessoas. Agora o meu ponto de apoio ao incêndio. As pessoas seriam obrigas a migrar pra outra freguesia, seria como um serviço de utilidade pública, no qual, não me eximo de ter um prazer enorme em poder estar sugerindo tal idéia. Para que tanta gente empolada num mesmo lugar? Para que acotovelar-se num balcão sujo, e em mesas espalhadas nas calçadas. Intolerante eu? Rio de você, antes que você possa terminar de soletrar “nazistas, fascistas não passarão”.

Que o que falo aqui seja um desabafo ou exercício de humilhação alheia, valha-me Deus, mas está sendo ótimo, e segura mais essa. O problema da Rua Augusta naqueles quarteirões próximos á Paulista é exatamente tudo o que fode a cidade e a faz mais bela. A gente. Gente demais. Parece que tudo do universo peculiar da cidade, tem uma amostra grátis, ou menor escala ali no quarteirão. Confesso que 2 espécimes da fauna local atualmente tem tomado minha atenção. Os universitários-descolados-bobões e os rockeiros-plásticos-instantâneos. Vou acometer minhas observações acerca do primeiro. Barba, óculos, um olhar que, ao mais vivido e observador, transmite uma sabedoria de profundidade igual á de um pires. A fala empolada, pedante, dona da verdade. A voz que domina os meandros da Filosofia em um semestre de faculdade, que escreve poesia, aprecia o bom samba (mesmo que desconheça que este bom samba seja feito pelos filhos das empregadas que lavam suas roupas íntimas), o maracatu de tão longínquas praias. Antenada ao novo milênio edita sua produção á tantos megabytes por minuto, para colocar em seus blogs pessoais. Onanismo cibernético, punhetação virtual como diriam os mais sujos ou pura auto-indulgência bundona. Tudo nivelado por muito baixo. Senhores da razão não é? Meninos louros, bem alimentados gordinhos, os olhinhos claros que não choraram á porta do colégio, pois sempre conheceram o conforto da van escolar. As mãozinhas que apenas seguraram o lápis e a caneta nas mãos entre um brinquedo e outro, mas nunca sentiram a lama, de uma rua sem asfalto. Que não sabem o que é bolinha de gude, um pião. Ou o que é ser goleiro usando um par de havaianas nas mãos. Os ouvidinhos que amam o Noel, Cartola, Jamelão e não conseguem aceitar aquela música de preto do Mano Brown. E olha, eu já ia esquecendo, estamos de frente para o Espaço Unibanco, lar de tantos outros congêneres deste espécime, talvez lá estejam papai e mamãe vendo um incrível filme iraniano, do qual pela não compreensão, será alçado á status de obra-prima e encomendado quando lançado em dvd. Stendhal, em “Vermelho e o Negro”, criou um bibliotecário que sabe que seus patrões não lêem as maravilhas que possuem, os vendedores de dvds carregam o legado de entregar material que só se acumula em ricas estantes sem utilização. É a estética “cultural”. Visual de gênio entende? Tudo o que os filhinhos universitários da “fefeleche” (olha a intimidade) estão reproduzindo...

E nossos rockers? Geração MTV plugada no mundo, muito visual para pouco conteúdo. Outro mau ao ecossistema local, é o surgimento de casas “rockers” na região. Se bem que dou preferência á elas, podia ser pior, nem quero imaginar outros antros “surf-reggae-emepebístico” tomando conta do lugar. Sei lá, antes ser rockeiro tinha seu potencial marginal, rebelde, quase ameaçador. Hoje é pastiche, quase uma caixa de bis morango, falso como uma nota de 3 reais. Sabe, eu sei que é pura intolerância, eu não estou pedindo sua compreensão ou apoio. Se quiser parar por aqui fique a vontade, mas o descarrego vai continuar.Quem disse que eu tenho que ter um motivo para escrachar o que não gosto? Por que diabos aqueles cabelos, aqueles piercings, e aquelas roupas ridículas? Caralho estamos em 2005, isso esta socialmente assimilado não choca mais nem a minha finada Vó (que ela descanse e paz onde estiver e não veja estes bastardos miseráveis). Não estou puxando a sardinha para o lado de ninguém, sou apenas um observador, e meus vislumbres agregam á todos os subseguimentos de “mods que usam terno no verão” á punks, emos, death-rockers clientes da Galeria do Rock ou Ouro Fino.

O grande lance é o seguinte. Essa geração, estas crianças perdidas são frutos de um universo que não compreende o plural. O diferente é anomalia.Vendo só seus pares não há como aceitar as similaridades do diferente em seu meio. A muralha social os impede de ver o samba no morro, apenas engole a informação televisiva deturpada. É a geração dos espaços modulares, condomínio, escola, academia, danceteria, shopping, carro. È uma visão tolhida da dimensão, do espaço e que para a comunidade longínqua também serve. Os mantêm sob controle para ultrapassar o perímetro apenas a serviço e os impede de se revoltarem, tudo o que precisam esta ali. Quer saber? Estou com sono, cansado e com fome. Vou parar por aqui, ir para casa. Eu cruzei a ponte sobre o Pinheiros á 3 anos, como diria Mano Brown: “Se é pra voltar pros barraco de pau...Vamo. Mas vamo de cabeça erguida!” e ainda Eddy Rock, “Você sai do gueto, mais o gueto nunca sai de você”. Estou aqui para dançar sobre as carcaças e rir dos donos da verdade, dos poetas de araque e principalmente dos pseudo-intelectuais. Boa noite.

tem certas coisas que nem com o tempo. esse rabisco rancoroso estava perdido num email de mais de um ano atrás. a carga corresponde ao momento que foi-se como a bituca de um cigarro apagado.por outro lado, a observação da fauna ainda é válida. sei que é cru, ruim, meio perdido na escrita, e superado em relação á outros feitos depois, mas merece ser documentado. outras análises serão feitas. outros passeios noturnos serão dados.

M.

Comments

Gustavo said…
sábado passado fiquei plantando uma hora naquela curva de rio, esperando umas pessoas. tive ânsia de vômito, literalmente.
Caio said…
Percebi ontem vários comentários seus naquele treco que eu chamo de blog.
Queria agradecer pelo apoio moral nas horas de necessidade, você é uma das poucas pessoas que percebem o quanto é necessário dar umas patadas na vida e o quanto é saúdavel sentir raiva, ódio, tristeza nos momentos em que eles devem ser sentidos, sem culpa, com paz de espírito (sem se iludir com o lema novela das 20h "temos de ser felizes 24 horas por dia, 7 dias por semana"...)...
Precisamos conversar sobre a publicação rs...

abraço e vamus em frente que atrás vem gente!!!!

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