Pois bem. Ele não é mais que um mero rabiscador. Sem falsa modéstia. Ele sabe do potencial que tem, da vontade de pôr o câncer interior numa tela branca, e que há quem goste. Sabe transformar o vazio num mar de caracteres. Onde se reconhece, e se transforma em personagem. Ele se interpreta. Ele sente falta de si por não haver tempo em meio ao “matar o leão de todo dia”. Ele é sedutor, cativante, passional e com a vida presa num maxilar travado na boca. Sabe que seu alter ego talvez seja mais do que ele próprio.
Os dias são de trabalhos e não é mais dado o espaço para a paixão. O combustível que o move, atração, sedução e descoberta estão em animação suspensa. Agora só existe o monitor. Não há alunos. Não há coordenadoras chatas. Existe a pesquisa. Existem as contas, elas nunca acabam, elas nunca vão embora. Não pior que os prazos e resultados.
Todos saíram. Os casais ou foram ficar á sós, ou estão visitando famílias. É uma boa chance de trabalhar em solidão total. O gato amarelo como que indo comprar os cigarros, nunca mais retornou. Uma lembrança doída perpassa o peito. A bola de pêlos talvez tivesse mais significado do que Ele imaginasse. Em dias de uma casa murcha como um vaso que seca, adotaram outro felino. Noala é seu nome. Magricela, dorminhoca e com olhar tristonho. Vive encolhida pelos cantos com o ralo pêlo preto e branco. Dentro de sua caixa de papelão sua cama, seu canto.
Ele esta cercado de cd´s de entrevistas, livros,material de trabalho e sente como se a vida se esvaísse por seus dedos a cada digitar. Ele sabe do que precisa. E mesmo que tudo desabe é melhor relaxar. Esquenta o café. Decide descer as escadas e ir á padaria comprar uns biscoitos amanteigados, “ a dupla perfeita ” pensa. São 21:45, ainda há tempo. No balcão apóiam-se os últimos bêbados do dia ao lado dos primeiros da noite. Os inferninhos do entorno estão começando a abrir as portas. “Seria legal” pensa ele. Fazer um passeio antropológico...Ver as pessoas que se disfarçam de amorais e tentam resgatar uma migalha de vida em seus dias de morte continuada. Mas, o prazo não espera. As contas não esperam.Dividido entre o tempo e a espera, é melhor ir e se enfiar no trabalho.
Quando volta e abre a porta Noala o olha de sua caixa de papelão. Se fosse o gato amarelo, estaria esperando na porta como um cão, quem sabe ele passou todo esse tempo pensando que fosse mesmo.Pode ser que tenha caído na real se reconhecido gato e dado foda-se ao mundo, e as obrigações de afeto. Bom, seria uma boa desculpa á todos que perguntavam da ausência do “verdadeiro dono da casa”. Seria uma boa resposta para si próprio.
O café esta fumegante. O cheiro corre toda casa. Ele lembra-se dos meses que não vê os pais e os irmãos. A foto da mãe, o olha do guarda roupa. Áureos tempos que podia enrolá-la pra não fazer lição de casa e só. Mas Ele precisou vencer dois rios e muitos desafios “Trabalhar para morrer” diz o nome de um disco gravado por amigos á muito tempo. Saindo do quarto ele Pega na pilha de cds um disco do The Clash. “london caling”, vai tendo a bateria imaginária que tem o som seco da mesa do computador. “I live by the river!” Essa frase nunca foi tão real.
A mente não processa. A concentração esta em seu limite. A cada digitar, a cada parada ele conclui que nem todo o dinheiro do mundo valerá a pena se ele enlouquecer. Talvez este seja um de seus maiores medos. Apodrecer isolado vendo o mundo por outra razão. O arquivo que o escraviza é fechado. Ele se vê só ouvindo a voz de John Strummer. A gata come um pouco e deita-se em seu divã de papelão. Ele mordisca alguns biscoitos amarelados que saem um á um do pacote.
A janela fechada abafa uma freada á frente de sua casa.”Foda-se o mundo” pensa Ele. Tem momentos que geram muito mais problemas do que os que esse pode solucionar com o trabalho.Embaixo de uma carapaça de desconfiança e sentimento existe a sensibilidade. Existem espaços para a as amigas, que o ouvem e buscam sua visão masculina acerca da vida. A lembrança de uma conversa de horas antes aperta seu peito. E lhe deixa uma sensação de incômodo. Ser amigo, morar coletivamente. O problema do individual com o grupo.Ele não nega auxílio á quem pede seu socorro, sendo humano ou não, com seus rancores e baixos instintos, a mão não tarda ser estendida. Ele se lembra das lágrimas e de com a mão no ombro dela prescrever um único remédio “distancia”. Ele não sabe se dará certo, mas seu ombro estará lá.
Hoje a grande placa de concreto que é a cidade de São Paulo foi o terreno do terapêutico. Andar, disc man no ouvido, e andar até a mente esvaziar e as pernas cansarem. A terra da garoa não tem mais umidade no ar. A música dos fones desinfeta sua cabeça ao passo que os pulmões recebem o monóxido de carbono.ao fim da tarde chove, um temporal para higienizar o espírito, quase levando-o enxurrada abaixo rumo ao Rio Tamanduateí.
Ao chegar, despe-se toma um banho quente, e ouve aos poucos a chuva esvair-se. Liga o computador como um ritual corriqueiro. E ai começa o segundo parágrafo acima. O diferencial agora é que o café da xícara com o pentagrama na frente, já se aninhou de vez no estômago, aquecendo o corpo. Se nem a gata dá atenção Ele pensa em retomar algum texto parado. Ele havia prometido há outra amiga, uma citação. A principio escreveu uns versinhos com algum enigma entre as palavras.Mas ela merecia mais. Entra no MSN. Ela esta lá. E não é por exercício de sedução.É uma companhia verdadeira.Tão diferente. Tão distante na superfície do país. Ligados como pela sinapse constante de um grande cérebro.Contentes pelo que lhe são comuns.Ela é tão só quanto Ela. Ela tem ainda em seu mundo e ansiedade como o Dele. Diferenças e similaridades. Ele pensa em mostrar os versos. Pequeno ajuntamento que prometeu como presente de amizade.Em 2 clics um arquivo salta de Sua pasta:
“Foi a tua curiosidade
E assim chegamos aqui
Reunidos ao acaso do destino
Nem começo, nem fim
Aceitou meu desafio
Não se contentou e arcou
Destino não existe para quem
Ama o dia após o outro, sem expectativas”
Sua festa de despedida da faculdade seria hoje. Todos com suas fantasias, felizes pelo open bar que nunca se extinguirá, fazendo o momento entorpecido a lembrança do fim. O ingresso esta na carteira e ficará lá. Muitos perguntariam o por que da desistência. E a questão vai além do afeto. São as relações de importância na vida de qualquer um . Por hora o trabalho, por hora o que o completa, muito mais que estar com quem Ele não se importa, por mera convenção social. Ela abre uma janela e como se conhecem á eras o papo flui. Companhia pra os solitários. Alento para os loucos. Ambos concluem que a Net é uma ferramenta, vai de quem usa e de como se usa. O dia dá sinais de raiar. Por algumas horas a vida pareceu muito mais simples do que as complicações.Ele olha o pequeno verso, o pequeno presente de amizade, no outro arquivo do Word. Não tem coragem de mostrar. Ela se despede e o sono cai com uma avalanche sobre seu corpo. Antes de rumar para seu quarto.Um login é feito e mais um texto fica imortalizado em caracteres na virtuália. E antes de bater a cabeça no travesseiro e tem a certeza de que o presente esta entregue. Ela vai ler. Como acabou de ler este texto, agora.
Boa noite e um beijo querida.
Os dias são de trabalhos e não é mais dado o espaço para a paixão. O combustível que o move, atração, sedução e descoberta estão em animação suspensa. Agora só existe o monitor. Não há alunos. Não há coordenadoras chatas. Existe a pesquisa. Existem as contas, elas nunca acabam, elas nunca vão embora. Não pior que os prazos e resultados.
Todos saíram. Os casais ou foram ficar á sós, ou estão visitando famílias. É uma boa chance de trabalhar em solidão total. O gato amarelo como que indo comprar os cigarros, nunca mais retornou. Uma lembrança doída perpassa o peito. A bola de pêlos talvez tivesse mais significado do que Ele imaginasse. Em dias de uma casa murcha como um vaso que seca, adotaram outro felino. Noala é seu nome. Magricela, dorminhoca e com olhar tristonho. Vive encolhida pelos cantos com o ralo pêlo preto e branco. Dentro de sua caixa de papelão sua cama, seu canto.
Ele esta cercado de cd´s de entrevistas, livros,material de trabalho e sente como se a vida se esvaísse por seus dedos a cada digitar. Ele sabe do que precisa. E mesmo que tudo desabe é melhor relaxar. Esquenta o café. Decide descer as escadas e ir á padaria comprar uns biscoitos amanteigados, “ a dupla perfeita ” pensa. São 21:45, ainda há tempo. No balcão apóiam-se os últimos bêbados do dia ao lado dos primeiros da noite. Os inferninhos do entorno estão começando a abrir as portas. “Seria legal” pensa ele. Fazer um passeio antropológico...Ver as pessoas que se disfarçam de amorais e tentam resgatar uma migalha de vida em seus dias de morte continuada. Mas, o prazo não espera. As contas não esperam.Dividido entre o tempo e a espera, é melhor ir e se enfiar no trabalho.
Quando volta e abre a porta Noala o olha de sua caixa de papelão. Se fosse o gato amarelo, estaria esperando na porta como um cão, quem sabe ele passou todo esse tempo pensando que fosse mesmo.Pode ser que tenha caído na real se reconhecido gato e dado foda-se ao mundo, e as obrigações de afeto. Bom, seria uma boa desculpa á todos que perguntavam da ausência do “verdadeiro dono da casa”. Seria uma boa resposta para si próprio.
O café esta fumegante. O cheiro corre toda casa. Ele lembra-se dos meses que não vê os pais e os irmãos. A foto da mãe, o olha do guarda roupa. Áureos tempos que podia enrolá-la pra não fazer lição de casa e só. Mas Ele precisou vencer dois rios e muitos desafios “Trabalhar para morrer” diz o nome de um disco gravado por amigos á muito tempo. Saindo do quarto ele Pega na pilha de cds um disco do The Clash. “london caling”, vai tendo a bateria imaginária que tem o som seco da mesa do computador. “I live by the river!” Essa frase nunca foi tão real.
A mente não processa. A concentração esta em seu limite. A cada digitar, a cada parada ele conclui que nem todo o dinheiro do mundo valerá a pena se ele enlouquecer. Talvez este seja um de seus maiores medos. Apodrecer isolado vendo o mundo por outra razão. O arquivo que o escraviza é fechado. Ele se vê só ouvindo a voz de John Strummer. A gata come um pouco e deita-se em seu divã de papelão. Ele mordisca alguns biscoitos amarelados que saem um á um do pacote.
A janela fechada abafa uma freada á frente de sua casa.”Foda-se o mundo” pensa Ele. Tem momentos que geram muito mais problemas do que os que esse pode solucionar com o trabalho.Embaixo de uma carapaça de desconfiança e sentimento existe a sensibilidade. Existem espaços para a as amigas, que o ouvem e buscam sua visão masculina acerca da vida. A lembrança de uma conversa de horas antes aperta seu peito. E lhe deixa uma sensação de incômodo. Ser amigo, morar coletivamente. O problema do individual com o grupo.Ele não nega auxílio á quem pede seu socorro, sendo humano ou não, com seus rancores e baixos instintos, a mão não tarda ser estendida. Ele se lembra das lágrimas e de com a mão no ombro dela prescrever um único remédio “distancia”. Ele não sabe se dará certo, mas seu ombro estará lá.
Hoje a grande placa de concreto que é a cidade de São Paulo foi o terreno do terapêutico. Andar, disc man no ouvido, e andar até a mente esvaziar e as pernas cansarem. A terra da garoa não tem mais umidade no ar. A música dos fones desinfeta sua cabeça ao passo que os pulmões recebem o monóxido de carbono.ao fim da tarde chove, um temporal para higienizar o espírito, quase levando-o enxurrada abaixo rumo ao Rio Tamanduateí.
Ao chegar, despe-se toma um banho quente, e ouve aos poucos a chuva esvair-se. Liga o computador como um ritual corriqueiro. E ai começa o segundo parágrafo acima. O diferencial agora é que o café da xícara com o pentagrama na frente, já se aninhou de vez no estômago, aquecendo o corpo. Se nem a gata dá atenção Ele pensa em retomar algum texto parado. Ele havia prometido há outra amiga, uma citação. A principio escreveu uns versinhos com algum enigma entre as palavras.Mas ela merecia mais. Entra no MSN. Ela esta lá. E não é por exercício de sedução.É uma companhia verdadeira.Tão diferente. Tão distante na superfície do país. Ligados como pela sinapse constante de um grande cérebro.Contentes pelo que lhe são comuns.Ela é tão só quanto Ela. Ela tem ainda em seu mundo e ansiedade como o Dele. Diferenças e similaridades. Ele pensa em mostrar os versos. Pequeno ajuntamento que prometeu como presente de amizade.Em 2 clics um arquivo salta de Sua pasta:
“Foi a tua curiosidade
E assim chegamos aqui
Reunidos ao acaso do destino
Nem começo, nem fim
Aceitou meu desafio
Não se contentou e arcou
Destino não existe para quem
Ama o dia após o outro, sem expectativas”
Sua festa de despedida da faculdade seria hoje. Todos com suas fantasias, felizes pelo open bar que nunca se extinguirá, fazendo o momento entorpecido a lembrança do fim. O ingresso esta na carteira e ficará lá. Muitos perguntariam o por que da desistência. E a questão vai além do afeto. São as relações de importância na vida de qualquer um . Por hora o trabalho, por hora o que o completa, muito mais que estar com quem Ele não se importa, por mera convenção social. Ela abre uma janela e como se conhecem á eras o papo flui. Companhia pra os solitários. Alento para os loucos. Ambos concluem que a Net é uma ferramenta, vai de quem usa e de como se usa. O dia dá sinais de raiar. Por algumas horas a vida pareceu muito mais simples do que as complicações.Ele olha o pequeno verso, o pequeno presente de amizade, no outro arquivo do Word. Não tem coragem de mostrar. Ela se despede e o sono cai com uma avalanche sobre seu corpo. Antes de rumar para seu quarto.Um login é feito e mais um texto fica imortalizado em caracteres na virtuália. E antes de bater a cabeça no travesseiro e tem a certeza de que o presente esta entregue. Ela vai ler. Como acabou de ler este texto, agora.
Boa noite e um beijo querida.
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